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Sunday, November 1, 2026

Da marcha à pistola. A cronologia da carga da PSP no Porto

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David Oliveira

David Oliveira

Começou com uma marcha, terminou com um polícia à paisana a mostrar uma arma. Desta vez, o diálogo não resolveu o impasse e a PSP atuou na Praça D. João I. O minuto-a-minuto de uma noite interminável.

A espera entre a tomada de decisão e a carga policial não quebrou os manifestantes. Entre terem decidido montar tendas e o momento em que, madrugada dentro, dezenas de agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP) procuraram furar o cordão humano, passaram várias horas. A resistência, eventualmente, cedeu, e os agentes empurraram a multidão para fora da Praça D. João I. Mas foi já fora do palco simbólico dos protestos pela habitação que se viveram os momentos mais tensos desta madrugada.

Enquanto contavam os feridos e tentavam perceber o impacto da carga policial no grupo de manifestantes, alguns jovens começaram a grafitar o edifício da Câmara Municipal do Porto. Ainda de lata de tinta na mão, foram surpreendidos pela presença de vários homens que rapidamente utilizaram bastões extensíveis. A arma denunciou-os como polícias à paisana e os manifestantes, em clara vantagem numérica, tentaram perseguir estes agentes. De seguida, para tentar afastar os que se aproximavam, um dos agentes à paisana retirou uma pistola, fazendo recuar o grupo que o cercava.

Foi o culminar de várias horas de protestos, que começaram ainda de dia, se prolongaram durante a noite e terminaram apenas quando o sol já tinha nascido, com uma concentração de dezenas de manifestantes à porta da 3.ª Esquadra da PSP na Rua do Heroísmo, para onde foram levados sete detidos, entre os quais duas mulheres do recém-criado movimento “Mães da Acampada”.

David Oliveira

1 – Marcha chega à Praça D. João I e prepara-se a assembleia num ambiente descontraído

16h30

Apesar de estar marcada para as 16h30, foi pouco depois da hora indicada que os milhares de manifestantes começaram o caminho entre a Praça da Batalha e a Praça D. João I. Com menos cartazes do que nos últimos dias, mas ainda com bastantes gritos de ordem e cânticos de protesto, a multidão seguiu pelas movimentadas e turísticas ruas da baixa portuense, cruzando caminho com muitos turistas que foram filmando o cenário, surpreendidos.

Longe da forte presença política notada em Lisboa, a marcha contou com a participação, desde o “primeiríssimo momento” do coordenador do Bloco de Esquerda. Antes da partida, elogiou a “lição enorme de democracia” verificada nos protestos. “O Bloco está onde tem de estar. Os seus militantes estão onde têm de estar, que é junto das pessoas que lutam pelo direito à habitação. (…) Fazemo-lo sem nenhuma estratégia de direção, porque queremos engrossar este movimento. Estou aqui com toda a naturalidade, sem qualquer constrangimento”.

José Manuel Pureza dividiu, também, críticas, dirigidas tanto ao Governo como ao Presidente da Câmara do Porto. “Quando Luís Montenegro foi eleito, prometeu que queria unir o país. E acho que cumpriu essa promessa: o país está unido contra a lei das rendas e agora já só falta mesmo Luís Montenegro retirar a lei. Porque já percebeu que perdeu nas ruas, porque nas ruas o movimento é cada vez mais forte”.

Por outro lado, visou Pedro Duarte, acusando o autarca de ter começado este assunto “da pior maneira”, ao atirar “a polícia contra os manifestantes pacíficos” e prometendo ser “implacável”. Essa posição, disse o bloquista, está “colada à pele” do presidente da câmara e deixa-o com pouco espaço para alcançar acordos. “Pode haver conversas, claro que sim, não há nenhum mal nisso. Desde que haja duas coisas: primeiro, que Pedro Duarte fale de habitação e diga ao que vem; segundo, que respeite o Estado de Direito democrático e não ponha em causa as manifestações pacíficas das pessoas”, disse ao Observador.

“Houve um acordo PSD, Chega e IL. Já todos perceberam que esta lei é extremamente impopular. É muito natural que agora inventem cambalhotas umas atrás das outras. Sairão da fotografia por pressão das pessoas nas ruas”, rematou, lembrando o exemplo da lei laboral como reflexo de que a luta nas ruas pode ter resultados.

