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Friday, September 18, 2026

Testes nucleares da Coreia do Norte podem ter provocado quase 1.400 terremotos

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Os testes nucleares da Coreia do Norte podem ter provocado alterações na crosta terrestre que persistem anos após as explosões. Cientistas identificaram um aumento prolongado da atividade sísmica ao redor de Punggye-ri, local utilizado pelo país para realizar detonações subterrâneas.

A análise encontrou 1.399 terremotos entre 2008 e 2025 na região do Monte Mantap. A frequência e a magnitude dos tremores cresceram ao longo do período, com uma mudança mais acentuada depois do sexto e mais poderoso teste nuclear norte-coreano, realizado em 2017.

Os resultados fazem parte de um estudo publicado na revista científica Science. Segundo os pesquisadores, as explosões podem ter reativado pelo menos duas falhas geológicas antigas existentes na região.

Atividade sísmica aumentou após teste nuclear de 2017

A Coreia do Norte realizou seis testes nucleares subterrâneos no Monte Mantap, na província de Hamgyong do Norte, entre 2006 e 2017. O primeiro terremoto identificado pelo estudo ocorreu em 2013, após a terceira detonação. A atividade permaneceu baixa até 2017, quando aumentou de maneira acentuada depois do último teste.

A explosão de 2017 teve potência estimada em 160 quilotons e provocou um terremoto de magnitude 6,3. Acredita-se que o evento também tenha causado o colapso de uma estrutura no local, possivelmente um túnel.

A maioria dos tremores posteriores teve magnitude entre 2 e 3 e ocorreu em pouca profundidade. Diferentemente do observado normalmente após explosões subterrâneas, porém, a atividade não diminuiu nas semanas seguintes e continuou crescendo durante anos.

Explosões podem ter reativado falhas geológicas

A Península Coreana está localizada sobre uma região de crosta continental relativamente estável, ao contrário do Japão, situado próximo a limites ativos de placas tectônicas. Na área estudada, os cientistas identificaram falhas intraplaca, antigas fraturas da crosta localizadas longe das bordas das placas.

Segundo a equipe, o aumento dos terremotos pode indicar que a crosta não retornou às condições anteriores após a explosão de 2017. A detonação pode ter alterado o equilíbrio das rochas e favorecido a movimentação de pelo menos duas dessas estruturas.

A própria topografia do Monte Mantap também pode ter contribuído. Por ser uma montanha grande, íngreme e assimétrica, algumas falhas podem ter estado mais próximas do ponto de ruptura quando ocorreram as explosões.

Por que os terremotos podem continuar anos depois

Testes nucleares subterrâneos já eram conhecidos por produzir pequenos terremotos, mas esses efeitos costumavam ocorrer nos dias ou semanas posteriores às explosões e permanecer próximos ao ponto da detonação.

O comportamento registrado em Punggye-ri foi diferente. A atividade sísmica persistiu e aumentou mesmo anos depois do último teste conhecido.

Sunyoung Park, professora da Universidade de Chicago que não participou do estudo, apontou um possível mecanismo para explicar esse efeito prolongado. As explosões poderiam ter fraturado grandes volumes de rocha e criado caminhos para a entrada de água.

Com a infiltração, a pressão no interior das fraturas poderia aumentar e facilitar o deslizamento das falhas. Como esse deslocamento de água acontece lentamente, seus efeitos sísmicos também poderiam surgir de maneira tardia.

Região era considerada tectonicamente tranquila

Antes dos testes nucleares, terremotos eram pouco conhecidos nessa área. Os pesquisadores recorreram a mais de 2 mil anos de registros históricos da China e da Coreia para avaliar o comportamento sísmico da região.

Segundo Kwang-Hee Kim, autor principal do estudo e professor da Universidade Nacional de Pusan, os registros mostram atividade muito baixa no entorno do Monte Mantap antes das detonações.

A quantidade real de terremotos após os testes também pode ser superior aos 1.399 eventos contabilizados. A equipe considerou apenas tremores detectados por múltiplas estações de monitoramento e excluiu aqueles registrados por somente uma ou duas.

Terremotos podem dificultar monitoramento de testes nucleares

A persistência dos tremores pode criar um novo desafio para o monitoramento de testes nucleares subterrâneos. Segundo os autores, a atividade desencadeada por explosões anteriores pode dificultar a distinção entre eventos relacionados diretamente a novas detonações e terremotos produzidos posteriormente pela movimentação de falhas tectônicas.

Os pesquisadores não encontraram evidências de que a Coreia do Norte tenha realizado outro teste nuclear depois de 2017. A equipe também não teve acesso ao complexo de Punggye-ri nem a dados sísmicos coletados dentro do país.

A análise foi realizada com registros de ondas sísmicas obtidos na Coreia do Sul e na China, o que impõe limites ao monitoramento direto do que ocorre sob o local de testes.

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