Abstenção, brancos e nulos caem, e 2º turno tem 4,8 milhões de votos a mais

É a maior queda da abstenção já registrada. O segundo turno de 2022 havia sido a primeira vez com uma abstenção menor que no primeiro —queda de 0,5 ponto. Em todas as outras eleições presidenciais já disputadas na democracia, a abstenção cresceu no segundo turno.
Já o percentual de brancos e nulos neste segundo turno de 2026 é o menor já registrado: 3,24%. No 2º turno de 2022, o percentual foi de 4,59%. Em 2018, 9,57%.
No primeiro turno, 33,5 milhões de pessoas se abstiveram. No segundo, 30,5 milhões. Já os votos brancos e nulos somaram 4,15 milhões. No primeiro turno, foram 5,98 milhões.
O acirramento da corrida eleitoral e a mobilização organizada pelos dois lados nas ruas e nas redes ajudam a explicar os números. A restrição no transporte público em diversas cidades do país levanta dúvidas se a abstenção poderia ser ainda menor.
A campanha de Lula (PT) entrou com pedidos na Justiça para prorrogar a votação. A equipe de Flávio Bolsonaro (PL) também solicitou para ampliar o prazo, mas em lugares específicos e por conta de fortes chuvas e falta de luz.
Com a demora em comunicar a decisão de aumentar o tempo para as seções eleitorais continuarem abertas, aconteceu o fechamento de vários locais de votação, e muitos eleitores ficaram sem votar. A Polícia Federal abriu inquérito para apurar esses casos.
Cenário do primeiro turno
No primeiro turno, o número de eleitores que se abstiveram de votar chegou a 33 milhões, segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Em termos percentuais, o número corresponde a 21,07%. Na eleição anterior, esse número chegou a 20,95%, o equivalente a 32 milhões de eleitores.
As duas campanhas se empenharam em levar eleitores às urnas. Na avaliação do professor e cientista político da FGV-Eaesp Marco Antonio Carvalho Teixeira, o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) representam dois projetos muito diferentes para o cenário político do país. "Isso mobiliza mais eleitores no sentido de comparecer às urnas."
Ações no mundo digital também deram o tom da disputa. Dominadas e bem utilizadas pelo campo da direita há alguns anos, as redes sociais mudaram a rota da campanha do presidente Lula e foram um dos fatores responsáveis pela diminuição das abstenções.
Na véspera do pleito, o canal conhecido como "Exército do Lula", comandado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), atingiu a marca de 10 milhões de inscritos. Ele conclamou os seguidores a ajudarem no deslocamento das pessoas e a engajar mais gente a ir votar.
Grandes eventos de rua aconteceram no segundo turno. "As manifestações de rua foram algo muito presente, houve uma presença espontânea nas ruas", diz Teixeira.
Os atos começaram por parte de apoiadores do PT e de Lula. Depois, a campanha de Flávio Bolsonaro respondeu com bloco. "Não víamos nada semelhante a esses movimentos desde as manifestações de 2013", aponta o especialista, se referindo aos atos em que se pedia por passe livre e redução dos preços das passagens de ônibus.
"Quanto mais acirrada uma eleição, maior é a taxa de comparecimento", afirma Beto Vasques, coordenador do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP (Escola de Sociologia e Política de São Paulo).
Segundo o professor, mais importante do que o número de abstenções é o perfil de quem deixou de votar.
Dados do TSE mostram que, no 1º turno, mais homens com idades entre 25 e 29 anos deixaram de ir às urnas —foram 1.965.996 que se abstiveram. No que se refere ao grau de instrução, a maior abstenção foi entre pessoas que têm ensino fundamental incompleto (7.895.058). Pessoas analfabetas correspondem a 2.640.593 abstenções, e quem lê e escreve, 2.827.965.
O segundo turno da campanha presidencial deu início a uma "nova campanha", avalia Vasques. "A impressão é que o primeiro turno foi sequestrado por outros temas de interesse nacional. No segundo turno, as pessoas começaram a pensar, se engajar e preencher a disputa de significado", diz o professor.
Histórico de abstenções
O Brasil tem registrado mais de 158 milhões de eleitores. Apesar de o voto ser obrigatório entre 18 e 70 anos, a taxa de abstenção tem crescido desde 2006. Nessa conta, não entram os votos nulos e brancos porque os eleitores que decidem rejeitar os candidatos precisam comparecer ao local de votação.
Em 2018, 20,3% dos eleitores aptos a votar não foram às urnas. O então candidato à Presidência pelo PL, Jair Bolsonaro foi eleito naquele ano. Quatro anos antes, a Justiça Eleitoral registrou 19,4% de abstenção. O cientista político Teixeira, da FGV-Eaesp, afirma que em 2006, quando a taxa foi de 16,8%, o país ainda estava pautado pela repercussão do escândalo do mensalão e pela cassação do então deputado federal José Dirceu.
Em 2010, quando a taxa de abstenção foi de 18,2%, o Brasil elegeu Dilma Rousseff, a primeira mulher presidente. A disputa foi entre a sucessora de Lula e o então candidato do PSDB José Serra. A partir de 2013, com as manifestações de rua por todo o país, a polarização passou a pautar a política nacional.
O acirramento, segundo Teixeira, motiva os eleitores a irem às urnas, mas também provoca um desejo de distanciamento do debate. "Com a polarização aumentando nos últimos anos, o que se vê é um grande número de pessoas que rejeita o confronto político", afirma. "Hoje, o país está dividido com base na eliminação do outro lado, os eleitores vêem o cenário como degradado e deixam de ouvir qualquer que seja o candidato."
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