David Oliveira

17h30

A marcha pela habitação começou, por esta hora, a reencontrar o espaço habitual de protesto dos últimos dias na cidade do Porto. A Praça D. João I foi-se enchendo enquanto, na parte superior da praça, alguns polícias vigiavam a mobilização, tal como antes haviam acompanhado a marcha pelas ruas do Porto, cortando o trânsito.

Enquanto a praça recebia todos os participantes da marcha, alguns estudantes começaram a distribuir cravos pelos presentes, incluindo os polícias. Eduarda Fã, comissária da PSP que esta madrugada voltaria a liderar o diálogo com os manifestantes, pendurou um desses cravos na manga do uniforme, onde esteve durante toda a noite, mesmo quando o frio apertou e a agente vestiu um casaco. Outros ficaram no para-brisas de um dos carros estacionados pela polícia.

19h20

Com a Assembleia Popular prestes a arrancar na praça, começou a ser divulgada a informação de que nos protestos semelhantes em Lisboa estariam membros do Mecanismo Nacional de Prevenção, um órgão da Provedoria da Justiça. Mas ao Observador, a PSP explicou que o cenário no Porto era diferente.

Estes elementos — que pertencem ao órgão da Provedoria de Justiça que fiscaliza locais em que existem riscos de pessoas ficarem privadas das suas liberdades — foram acionados para os protestos no Rossio na sequência de um requerimento, com caráter urgente, enviado pela jurista Teresa Violante, o advogado Ricardo Sá Fernandes, os professores universitários Susana Peralta e Luís Aguiar-Conraria, a diplomata Ana Gomes e o vice-presidente da Frente Cívica, João Paulo Batalha.

Apesar de os requerentes terem mencionado, no documento enviado à provedora, os cerca de 47 feridos decorrentes de duas ações policiais no Porto, não pediram fiscalização na Praça D. João I para este sábado. Por esse motivo, a PSP não registou a presença desse órgão da Provedoria da Justiça na praça, como confirmou a polícia ao Observador.

Subcomissária Eduarda Fã, da PSP, acompanha os protestos pela habitação na Praça D. João I.

David Oliveira/Observador

2. Assembleia decide montar tendas

19h40

O aperitivo para a rotineira Assembleia Popular foi também o concerto do já habitual Coro da Acampada. Nos momentos que antecedem essa reunião é comum ver um grande grupo a ensaiar cânticos em frente ao Rivoli, para que depois se dirijam ao centro da praça, a partir de onde afinam as vozes dos manifestantes. O cenário voltou a verificar-se este sábado, com a assembleia a arrancar ainda com centenas de pessoas presentes, apesar de muitas terem desmobilizado desde a chegada da marcha à praça, quando ainda seriam milhares.

A mesa da assembleia, instalada diante de uma grande multidão sentada e um semicírculo de pé mais atrás, avisou que a reunião iria ter até duas horas, contemplando um limite máximo de 25 intervenções. Antes do arranque das votações, a organização agradeceu a forte mobilização e admitiu logo uma eventual pernoita. Com isso em mente, partilharam com os manifestantes panfletos com indicações de segurança — que indicavam “o que fazer caso seja necessário resistir”.

Sobre segurança, a organização alertou para a alegada presença de “uns quantos neonazis”, recomendando que os manifestantes permanecessem sempre em grupo. Estes e outros pontos discutidos na assembleia foram também publicados no novo site lançado pelo movimento Acampada para informar das discussões de grupo na praça. Antes das votações, o grupo anunciou ainda o lançamento de um porta-chaves em formato de tijolo com uma intenção solidária, vendido através de “doação livre”. O dinheiro angariado servirá para apoiar os custos judiciais do manifestante detido por ter dito, numa intervenção: “A gente precisa de encontrar o endereço da casa do primeiro-ministro e jogar um tijolo. (…) Acabou ontem essa porra de ser pacífico.”

20h15

Outro dos assuntos levado a votação — e que tem ocupado muitas reuniões do grupo na praça — foi o possível encontro com Pedro Duarte. Longe de ser avistado fumo branco (o autarca continua a querer receber uma parte da organização do movimento na autarquia; os manifestantes não querem ser recebidos na autarquia) a assembleia procurou um meio-caminho entre as expectativas dos dois lados.

