Eleição ao Senado em SC embola e Carlos Bolsonaro pode ficar fora
“É raro, mas acontece muito.” A expressão, aparentemente contraditória, traduz bem a irreverência e a picardia do espírito manezinho, como é conhecido o nativo de Florianópolis. Neste domingo, 4, pode servir como resumo de uma das principais interrogações sobre o resultado que sairá das urnas em Santa Catarina, especialmente na disputa pelo Senado.
O mesmo estado que deu 69,27% dos votos válidos a Jair Bolsonaro no segundo turno presidencial de 2022 chega à eleição quatro anos depois com a possibilidade de não eleger para o Senado um de seus filhos. Carlos Bolsonaro (PL) entra na reta final sem uma das duas cadeiras assegurada pelas pesquisas, numa disputa apertada principalmente com Esperidião Amin (PP), enquanto Carol De Toni (PL) aparece numericamente à frente nos levantamentos mais recentes.
A fotografia mais recente é da Neokemp/OCP News, com entrevistas realizadas em 30 de setembro. No consolidado dos dois votos em uma base de 100%, Carol aparece com 29%, Carlos com 21,9%, Amin com 18,7% e Décio Lima (PT) com 12,4%. O instituto ouviu 1.008 eleitores em 168 municípios, com margem de erro de 3,1 pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
Quando os dois votos são separados, aparece uma pista importante. Na primeira escolha, Carol tem 30,7%, Carlos 23,5%, Amin 16,3% e Décio 15,6%. Na segunda, Carol registra 27,2%, Amin sobe para 21,1%, Carlos fica com 20,2% e Décio tem 9,1%.
Como o catarinense escolherá dois senadores, ter um eleitorado fiel como primeira opção pode não bastar. Também é preciso conquistar o segundo voto.
Outras pesquisas ajudam a mostrar como a corrida permanece apertada. O Real Time Big Data, divulgado em 17 de setembro, colocou Carol com 24% e Carlos e Amin empatados numericamente em 20%, com Décio em 11%.
A margem de erro era de dois pontos percentuais. Levantamentos de institutos diferentes têm métodos e períodos de campo distintos e, por isso, não devem ser lidos como uma série única.
Esperidião Amin tenta transformar em voto justamente o atributo que mais o diferencia de Carlos. Ex-governador por duas vezes, ex-prefeito de Florianópolis, ex-deputado federal e atual senador, construiu toda a trajetória política a partir de Santa Catarina. Ele disputa a reeleição pela coligação Santa Catarina Acima de Tudo, formada por MDB, PSD e Federação União Progressista — que reúne União Brasil e PP.
Carlos fez o caminho inverso. Construiu a carreira eleitoral no Rio de Janeiro, onde foi vereador desde 2001. Depois de renunciar ao mandato, transferiu o domicílio eleitoral para São José, na Grande Florianópolis, em dezembro de 2025, poucos meses antes de disputar pela primeira vez um cargo eletivo em Santa Catarina.
A candidatura nasceu de uma estratégia conduzida pelo próprio Jair Bolsonaro. Em junho de 2025, o ex-presidente confirmou que havia reservado para si a indicação de uma das duas vagas ao Senado na composição catarinense e escolhido Carlos. A movimentação alterou o tabuleiro da direita local e terminou, meses depois, com o PL lançando uma chapa própria para o Senado, formada por Carlos e Carol.
A reação ultrapassou os limites partidários.
Ainda em 2025, a Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC) tornou pública uma posição incomum para uma entidade empresarial sobre a formação de uma chapa eleitoral. A federação afirmou que Santa Catarina precisava de representantes “com raízes no Estado” e que a voz catarinense em Brasília deveria nascer da conexão com a sociedade local, “e não por imposições externas”. A manifestação ocorreu em meio à articulação da candidatura de Carlos.
A resistência a um nome vindo de fora também apareceu nas pesquisas anteriores à campanha. Em abril, levantamento da AtlasIntel mostrou que 50% dos entrevistados classificavam a candidatura de Carlos como um oportunismo político contrário aos interesses do estado, enquanto 25,6% a consideravam a melhor alternativa. Era uma fotografia daquele momento, meses antes da eleição, mas ajuda a dimensionar uma dificuldade que acompanhou o candidato ao longo do ano.
Durante a campanha, adversários passaram a explorar justamente esse flanco e chamaram Carlos de “paraquedista”. O candidato procurou responder aproximando sua imagem dos valores de seus apoiadores catarinenses e da identificação do estado com a família Bolsonaro.
Carol chega aos últimos dias em posição diferente. Natural de Chapecó, deputada federal por Santa Catarina e também identificada com o bolsonarismo, aparece numericamente à frente no levantamento mais recente. Na Neokemp, marcou 29%, diante de 21,9% de Carlos e 18,7% de Amin.
A força do número — e a surpresa de Décio
Dois fatores trabalham a favor de Carlos nesta reta final: o primeiro é a força do número, o 22. E o outro, não menos importante, atende pelo nome de Jorginho Mello.
O governador chega aos últimos dias da campanha liderando com ampla vantagem a corrida pela reeleição. O agregador Inteligov/EXAME, divulgado em 26 de setembro, apontava Jorginho com 51,19% das intenções de voto. Já o Paraná Pesquisas, três dias antes, registrara 58,8%. São levantamentos diferentes, mas ambos colocavam o governador em patamar compatível com uma eventual vitória no primeiro turno, caso os números se confirmem nas urnas.
Há ainda um quarto nome correndo por fora. Décio Lima (PT) aparece atrás do trio nas pesquisas, mas carrega um precedente que recomenda cautela com qualquer tentativa de encerrar a eleição antes da abertura das urnas.
Em 2022, Décio chegou ao segundo turno para o governo de Santa Catarina e terminou a disputa com 1.237.016 votos, ou 29,31% dos válidos. Na mesma eleição, Lula recebeu 1.351.918 votos no estado, equivalentes a 30,73%, mesmo diante dos quase 70% obtidos por Bolsonaro. Há, portanto, um contingente expressivo de eleitores que não acompanha a maioria conservadora do estado.
E, a julgar pelo fato de que a capital catarinense também é conhecida como Ilha da Magia, talvez caiba outra máxima antes de qualquer certeza sobre domingo, dia 4: “Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay.”
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