Um Bloco de hipócritas

A capacidade de transformar um princípio universal numa regra aplicável apenas aos outros é uma das características mais reveladoras da hipocrisia política. O episódio protagonizado pelo Bloco de Esquerda, recentemente, a propósito da transparência no financiamento partidário, constitui um exemplo particularmente elucidativo dessa hipocrisia.
A 16 de Abril de 2026, o deputado Fabian Figueiredo requereu a audição urgente da Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos (CADA) e da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP), contestando as restrições ao acesso jornalístico às listas nominativas dos financiadores dos partidos.
O argumento do Bloco era inequívoco: limitar o acesso a essa informação prejudicaria o escrutínio público, dificultaria a identificação de potenciais conflitos de interesses e comprometeria a transparência democrática.
Sucede que, durante a audição, a discussão sobre a transparência no financiamento partidário trouxe para o centro do debate as próprias práticas do Bloco de Esquerda. A Presidente da ECFP expôs, precisamente, as dificuldades e contradições associadas à forma como o Bloco de Esquerda tratava a identificação dos seus financiadores. Aliás, a Sra. Presidente da ECFP referiu, mesmo, que há um partido político em concreto que se recusa a entregar elementos que permitiriam identificar alguns dos seus financiadores.
Ora, a ironia é difícil de ignorar. O partido que exigia esclarecimentos às entidades fiscalizadoras via-se, ele próprio, confrontado com questões relativas à transparência das suas próprias práticas.
Segundo o partido, as listas de participantes em iniciativas de angariação de fundos, como os jantares-comício, estão disponíveis para consulta pelos auditores da ECFP, mas não têm de ser divulgadas publicamente.
Ou seja, o Bloco exige transparência pública quando estão em causa os outros, mas considera suficiente a consulta reservada quando estão em causa as suas próprias actividades. Afinal, a transparência varia consoante o partido escrutinado.
O Bloco argumenta ainda que as contribuições para determinadas iniciativas se destinam exclusivamente a cobrir os respectivos custos, sem gerar receitas positivas. Acontece que a ausência de lucro não elimina a necessidade de esclarecer a origem e a natureza das receitas.
A protecção de dados pessoais é um direito que deve ser sempre observado, mas não pode servir de argumento selectivo, tal como a transparência não pode ser exigida aos adversários e relativizada quando implica escrutinar as próprias práticas.
O Bloco tem todo o direito de defender a sua interpretação da lei. O que não pode é reclamar uma superioridade moral que o dispense de responder às mesmas perguntas que dirige aos outros.
A questão não é, pois, presumir a existência de ilegalidades, mas exigir que o partido tenha coerência. Quem denuncia a falta de transparência dos adversários deve estar preparado para aceitar o mesmo escrutínio. Quem exige regras mais claras não pode procurar refúgio em interpretações convenientes quando chega a sua vez.
No fim, cai a máscara. O Bloco de Esquerda, tão lesto a exigir transparência aos outros, parece descobrir subitamente as virtudes da discrição quando é o próprio a ter de prestar contas. É esta a hipocrisia que importa denunciar. A de quem se arroga de uma superioridade moral que não resiste ao primeiro confronto com as suas próprias práticas. O Bloco não pode exigir aos outros aquilo que procura relativizar para si, nem transformar a transparência numa arma de arremesso político que deixa de funcionar quando se vira contra quem a empunha. Um partido que faz da transparência uma bandeira, mas procura contornar o escrutínio quando este lhe bate à porta, não dá lições de ética a ninguém. Dá, isso sim, um triste espectáculo de incoerência política.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.