Assim, depois de várias discussões sobre outras hipóteses, a assembleia votou entre duas soluções: ou não respondem ao convite de Pedro Duarte ou sugerem um encontro no Teatro Rivoli — que além de ser um espaço municipal, fica na Praça D. João I, o que é assumido pelos manifestantes como uma meia-vitória. Além disso, pode receber mais pessoas, permitindo uma maior mobilização do movimento que defende que só existe enquanto coletivo, não se fazendo representar por pessoas individuais.

Foi com base nestes argumentos, alguns partilhados no período destinado às intervenções dos presentes na assembleia, que acabou por vencer esta hipótese de um eventual encontro no Rivoli. No entanto, não é sinónimo de consenso à vista. Primeiro, porque o autarca do Porto continua a querer reunir na câmara, segundo, porque os manifestantes ainda vão agora discutir, em novas assembleias, em que moldes vão reunir e que propostas irão apresentar.

David Oliveira

20h22

“Iremos armar as tendas”. Foi com esta frase, definitiva e esclarecedora, que uma das pessoas presentes na mesa da assembleia transmitiu a decisão votada e aprovada. O terceiro ponto levado a votação (depois da reunião com Pedro Duarte e do voto de “permanência na praça”) foi aprovado tal e qual como os outros anteriores, mas a pernoita não foi tão consensual como as restantes votações.

No momento de votação registaram-se alguns votos contra, com uma abstenção equiparável aos votos a favor. A mesma pessoa que anunciou a montagem das tendas, lembrou que os votos a favor não significam que “quem votou deva dormir”, garantindo que é apenas um voto de apoio. Atrás da mesa da assembleia, que coordenou os pontos em discussão, estava por essa altura montada apenas uma única tenda, com decoração alusiva ao Halloween, onde se lia “terror imobiliário” ao lado do desenho de um morcego.

21h25

Foi preciso esperar mais de uma hora para que novas tendas fossem montadas, juntando-se a essa tenda verde com decoração de Halloween que já havia sido transportada na marcha que começou a meio da tarde na Praça da Batalha. Pouco depois do fim da Assembleia Popular, os manifestantes começaram a encher a parte de trás da praça com dezenas de tendas. De uma rajada foram montadas 20, mas o número foi aumentando até à meia-noite.

23h20

Se na Assembleia Popular foi percetível a saída de muitas pessoas, que foram abandonando a reunião e deixando muitos espaços vazios, o mesmo não se verificou desde o fim dessa reunião, apesar do frio intenso que se fazia sentir no Porto. As centenas de pessoas resistentes iam dançando ao som de um DJ set, com muita música cantada em castelhano, incluindo Bad Bunny, à frente das quase 40 tendas que foram sendo montadas.

Nas redondezas da praça, permaneciam atentos dezenas de agentes da polícia — com vários carros da PSP e da Polícia Municipal estacionados.

Adivinhando nova carga policial, que viria a acontecer, a organização da Acampada do Porto recomendou aos manifestantes que tencionassem dormir na praça atenção redobrada às informações de segurança partilhadas pelo grupo. O movimento recorreu também ao site hoje divulgado para partilhar um documento PDF com estratégias para fazer frente à polícia.

Antes, durante a assembleia, várias pessoas tinham alertado para a presença de neonazis entre a multidão, sugerindo que a realização de eventos de grupos de extrema-direita na Área Metropolitana do Porto poderia ter atraído alguns radicais para este acampamento. Essa versão foi corroborada por João Beleza, que recordou aos jornalistas que estas suspeitas existem desde o início do acampamento.

“Desde o início que existem grupos que vêm desestabilizar a Acampada. Não é uma novidade, tem sido um esforço contínuo de preparar as pessoas, apelar à segurança. Estamos sempre a tratar de segurança”, garantiu o porta-voz, que não esclareceu se estas suspeitas foram partilhadas com a PSP.

