Grupo de Eduardo nos EUA vive euforia e desalento durante apuração em Miami

Garçons passavam com bandejas de coxinhas e pão de queijo. "Está pronta para aposentar o PT?", questionava uma mulher de meia-idade para uma criança de menos de dez anos na plateia. A menina não pareceu entender.
Uma fila de dezenas de pessoas se formou para tirar uma foto ao lado de Eduardo Bolsonaro, crianças eram estimuladas a dar beijinhos no rosto dele para os pais fotógrafos registrarem.
Mais cedo, o atraso na apuração, motivado pela extensão do prazo de votação, deu margem a questionamentos e um ar de conspiração tomou o ambiente. "Estranho, hein?", reagiu Eduardo Bolsonaro ao ser informado da decisão do ministro do STF Cristiano Zanin.
"Isso tem cheiro de golpe. Digo isso porque a chance de vitória do Flávio no Polymarket está caindo de mais de 80% para cerca de 70%, as pessoas estão percebendo", especulava o comentarista político Paulo Figueiredo, em referência ao site de mercado de previsão. "É o mercado sentindo o cheiro de queimado", complementou Eduardo. "Onde está o presidente do TSE?", questionava Figueiredo, visivelmente exaltado, em referência ao ministro Kassio Nunes Marques.
"O Lula pediu pro advogado dele, o advogado dele deu uma decisão, ele não está na corte eleitoral mas que se dane, e não tem conexão nenhuma com a Constituição. Não traz credibilidade", afirmou Eduardo sobre Zanin. Até um integrante da Casa Branca chegou a perguntar ao UOL se a votação tinha sido estendida pelo "advogado do Lula", o que demonstra o grau de alcance de Eduardo junto ao governo Trump.
Nenhum dos dois, porém, sabia até aquele momento que a campanha de Flávio Bolsonaro também tinha pedido extensão do prazo de votação em alguns estados.
Passaram das críticas à análise de estratégia e à conjectura sobre se Flávio teria mais ou menos votos a recolher na extensão. A qualidade do som no ambiente era baixa, o áudio ecoava, de modo que muita gente na plateia demorou a entender que a apuração não estava acontecendo. Informados, pareceram apenas achar que sua festa tinha sido adiada em algumas horas.
Quando a contagem de votos voltou, o grupo parecia confiante na vitória. Ao convocar os apoiadores, Eduardo havia dito que o ato não tinha "soberba", mas que ele esperava que fosse "um dia muito feliz". Dias antes, porém, demonstrara preocupação dizendo que se Flávio perdesse, precisaria deixar o país e que os EUA deveriam enviar "fuzileiros navais" ao Brasil.
O avanço na apuração de votos, porém, mostrou que a subida de Flávio estancava, e Lula parecia retomar fôlego.
"Acabou o Brasil para mim"
O clima mudou quando o presidente reassumiu a liderança. As pessoas pararam de olhar para o palco e se voltaram para os seus celulares. "Deveriam colocar a CNN aí para a gente acompanhar", disse um apoiador impaciente. Eduardo e Ramagem desapareceram do palco, deixando um abatido Figueiredo no comando do show.
Mais cedo, Ramagem disse ao UOL que estava "ansioso" e via "o dia de hoje como um "Y" na vida: se Flávio vencesse, "poderei voltar ao Brasil, ajudar o governo Flávio, se perder, "acabou o Brasil para mim". Com um pedido de asilo ainda pendente, ele avalia o que fazer no futuro, com a mulher e as duas filhas na Flórida.
Um eleitor que usava um boné verde com o slogan "Make Brazil Great Again" parecia não acreditar que estava assistindo à virada de Lula, a primeira vez que um candidato revertia um resultado no segundo turno da eleição desde a redemocratização. "Flávio não pode aceitar o resultado", dizia, suspeitando das urnas e da extensão do prazo de votação. Questionado se daria seu nome e sobrenome ao UOL, se recusou: "não quero ficar exilado do Brasil pelo [ministro] Alexandre de Moraes".
Algumas pessoas começaram a ir embora enquanto outras se mostravam confusas ou consternadas. Algumas se sentavam no chão acarpetado do salão.
Um dos auxiliares de Figueiredo no palco dizia que a "revolta tem que ser bem canalizada para não ser contraproducente, como vimos de 2022 para 2023", citando casos como o da cabeleireira Débora do Batom, condenada pela participação nos ataques de 8 de Janeiro à Praça dos Três Poderes.
Neste momento, Figueiredo chamou ao palco "um amigo, Gerson Gomes". "Queria pedir uma salva de palmas para ele", disse. Houve meia dúzia de palmas. E Figueiredo, ele mesmo sem aplaudir, afirmou: "essas foram as palmas mais broxas que eu já vi".
Gomes subiu, com um notebook em mãos, e sentenciou: "é praticamente impossível a gente virar".
O ritmo de esvaziamento do ambiente se acelerou, ainda bem antes do fim da contagem. O casal Erickson Cruz e Regiane Brito deixavam a Freedom Tower. "Eu entendo que o povo escolheu, a gente tem que respeitar, já foi", disse Cruz, de 50 anos, pastor e responsável pela oração no começo da live. "Eu não vou dizer que teve fraude, não posso dizer isso", afirmou Regiane Brito, de 49 anos. Ambos são casados e moram há décadas em Pompano Beach, na Flórida.

