Brasil está preso entre potencial econômico e impasse político, diz The Economist
O Brasil chega às eleições de 4 de outubro com uma combinação que há décadas desafia o país: uma economia apoiada em recursos naturais, agropecuária, energia renovável e um grande mercado consumidor, mas que encontra dificuldades para transformar essas vantagens em crescimento sustentado e aumento de produtividade. Essa é a principal tese de um editorial da revista britânica The Economist, cuja conclusão é simples: o país continua distante do potencial projetado para sua economia.
A revista destaca a dimensão dos ativos brasileiros. O país possui grandes reservas de petróleo, concentra a maior parte da floresta amazônica, tem uma matriz elétrica predominantemente renovável e ocupa posição central no mercado global de alimentos. Em 2025, a geração hidrelétrica respondeu por 52,2% da oferta interna de eletricidade, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
Para a Economist, porém, a abundância de recursos não foi acompanhada de uma trajetória de crescimento equivalente. O editorial argumenta que, nas últimas décadas, o Brasil perdeu dinamismo em relação a outras economias e à média mundial de crescimento, enquanto problemas fiscais e institucionais limitaram a capacidade de investimento e de elevar a produtividade.
É nesse cenário que a revista enquadra a eleição presidencial. Lula, que disputa um novo mandato pelo PT, e Flávio Bolsonaro, candidato do PL e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, estão no centro da disputa. Ao todo, 12 candidaturas à Presidência foram registradas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas pesquisas recentes mostram Lula e Flávio em situação de empate técnico em diferentes cenários.
Impasses em Brasília e desconfiança institucional

Na avaliação da revista, nenhum dos dois principais candidatos apresenta, até aqui, uma resposta considerada suficiente para o problema fiscal. A revista critica Lula por não ter avançado em reformas estruturais além da simplificação tributária e por manter uma trajetória de expansão dos gastos públicos, enquanto Flávio Bolsonaro concentra parte importante de sua campanha na anistia aos autores dos atos de 8 de janeiro e na defesa política de seu pai.
O editorial aponta a situação fiscal como um dos principais obstáculos ao crescimento. A dívida pública bruta alcançou 82,5% do PIB em julho, o que equivale a cerca de R$ 10,9 trilhões, segundo dados divulgados em agosto. Projeções oficiais encaminhadas ao Congresso indicam que a relação entre dívida e PIB pode continuar a crescer nos próximos anos.
Ao mesmo tempo, o custo dos juros aumenta a pressão sobre as contas públicas. O Banco Central registrou juros nominais de R$ 1,08 trilhão no acumulado de 12 meses até março de 2026, o equivalente a 8,35% do PIB. Para a The Economist, uma combinação de dívida elevada, juros altos e aumento persistente das despesas pode reduzir o espaço disponível para investimentos e comprometer o crescimento.
O problema, segundo a revista, é agravado pela estrutura do orçamento brasileiro. Segundo dados oficiais da proposta orçamentária para 2027, cerca de 92% das despesas dentro do limite de gastos para custeio e investimentos são classificadas como obrigatórias, incluindo os benefícios previdenciários. Isso reduz a margem de manobra do governo para realizar cortes ou redirecionar recursos rapidamente.
O editorial também relaciona o impasse econômico à polarização política. Na visão da revista, a disputa entre grupos políticos pelo controle de recursos públicos favorece a manutenção de estruturas de gastos e dificulta reformas capazes de alterar esse modelo, ao mesmo tempo em que a frustração com o desempenho econômico pode ampliar o espaço para candidaturas mais radicais.
As instituições brasileiras aparecem, nesse diagnóstico, como um contraponto. A Economist observa, ainda, que órgãos como a Polícia Federal, a imprensa e o serviço diplomático continuam a funcionar como mecanismos de controle e de preservação institucional. A condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado é citada como exemplo da atuação do Judiciário.
Ao mesmo tempo, o editorial menciona o escândalo do Banco Master como um fator adicional de desconfiança em relação às instituições. As investigações sobre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro chegaram ao Supremo Tribunal Federal, que autorizou novas diligências da Polícia Federal e passou a analisar diferentes alegações envolvendo autoridades e pessoas próximas ao caso.
Sem ordem, sem progresso

Bandeira do Brasil, exibida durante comemoração do Dia da Independência (Horacio Villalobos/Getty Images)
A Economist também cita Renan Santos, candidato do Missão, como representante de uma corrente política que defende reformas estruturais mais profundas e redução de gastos. O candidato, assim como muitos outros novatos na dinâmica, não conseguiu superar as estruturas políticas de Lula e de Bolsonaro, segundo a revista.
A conclusão do texto é que o maior risco de uma crise séria para o Brasil vem da combinação de endividamento crescente, custo elevado do crédito e baixo crescimento. Em um cenário de deterioração, uma nova pressão sobre a dívida poderia elevar ainda mais os juros, enfraquecer o real, alimentar a inflação e reduzir a atividade econômica, criando um ciclo difícil de interromper.
A questão central colocada pela Economist, portanto, não é a falta de recursos ou de vantagens comparativas, mas a dificuldade de convertê-los em uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo. Para a revista, enquanto as disputas políticas continuarem prevalecendo sobre as reformas fiscais e o aumento da produtividade, o potencial econômico do Brasil permanecerá mais como um sonho promissor do que como um resultado efetivo.
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