No documento que partilharam — “guia para uma acampada segura” — é pedido que os manifestantes evitem “alimentar rumores que não estejam confirmados”. Recomendam ainda que quem pernoita deve proteger a identidade, com “roupa discreta e máscara”, procurando trazer “capacetes, caneleiras, luvas e óculos de proteção”.

A equipa de segurança montou um esquema de “palavras de ordem” que deve orientar os manifestantes:

“Vermelho” — “Perigo iminente”; as pessoas devem concentrar-se no centro da praça;
“Evacuação” — Após o alerta “vermelho”; as pessoas devem juntar-se e seguir indicações sobre uma rota de evacuação.
“Cordão” — Para formar um cordão, que deverá acontecer apenas de forma voluntária. O documento explica que a primeira fila estará sempre “mais exposta”, devendo as restantes prestar apoio aos manifestantes na fila da frente.

David Oliveira

3. Diálogo não chega a consenso. Manifestantes montam cordão numa longa espera

00h37

Foi já depois da 00h30, hora que tem sido apontada pela PSP como limite para estas manifestações, que começou o diálogo entre a polícia, liderada nestas conversas pela comissária Eduarda Fã, e o movimento da Acampada, que foi alternando os interlocutores.

Num primeiro momento, a agente da polícia dirigiu-se a Catarina dos Santos, recordando à porta-voz que “de acordo com o decreto-lei 406/74 o direito à reunião e manifestação cessa” a partir da 00h30. “Aquilo que solicitamos é que retirem as tendas e, se quiserem permanecer na praça em silêncio e sem os dizeres daquilo que é uma manifestação e reunião, podem permanecer na praça, mas com a condição de tirarem as tendas e desocuparem o espaço público”.

Em resposta, a porta-voz argumentou que este artigo “não é válido perante a Constituição”, sustentando-se em críticas recentes à lei, antes de ter lugar novo diálogo de pergunta e resposta entre os dois lados da barricada.

Comissária Eduarda Fã: A nossa indicação mantém-se a mesma. 00h30 cessa o direito à reunião-manifestação e solicitamos que tirem as tendas.

Catarina dos Santos: Mais uma vez, essa informação será decidida em Assembleia Popular.

EF: A informação foi dada, decidam o que é que querem fazer no que toca às tendas e à permanência aqui na Praça D. João I e depois informem-nos em relação a isso.

CS: Quem deu a ordem que infringe os nossos direitos constitucionalmente consagrados?

EF: A PSP é uma estrutura hierarquizada. A informação que está a ser dada é de acordo com as diretrizes da PSP, tanto aqui no Porto como em Lisboa. A informação que nós tínhamos para dar e aquilo que queríamos estabelecer com vocês era este contacto de perceber a questão da 00h30. Se têm intenções de aqui permanecer na Praça D. João I ou não e se querem fazê-lo com tendas ou não. Ficamos a aguardar essa resposta.

CS: Também nos foi dito na noite de 15 de outubro que poderíamos permanecer na Praça sem as tendas, nós retirámos as tendas e nessa mesma noite foi efetuada sobre nós uma ação policial de extrema violência. Portanto, eu quero perguntar-lhe se me pode garantir, dadas as ordens que recebeu, que ao retirarmos as tendas permaneceremos aqui com o nosso direito de ocupação da via pública estabelecido e não sofreremos nenhum tipo de represália por parte das forças da autoridade?

EF: O nosso objetivo é chegar aqui a um equilíbrio entre aquilo que são os vossos direitos e os direitos, liberdades e garantias de todos os demais. Portanto, com a questão aqui do equilíbrio, se vocês nos disserem que retiram as tendas e pretendem permanecer aqui na Praça D. João I, apesar de que em silêncio, não haverá inconveniente por parte da PSP.

Apesar de a porta-voz ter insistido com uma “garantia de segurança” de que se os manifestantes retirassem as tendas a polícia não iria atuar, a comissária disse apenas que a PSP já tinha esclarecido o que havia a esclarecer. “Aguardamos feedback da vossa parte. Até já”.

00h53

Terminado o primeiro diálogo, os dois lados seguiram caminhos opostos, com a promessa de um regresso por parte da PSP, que queria ouvir a posição dos manifestantes sobre a retirada das tendas. Enquanto os acampados reuniram em grupo para votar uma decisão, a comitiva liderada por Eduarda Fã subiu as escadas da Praça D. João I, juntando-se aos restantes polícias na parte superior da praça.