"Foi roubo", gritava uma mulher de camisa do Brasil que deixava o espaço, sem falar com a reportagem.
"Lamento dizer que com esses números não temos mais como virar. Para seu próprio benefício não recorram a saídas violentas", dizia Figueiredo, afirmando que "entendia a frustração" da plateia.
"Uma nova luta começa amanhã"
Eduardo, Figueiredo e Ramagem seriam diretamente beneficiados por um potencial indulto a ser assinado por Flávio Bolsonaro, caso tivesse sido eleito, no primeiro dia do governo. Eduardo estimava em mais de 2 mil pessoas os alvos da medida de perdão, embora os bolsonaristas preferissem que a solução não viesse da caneta de Flávio e sim de uma anistia votada no Congresso Nacional.
Eduardo mora nos EUA desde fevereiro de 2025, e liderou uma campanha junto às autoridades do governo Donald Trump por punições ao Brasil que pudessem forçar uma anistia a Jair Bolsonaro, condenado a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, entre outros crimes.
Pela atuação nos EUA, Eduardo foi condenado pelo STF por coação no curso do processo, e tem um pedido de prisão contra si em aberto no país. Depois de deixar o palco, ele não voltou a ser visto nem respondeu às mensagens do UOL.
Figueiredo encerrou a live antes do fim da contagem e muito antes que o ministro Kassio Nunes Marques parabenizasse Lula pela reeleição. Enquanto o staff do prédio recolhia cadeiras e limpava o ambiente, sentou-se no chão do palco, cercado por apoiadores que perguntavam se seria possível "anular o segundo turno", ou "questionar os dados de baixa abstenção no nordeste". Claramente impactado, ele respondia apenas: "uma nova luta começa amanhã".

Observando tudo de uma cadeira de madeira, no centro do salão, Ednilsa Machado, de 84 anos, contava que vive em Fortaleza, mas que estava ali porque as filhas vivem nos EUA e são bolsonaristas. "Eu falo pra elas que não dá pra sofrer por política, na política não tem santo. Esse Lula nem era pra concorrer mais, mas esse Bolsonaro também fala mal até da mulher dele, a Michelle, e aí vai ver, quem se elegeu foi ela", resumia Ednilsa, citando a ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, eleita senadora pelo DF e que acumulou conflitos na campanha com Flávio e Eduardo, filhos de Jair, ambos agora sem mandato.
Reportagem
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