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Monday, September 14, 2026

Rock in Rio 2026 perde apelo em edição com repetições, chuva e k-pop

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Em 2026, o Rock in Rio não teve uma de suas melhores edições. Ainda que tenha tido noites memoráveis, caso do show de Elton John e do dia do k-pop, o festival, encerrado no domingo (13), sofreu com as chuvas, que castigaram o Parque Olímpico do Rio de Janeiro em boa parte do evento, apresentações esvaziadas e uma perda de interesse do público.

Isso pôde ser observado nas vendas de ingressos. Desde que passou a acontecer a cada dois anos, a partir de 2011, o Rock in Rio raramente abria seus portões sem ter esgotado todas as entradas disponíveis. Desta vez, em 4 dos 7 dias do festival, ainda era possível adquirir tíquetes para o evento quando os shows já estavam rolando.

A organização considera um público oficial de 700 mil pessoas no total, sendo 100 mil por dia. Mas isso só seria possível se todos os dias os ingressos estivessem esgotados. A percepção, impossível de se confirmar, é de que talvez este seja o Rock in Rio com menos público, pelo menos desde 2013 —quando passou a ter sete dias de duração.

Há várias explicações para isso, mas nenhuma delas é maior do que a escalação das atrações. Neste ano, aprofundou-se a perda gradativa da capacidade do Rock in Rio de atrair os shows mais quentes da música popular ao redor do mundo.

Seja no pop —com Taylor Swift e Harry Styles, para citar alguns— ou no rockOasis, System of a Down—, há anos que esses artistas preferem trazer suas turnês para shows solo em estádios brasileiros. No caso do Rio, até os eventos gratuitos na praia de Copacabana se tornaram mais atrativos para as estrelas —basta lembrar do furor causado por Lady Gaga e Madonna recentemente.

Neste ano, os headliners foram Foo Fighters, Avenged Sevenfold, Calvin Harris, Elton John, Stray Kids, Maroon 5 e Twenty One Pilots. Com exceção do cantor britânico, todos eles vieram ao Brasil há no máximo três anos, sendo que um deles —o Avenged— esteve na última edição do próprio Rock in Rio.

Foo Fighters e Maroon 5, que tocam com frequência maior no país, apresentaram-se no The Town, o irmão paulistano do Rock in Rio, em 2023. Harris, o primeiro DJ a ser a atração principal do palco Mundo, o maior do evento, na história do festival, tocou em um trio no último Carnaval, em São Paulo. O Stray Kids lotou estádios nas duas grandes metrópoles brasileiras no ano passado, quando o Twenty One Pilots também fez uma mini-turnê no país.

Não à toa, Elton John fez o show mais emblemático do festival, emocionado pela despedida dos palcos do Brasil, e emocionando dezenas de milhares de pessoas com isso. O dia em que ele foi escalado, inclusive, foi também o melhor do evento, com outra despedida comovente, a de Gilberto Gil, e shows inesperadamente celebrados de Roupa Nova com Guilherme Arantes e Péricles cantando sucessos da gravadora Motown.

O sucesso desses brasileiros, inclusive, pode apontar caminhos para o Rock in Rio superar a dificuldade de renovar a escalação dos gringos. Há dois anos, o festival tentou ampliar a participação nacional com um "dia Brasil", que não funcionou como se esperava, mas trouxe ótimos shows de ritmos escanteados no evento, como o samba.

Se para as estrelas internacionais o festival não é mais uma coqueluche, para as nacionais é como ser convocado para a seleção brasileira. É quando eles se preparam para ocasiões especiais e dão tudo de si no palco.

João Gomes levou um cortejo de frevo e maracatu com dezenas de pessoas ao chão do evento e fez uma celebração marcante das várias vertentes do forró. Ivete Sangalo consegue renovar arranjo, palco e repertório a cada vez que canta no Rock in Rio. Gilberto Gil levou mais gente ao palco Mundo do que grande parte dos estrangeiros. Joelma mostrou que tem poder de fogo para encher —e sustentar— o palco Sunset com o brega paraense.