Menos de dez minutos depois do fim da conversa, quatro agentes encabeçados pela comissária fizeram o caminho inverso e regressaram à lateral da praça, onde esperaram ainda algum tempo pela presença de um representante da Acampada. Neste segundo diálogo, que ditaria o fim destas conversas, foi Sérgio Bastos quem deu voz aos manifestantes.

“Queríamos informar que não tencionamos desarmar as tendas porque são um símbolo da nossa manifestação. Tencionamos continuar a exercer o nosso direito constitucionalmente consagrado”, disse o porta-voz. A resposta da comissária foi breve: “A nossa indicação continua a mesma. Eu vou comunicar o que acabaram de transmitir aos meus superiores, mas a indicação de que às 00h30 devem retirar as tendas e se quiserem permanecer na praça sem as tendas não há inconveniente”.

Depois de Sérgio Bastos ter questionado, novamente, a constitucionalidade da lei apontada pelos polícias, Eduarda Fã explicou apenas que a PSP não iria “prestar mais nenhum esclarecimento”. “A informação mantém-se a mesma desde 1o de outubro”, rematou, numa conversa breve com menos de dois minutos.

4. A musculada e demorada carga

1h00

Assim que terminou a segunda e última conversa entre a comissária e os manifestantes, os manifestantes começaram a organizar um cordão humano. Instantes após ter representado o movimento no diálogo com a PSP, Sérgio Bastos agarrou o megafone e foi gritando indicações de segurança, recebidas por uma multidão apreensiva (e já equipada com capacetes, máscaras e luvas) face à possibilidade de uma nova carga policial.

Apesar de se ter formado um grande cordão (com várias filas) no lado esquerdo da Praça (perto do Rivoli), verificava-se ainda uma via aberta no lado contrário (na Rua Sá da Bandeira), precisamente o local por onde entraram os agentes na carga policial do último fim de semana. Por esse motivo, a organização pediu maior mobilização para essa parte da praça, “onde faltavam pessoas”.

3h00

No entanto, as horas foram passando sem que a ameaça de uma ação policial se concretizasse. Aliás, a partir da praça não era visível qualquer movimentação extraordinária de agentes da PSP, mas a informação que chegava tanto aos jornalistas como aos manifestantes dava conta de outra realidade escondida: numa noite bastante movimentada na baixa (com várias festas a decorrer alusivas ao Halloween), muitas pessoas foram vendo o enorme dispositivo policial que estava estacionado em várias ruas da cidade, perto da Praça D. João I.

Enquanto essa realidade não era percetível na praça, os manifestantes iam dispersando do cordão humano e, muitos sentados, recarregavam baterias e descansavam para melhor aguentar a carga dos agentes.

3h36

Depois de mais de duas horas de espera — que inicialmente começou com uma notória ansiedade dos manifestantes e foi evoluindo para um natural cansaço — começaram a surgir as primeiras movimentações da PSP, quando começou a cortar o trânsito nas ruas adjacentes à Praça D. João I, onde deixaram de ser visíveis carros a circular, ao contrário do que tinha acontecido durante toda a noite.

3h42

Numa lógica de ação-reação, Sérgio Bastos voltou a usar o megafone para apelar, num tom mais urgente, a nova organização do cordão humano, que entretanto tinha dispersado ligeiramente. Nos gritos para os manifestantes, em resposta à mobilização policial que já era visível na praça, o porta-voz voltou a pedir uma maior concentração de pessoas no lado da praça colado à Rua de Sá da Bandeira, local por onde a PSP furou o cordão na intervenção do último fim de semana.

Em frente aos manifestantes continuava um grupo de quatro mulheres com um cartaz a identificá-las como um grupo de “Mães da Acampada”. Isabel, uma das mulheres sentadas, disse ao Observador que vivia estes momentos com apreensão, receando pela integridade física dos jovens mobilizados num protesto “pacífico”.

David Oliveira

3h45

Começaram a chegar à praça dezenas de carros da PSP, a maioria da Unidade Especial da PSP. Ironicamente, os manifestantes receberam esta mobilização com muitos aplausos. Entre a caravana de carros da polícia notava-se uma novidade: a presença de um carro do INEM, com quatro profissionais devidamente equipados para intervir em situações de confrontos.

