Viagem do papa à França mostra mundo de pernas para o ar, mas com desejo de reconciliação
Ao menos no papel, "Leão 14: o papa do multilateralismo" não parece o mais emocionante dos slogans. Aliás, seria a coisa menos novidadeira do mundo, já que a Santa Sé tem apostado todas as suas fichas na diplomacia há muitas décadas.
Mesmo assim, a recente visita do pontífice americano à França mostrou que, num mundo virado de pernas para o ar por formas ressurgentes e virulentas de nacionalismo, os desejos de reconciliação ainda não desapareceram de todo.
Não foi por acaso que o "tour" aparentemente triunfal de Leão por um dos países mais laicos da Europa terminou em Metz, na encruzilhada entre França, Alemanha e Luxemburgo. Ali, o papa e os cardeais franceses decidiram homenagear um dos moradores ilustres da cidade, o franco-luxemburguês Jean-Baptiste Robert Schuman (1886–1968).
Schuman era membro do pequeno grupo de estadistas ligados à chamada democracia cristã que, menos de uma década depois da Segunda Guerra Mundial, lançaram as bases da integração econômica de seu continente —e da futura União Europeia.
Pensando justamente nos escombros pós-nazistas de seus vizinhos alemães, Schuman declarou que a integração faria que "qualquer guerra entre França e Alemanha se tornasse não só meramente impensável, mas materialmente impossível". Por enquanto, ele mostrou estar correto, e Leão 14 buscou retomar esse espírito ao falar de paz.
Em Metz, o papa alertou que as relações internacionais estão se tornando "cada vez mais bárbaras", que "o valor de manter a própria palavra está sendo deixado de lado" e que "as pessoas se vangloriam das mentiras e do engano". "A Europa pode quebrar esse ciclo por meio do respeito em relação aos outros que aprendeu a cultivar e preservar", arrematou o pontífice.
Leão aproveitou ainda a presença de outros líderes religiosos —judeus, cristãos e muçulmanos franceses— para dizer que "o discurso religioso deve conclamar constantemente ao desarmamento dos corações e das palavras". "De fato, invocar o nome de Deus para justificar a violência ou a opressão equivale a profanar esse nome", afirmou.
É inevitável pensar nas rusgas do papa com o governo Trump diante dessa condenação da retórica de "guerra santa" adotada pelo republicano e do atual vale-tudo pós-diplomático americano. Mas a fala cabe igualmente para a visão do papado sobre o conflito na Ucrânia ou sobre o morticínio em Gaza.
A surpreendente presença de 800 mil pessoas nas ruas de Paris para ouvir Leão sugere que a mensagem, que há menos de 20 anos poderia soar óbvia ou banal, agora tem uma ressonância insuspeita mesmo para quem não faz parte da atual minoria católica da França (hoje correspondente a cerca de um quarto da população, enquanto pouco mais da metade dos franceses afirma não ter religião).
A exemplo do que se vê em outros países europeus, o declínio pronunciado e de longo prazo nos números de batismos, casamentos religiosos e participação regular na missa tem sofrido uma levíssima mudança de curso nos últimos anos. Desde 2016, os batismos de adultos franceses que resolveram seguir a fé triplicaram, chegando a 13 mil neste ano.
"Vocês são os santos da França", disse o papa ao saudar os convertidos e demais fiéis, mas sem negar a fragilidade dessa renascença, comparando-a a uma "pequena chama que o Espírito Santo acendeu na escuridão da noite, a semente pequenina que luta para crescer em meio aos espinhos".
Ao mesmo tempo, a visita também evidenciou as tensões permanentes entre a doutrina da Igreja, mesmo quando anunciada por uma figura supostamente "woke" (diriam os trumpistas) como Leão, e uma sociedade tão secularizada quanto a francesa.
Em visita a Lourdes, o grande santuário dedicado à Virgem Maria no sul da França, famoso pelos relatos de curas milagrosas desde o século 19, o papa fez questão de reunir diante de si os enfermos que visitam o local para condenar a aprovação do suicídio assistido em casos de doença incurável, recentemente aprovado na França.
"É precisamente em nome da dignidade alienável da pessoa humana que devemos rejeitar a tentação de causar a morte sob o disfarce da falsa compaixão", declarou o papa.
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