Nunca na história tantos músicos brasileiros fizeram turnês em estádios e grandes arenas. Isso pode significar algo para o Rock in Rio, que tem a capacidade de reunir multidões em seu DNA.

Em contrapartida, diversos nomes de fora fizeram shows esvaziados ou aquém da capacidade dos palcos. Foram os casos de Nova Twins, The Hives, PJ Morton, Jon Batiste, Mgk, Poppy e Halsey, só para citar alguns. O argentino Milo J, escondido no palco Supernova, foi uma grata surpresa.

O Rock in Rio não precisa virar um evento de música brasileira para ampliar, diversificar e dar maior destaque aos artistas daqui, que podem aproveitar a oportunidade para fazer shows exclusivos, diferentes de suas turnês usuais. Quanto aos estrangeiros, eles podem até vir em menor quantidade se isso significar maior qualidade, urgência e apelo.

Grande novidade desta edição, o k-pop trouxe shows marcantes —caso da cantora Hwasa— e introduziu uma geração à experiência de ir a um festival para ver seus cantores favoritos. O público foi provavelmente o mais jovem da história do Rock in Rio, cheio de crianças e adolescentes.

Faltou, no entanto, uma maior integração com o resto do evento. Quem foi pelo k-pop só queria ver esses artistas e passou a maior parte do tempo sentado esperando pelos shows, ao ponto de obstruir a passagem das pessoas. No palco Sunset, o Jamiroquai mostrou seu groove irresistível para uma plateia pequena, formada só por quem não era fã do Stray Kids.

Neste ano, não deixou de ser verdade que o Rock in Rio tem a melhor estrutura dos megafestivais do país, incluindo os banheiros, o desenho dos palcos e a potência do som. A pista premium recém-inaugurada, um cercadinho pequeno com bar e banheiros próprios na frente do palco Mundo, não atrapalhou, mas também não deu a impressão de valer a fortuna que custou.

Já a chuva, algo que está fora do alcance da organização, castigou o Parque Olímpico na maioria dos dias e atrapalhou a experiência. Muita gente largou o show de Calvin Harris antes do fim porque não aguentava mais ficar tantas horas molhada e várias poças d'água se formaram.

A poucas semanas de uma eleição acirrada, e em meio a um noticiário de Brasília fervendo, o Rock in Rio foi uma ilha deslocada no tempo e espaço. Se em 2022 houve algumas manifestações nos palcos e na plateia, desta vez a política foi praticamente ausente do evento —que em sua primeira edição, em 1985, abrigou hinos de uma juventude que clamava pelo fim da ditadura militar.

Daniela Mercury botou um cavalo preto, aludindo a "Dark Horse" —o filme sobre Jair Bolsonaro financiado pelo banqueiro Daniel Vorcaro—, distribuindo dinheiro no palco, mas não disse nada sobre o assunto no show. O rapper Delacruz usou uma camiseta com uma discretíssima foto do presidente Lula no palco Supernova, um dos menores do Rock in Rio. Salvo alguma exceção, não passou muito disso.

Chamou a atenção ainda como o Parque Olímpico não ficou tão cheio nos dias do rock e do heavy metal —os gêneros mais identificados com o Rock in Rio. Houve shows bem prestigiados, como os de Bring Me the Horizon e Foo Fighters, mas a apatia dominou na maior parte do tempo.

Com ou sem rock, a edição de 2026 deixa a impressão de que a bem-sucedida fórmula estabelecida pelo Rock in Rio desde 2011 está chegando a um esgotamento. Dadas as mudanças na indústria de música ao vivo no Brasil desde o fim da pandemia, surge a necessidade de uma reformulação —se não para recuperar a relevância de outrora, pelo menos para voltar a atrair público.

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