Num primeiro momento, nem estes profissionais de saúde nem os polícias abandonaram os carros, tendo ficado dentro dos veículos enquanto eram feitos os três avisos.

3h47

Pouco depois da chegada à praça, a PSP começou a fazer o primeiro aviso para a retirada das tendas e de todos os objetos da praça, antes de uma eventual ação policial, que era cada vez mais uma realidade. Esse aviso não se livrou de contratempos: primeiro, o agente que usou os altifalantes instalados na carrinha viu-se obrigado a escolher outra carrinha para falar aos manifestantes, uma vez que as colunas da primeira pareciam funcionar pior.

Mesmo quando já foi possível projetar melhor a mensagem, a intervenção foi abafada por manifestantes que gritavam a menos de um metro da carrinha da PSP. “Somos seres humanos”, gritou várias vezes um homem em inglês.

3h49

Também o advogado Tiago Machado procurou falar com a polícia durante estes avisos, já depois de ter sido dado um prazo de cinco minutos. O advogado tentou argumentar que ninguém tinha ouvido a comunicação da PSP, mas o agente contestou, alegando que os manifestantes já estavam a par do alerta, tendo em conta o diálogo mantido mais de três horas antes entre os dois lados.

“Foi dada a indicação para recolherem os pertences, retirarem as tendas e dispersarem. Caso contrário estão a incorrer no crime de desobediência”, rematou o agente responsável pelos avisos.

4h00

Se na intervenção da semana passada a polícia não procurou cumprir o prazo de cinco ou dez minutos entre avisos, esta madrugada foi mais rigorosa. Ao contrário do que aconteceu no primeiro aviso, o segundo já contou com um pequeno cordão formado por dois polícias em redor do agente que falava ao megafone, para impedir que os manifestantes indignados se voltassem a aproximar. Enquanto crescia a tensão entre os manifestantes, eram já audíveis os latidos dos cães da polícia ainda dentro das carrinhas da UEP.

4h10

Com rigorosa e sincronizada coordenação com Lisboa, os polícias nas duas cidades avançaram para o terceiro aviso à mesma hora, deixando os manifestantes mais ansiosos e já bem agarrados aos braços uns dos outros no cordão humano.

4h20 

Depois do último aviso foi tempo de os agentes começarem a abandonar as carrinhas, perfilando-se num longo cordão de dezenas de polícias que se estendia desde quase a toda a largura da praça, desde o Rivoli até à Rua de Sá da Bandeira, onde estavam ainda mais agentes, no topo das escadas, prontos a entrar em ação. Com a saída dos cães dos carros, os manifestantes reagiram com humor. Primeiro, cantaram “Who Let the Dogs Out”, depois, um manifestante deixou um cão de brincar a andar em frente aos canídeos da PSP, que reagiram com ainda mais fortes latidos.

4h30

A ameaça que estava latente há várias horas concretizou-se. Inicialmente, o desenho tático da PSP foi em tudo semelhante ao da última semana, com os polícias a tentarem uma entrada pelo flanco mais próximo da Rua de Sá da Bandeira, formando uma fila de agentes que tentava furar o cordão de manifestantes junto à estátua do corcel.

Mas com uma grande diferença: apesar de os agentes estarem em muito maior número do que na semana passada, os manifestantes (com uma mobilização semelhante) ofereceram muita resistência e a ação de retirada de todas as pessoas da praça durou, desta vez, mais do dobro do tempo. Essa complicação levou a polícia a tentar um Plano B, procurando penetrar o cordão pelo meio. Ora, essa tentativa revelou-se ainda mais infrutífera: os polícias avançaram, mas viram-se obrigados a recuar porque os manifestantes não cediam de qualquer forma.

Assim, os manifestantes voltaram a apontar baterias para o flanco da Rua de Sá da Bandeira e com recurso, sobretudo, aos escudos de proteção para empurrar os manifestantes, foram levando a multidão para o outro lado, junto ao Rivoli, numa operação de avanços e recuos que levou perto de 20 minutos. Pelo meio, a polícia puxou vários manifestantes, atingiu outros e viu voar sobre as suas cabeças alguns objetos atirados pelas pessoas do protesto, nomeadamente uma garrafa de vidro que se estilhaçou no chão, não tendo atingido ninguém. Houve relatos ainda de polícias atingidos com tinta, sendo visível em alguns agentes uma pintura vermelha na máscara de proteção.

