Dia do Rádio: conheça a história do narrador pioneiro que criou termos até hoje vivos no futebol do Brasil

No Dia Nacional do Rádio, celebrado nesta sexta-feira, 25 de setembro, o ge resgata a história do pernambucano Gagliano Neto, personagem pouco conhecido pelo grande público, mas fundamental para a construção do rádio esportivo nacional.
Nascido no Recife em 1911, ele entrou para a história ao narrar a primeira Copa do Mundo transmitida para os brasileiros, diretamente da França, em 1938.
Galgiano Neto, primeiro narrador do rádio brasileiro em Copas do Mundo — Foto: Publicada pelo Jornal dos Sports, em 1979, aperfeiçoada por IA
Como era há quase 90 anos
Imagine um narrador no meio da arquibancada. A torcida a cantar, a vaiar, a vibrar. Sem cabine, sem comentaristas, sem repórteres de campo e sem a estrutura que hoje acompanha qualquer transmissão esportiva. Apenas o microfone na mão, o barulho da multidão e a responsabilidade de descrever cada lance para milhares de ouvintes espalhados pelo país.
Foi nesse cenário que Gagliano Neto se transformou na voz que ligou o Brasil à França durante a Copa do Mundo de 1938.
Na época, as transmissões radiofônicas enfrentavam limitações difíceis de imaginar hoje. As linhas telefônicas eram precárias, os equipamentos eram pesados e os narradores precisavam improvisar espaço entre os torcedores para trabalhar.
Segundo estudo da pesquisadora Gisela Ortriwano, referência nos estudos de radiojornalismo da Universidade de São Paulo (USP), não havia comentaristas, repórteres de campo nem equipes de apoio.
O locutor, ou "speaker", termo em inglês usado na época, muitas vezes, trabalhava sozinho, diretamente das arquibancadas. Ortriwano, falecida em 2003, traz detalhes da carreira de Gagliano no artigo "França 1938, III Copa do Mundo: O Rádio Brasileiro estava lá", publicado pela revista da Universidade da Beira Interior, de Portugal, em 2000.
Galgiano Neto durante narração do Sul-Americano de 1937, na Argentina — Foto: Reprodução do Jornal dos Sports, de 1975
Três anos antes da Copa, Gagliano Neto havia iniciado a carreira como radialista em São Paulo depois de se formar em Ciências Econômicas pela Faculdade de Contabilidade de Recife. Em 1938, já era titular do departamento de esportes da Rádio Clube do Brasil e foi escolhido para cobrir o Mundial.
Único enviado para o Mundial de 1938
De acordo com artigo "Gagliano Neto: um resgate histórico sobre a trajetória do primeiro 'speaker' do rádio brasileiro em Copas do Mundo", dos pesquisadores Daniel Leal e Giovana Mesquita, publicada na revista científica FuLiA, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ele foi o único narrador sul-americano enviado para a competição e se tornou o primeiro profissional do rádio brasileiro a transmitir uma Copa diretamente do país-sede.
A caminho da França, Gagliano Neto embarcou no navio Arlanza ao lado da delegação brasileira. Foram 18 dias de viagem, com escalas na Bahia e no Recife, onde os jogadores realizaram dois treinos de campo.
A comitiva desembarcou em Marselha vestindo ternos, gravatas, capas de gabardine e chapéus, símbolos da elegância da época. Liderados por nomes como Leônidas da Silva, Perácio e Domingos da Guia, os brasileiros chamaram a atenção dos franceses ainda antes da estreia, exibindo embaixadas e cabeceios e demonstrando confiança para a disputa da Copa do Mundo.

Leônidas da Silva
As narrações, direto da França, mobilizaram o país. Segundo os levantamentos reunidos por Gisela Ortriwano, multidões se reuniam diante de alto-falantes instalados em ruas e praças para acompanhar os jogos. Quem não possuía um aparelho de rádio em casa buscava algum ponto de retransmissão para ouvir a voz que chegava do outro lado do Atlântico.
Sem Leônidas da Silva, ausente na semifinal, o Brasil foi derrotado pela Itália por 2 a 1. Na sequência, a Seleção encerrou sua participação com a conquista do terceiro lugar ao vencer a Suécia por 4 a 2, de virada, resultado que garantiu a Leônidas, autor de oito gols, a artilharia do Mundial.
No dia 19 de junho, um domingo, Gagliano Neto transmitiu diretamente do Estádio Colombes, em Paris, a final da Copa, vencida pela Itália por 4 a 2 sobre a Hungria, resultado que deu aos italianos o bicampeonato mundial.
Gagliano Neto aparece em publicação do Jornal dos Sports de 1979 — Foto: Reprodução/Jornal dos Sports
Foi também em torno de Gagliano Neto que surgiram algumas das contribuições mais conhecidas para a linguagem do futebol brasileiro.
Em entrevista ao jornalista Marcelo Duarte, do Guia dos Curiosos, o neto do radialista, Zilando Freitas, afirmou que o avô ajudou a traduzir para o português termos que até então eram utilizados em inglês nas transmissões. Expressões como "escanteio", derivada de corner, e "falta", em substituição a foul, passaram a ganhar espaço no vocabulário do futebol nacional.
Segundo o mesmo relato, ele também teria criado apelidos históricos para o atacante Leônidas da Silva, como "Diamante Negro", além de ajudar a popularizar o grito de gol nas transmissões esportivas. O ge não conseguiu contato com familiares do narrador, mas confirma as informações a partir de pesquisas realizadas na hemeroteca Digital Brasileira.
Gagliano Neto em anúncio da Rádio Globo publicado na Revista do Esporte Ilustrado, em agosto de 1946 — Foto: Reprodução/Revista do Esporte Ilustrado
As publicações da época mostram que o narrador era tratado como uma celebridade do rádio. Em anúncio reproduzido na pesquisa, o jornal paranaense O Dia destacou que ele possuía "dicção absolutamente nítida", "abundância nas informações" e "excepcional qualidade descritiva". Em outra ocasião, o Jornal do Brasil classificou-o como o "formidável speaker da Rádio Clube do Brasil".
A carreira de Gagliano na locução esportiva chegou ao fim em 1967. O pioneiro em Copas morreu em 5 de março de 1974, aos 62 anos, vítima de um ataque cardíaco, em São Paulo.
Apesar de ter sido a voz da primeira Copa do Mundo transmitida ao Brasil e de ter ajudado a construir parte da linguagem presente no futebol até hoje, Gagliano Neto permanece pouco conhecido pelo grande público. Sua história, porém, segue viva não apenas no rádio esportivo, mas também em cada "falta", "escanteio" e apelido que atravessa gerações de torcedores brasileiros.
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