Adolescentes sem photoshop

Depois da revolta do corpo, na puberdade, a relação dos adolescentes com ele caminha no sentido de comporem uma imagem. Muito talhada por influencers. Muito cultivada pelo grupo de iguais. Muito “orientada” pelas redes sociais.
A relação com o vestuário oscila entre um estilo “negligé” (às vezes, com peças vários números acima do seu) e uma espécie de passarelle das marcas e dos modelos do momento. A forma como se alimentam, varia entre o fast-food e os refrigerantes e a delicadeza com que organizam uma dieta que, quando resvala, chega à contagem obsessiva de calorias ou, às vezes, saltita entre as dietas rígidas e a impulsividade alimentar. O modo como se cuidam e se alindam, consoante a idade e o sexo, não passa sem cuidados com os bíceps, sem os piercings e sem a primeira tatuagem, e estende-se à maquilagem e às unhas trabalhadas, até que se crie um estilo (de preferência, “urban chick”). A relação com o cabelo, varia com o rigor e o método com que ele se estica ou se alisa até ao modo como, nos rapazes, se cultivam as versões “degradé” ou “undercut”, mas que começa, regra geral, na forma, demorada e meticulosa, como se despenteiam. E os gadgets, claro, desde a marca do telemóvel, ao saco Longchamp, ao relógio Casio “retrô”, às sapatilhas Adidas ou às sandálias Birkenstock. Transversais a tudo isso estão as T-shirts ou os tops que, faça frio ou faça sol, fazem de cada adolescente um caso sério de “desamor à camisola”.
E, depois, há as redes sociais. Que se transformam no negativo do espelho mágico da madrasta da Branca de Neve, junto das quais, aos adolescentes falta sempre um bocadinho para serem perfeitos. O que, por outras palavras, faz com que, por serem “belezas normais”, se sintam quase feios.
Mas, entretanto, chegaram o botox e as pequenas cirurgias estéticas que se vão tornando (de forma preocupante) mais frequentes entre eles. E se tudo se pode compreender na forma como os adolescentes constroem o corpo, tudo inquieta. Porque parecem demasiados presos à imagem de si. Como se ela e só ela fizesse deles “qualquer coisa de diferente”. Demasiado por fora. E pouco por dentro.
E é aqui que me preocupam os pais. Os adolescentes não têm de ser, sobretudo, imagem e “estilo” ao mesmo tempo que parecem, “obrigatoriamente”, individualistas, egocêntricos e egoistas. Eles são tanto mais bonitos quanto melhores pessoas se tornam. Quando mais falam do que sentem sem Photoshop. Quando aprendem a lealdade, a generosidade e a bondade sem ponta de botox. E quanto mais são educados para a sensibilidade e para a beleza interior. Sem que vão por aí, correm o risco de ficar presos a uma imagem, que estendem de fora para dentro, que faz com que muitos adolescentes, mais tarde ou mais cedo, se sintam despersonalizados e sem saberem quem são. Tudo a favor com os cuidados com o corpo. Tudo a favor da descoberta dum “estilo”. Mas tudo a favor da beleza rara que têm em si da qual estão proibidos de fugir.
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