Para trás, a PSP deixou na praça um rasto de destruição, com tendas arrancadas, mantimentos espalhados e lixo pelo chão.

4h51

Não tardou muito até que entrasse em cena a equipa de limpeza da Câmara Municipal do Porto, que começou a recolher os destroços e os últimos vestígios da passagem pela Praça D. João I dos manifestantes pela habitação.

David Oliveira

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5. O polícia à paisana armado

5h09

Se na intervenção da última semana a ação policial terminou assim que a PSP conseguiu afastar os manifestantes da Praça D. João I e, depois, vedar o acesso a quem tentasse voltar, desta vez a história também foi diferente neste aspeto. Empurrados pela Rua do Dr. Magalhães Lemos, os manifestantes viram-se obrigados a reagrupar na Avenida dos Aliados, onde os integrantes do protesto se confundiam com as muitas pessoas que percorriam a baixa portuense depois de uma noite de festa, com muitos disfarces de Halloween.

No topo da avenida, junto ao edifício da Câmara Municipal do Porto, repetiram-se as pichagens da semana passada, não só no muro das rampas de acesso ao edifício da autarquia, mas também no monumento dedicado a Almeida Garrett. “Nós erguemo-nos” ou “Isto ñ acabou”, foi grafitado após a desmobilização da Praça D. João I.

Mas o ambiente ficou tenso assim que alguns homens, que surgiram do meio da multidão, começaram a tentar perseguir os manifestantes que estavam a fazer os graffiti. Por terem bastões extensíveis, foram prontamente identificados pelos manifestantes como sendo polícias à paisana (vestidos à civil, sem uniformes), informação entretanto confirmada pela PSP.

Em clara minoria, os polícias descaracterizados começaram a fugir em direção à Praça da Trindade, mas um deles, perseguido por vários manifestantes, decidiu pegar na arma de fogo tirando-a do coldre, na tentativa de dissuadir a aproximação. Este homem, como comprovou o Observador no local, seguiu para trás de um pequeno cordão de agentes de farda após ter feito um telefonema, enquanto os manifestantes atiravam pedras na sua direção e o insultavam.

Se este polícia à paisana subiu a avenida, outros também sem uniforme, e de bastão na mão, recuaram e seguiram pela Rua de Rodrigues Sampaio, onde encontraram o dispositivo policial que ainda protegia a Praça D. João I. Pouco depois os polícias à paisana regressaram com os agentes uniformizados à Avenida dos Aliados, apontando para alguns manifestantes — não sendo percetível se estariam a identificar os responsáveis pelos graffiti ou os que atiraram objetos aos agentes à paisana.

5h30

Certo é que os ânimos não se acalmaram e, com mais polícias na Avenida dos Aliados, verificou-se nova carga, quando os agentes tentavam afastar os manifestantes da zona em frente ao edifício da Câmara, onde estavam a reorganizar-se. Nessa última carga a polícia empurrou pelo menos uma pessoa contra um autocarro da STCP que descia a avenida, mas os manifestantes acabaram por dirigir-se para a estação de Metro da Trindade, não tendo sido perseguidos pelos agentes.

Manifestantes foram interceptados pelos polícias à paisana quando faziam pichagens

David Oliveira

Manifestantes perseguiram polícias sem uniforme que tinham bastões extensíveis

David Oliveira

Polícias à paisana recuaram face à aproximação dos manifestantes

David Oliveira

Polícias à paisana foram cercados pelos manifestantes, em maior número

David Oliveira

Alguns polícias à paisana correram até à Praça D. João I, onde estava o cordão policial (com agentes uniformizados)

David Oliveira

Um dos polícias à paisana mostrou a arma aos manifestantes para tentar travar aproximação

David Oliveira

6. Apoio na esquadra a “mães” detidas

5h50

Com uma multidão cada vez menor, que se foi perdendo à medida que se sucediam as cargas da PSP, os manifestantes optaram por reunir em frente à estação de Metro da Trindade, onde começaram a fazer os primeiros balanços de feridos. Locas Cruz, da equipa de socorro médico da Acampada, adiantou aos jornalistas que pelo menos três feridos teriam sido levados em estado grave para o Hospital de Santo António.

“Ferimentos de bastonadas e do espancamento da polícia. A maioria tem feridas abertas, traumatismos cranianos, traumatismos da coluna… para além de toda a questão psicológica”, completou, antes da organização apontar para 38 o número total de feridos, incluindo os três levados para o hospital.

David Oliveira

7h00

Tal como aconteceu na última semana, a noite (que entretanto se fez dia) só terminou para os manifestantes em frente à 3.ª Esquadra da PSP, na Rua do Heroísmo, para onde foram levados os sete detidos, depois confirmados pela PSP. Entre os detidos estavam duas “Mães da Acampada”, as mulheres que estavam sentadas num banco entre a fila de dezenas de polícias e o cordão de manifestantes.

Eram quatro e as duas mulheres que foram levadas pela PSP terão recusado identificar-se, mas relataram que os agentes não foram violentos com elas. Uma das quatro mães (que não foi detida) acabou por ser levada ao hospital, mas por ansiedade e não com ferimentos físicos, tendo sido acompanhada pela outra mãe que também não foi detida.

À saída da esquadra, uma das mães, Célia Moreira, explicou, em declarações transmitidas pelas televisões, que “não me quis identificar e trouxeram-me presa”. Está acusada de crime de desobediência, por ter recusado identificar-se na manifestação, segundo declarou. “Aqui [na esquadra] foi tranquilo, foram educados”, acrescentando que irá ser presente a tribunal.

“É inacreditável o que se está a passar e há que tomar uma posição. Não sou a favor daquilo que eles fazem”, assumindo que se manifesta “pelo futuro deles [dos filhos]”. “Tenho de lutar pelos meus direitos também, não são só os jovens que estão a sofrer”. Sobre a intervenção da polícia assume que foi “muito má”, explicando que a polícia, “as mães queriam isolar-nos e, depois, como nós queríamos ir, começaram a querer desviar-nos”. “A PSP é que nos veio buscar para não corrermos algum risco”.

Estava identificada como “Mãe da Acampada”. “É uma tristeza muito grande ver que a democracia, se não tivermos cuidado, num instante desaparece. É esse o receio e o medo de todos nós”. Acabou os diretos das televisões a dizer estar cheia de fome: “quero é ir comer”.

Os números oficiais da PSP chegaram enquanto dezenas de pessoas ainda se concentravam à frente da esquadra à espera da saída dos detidos. Segundo o subintendente Sérgio Soares, porta-voz da PSP, 13 agentes ficaram feridos na sequência da carga policial no Porto. Entre os 13 polícias feridos, 10 são do Corpo de Intervenção da PSP e três estavam a trabalhar à civil — a tal equipa à paisana envolvida numa confusão junto à Câmara do Porto, quando os manifestantes perceberam que quatro homens eram polícias à paisana e um deles mostrou a arma.

“Dois polícias estão no hospital depois de uma agressão dos manifestantes”, detalhou Sérgio Soares. “Um quarto elemento fez uso passivo da arma de fogo.” Os agentes integram uma equipa de monitorização e prevenção criminal.

Em conferência de imprensa, o porta-voz da PSP referiu que a polícia teve de “mais uma vez lamentavelmente intervir em ambos os locais”, devido ao incumprimento do horário das 00h30, às estruturas de acampamento e desrespeito pelo “direito ao descanso, direito à livre circulação, direito ao vosso trabalho [numa referência aos jornalistas]”. A verdade é que já de manhã, após ter ido ao hospital, um repórter de imagem da CMTV relatou ter sido alvo de uma bastonada por parte da PSP, apesar de estar devidamente identificado com um capacete a dizer “PRESS” (imprensa) e de carregar uma câmara de televisão.

Sérgio Soares garantiu que a PSP evitou “ao máximo usar força com bastão policial”, reservando essa utilização para “situações cirúrgicas depois do arremesso de vários objetos, tinta, pirotecnia”.

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