Domingas realizou o sonho de viver uma aventura no Atlântico

Tal como fazia nas aulas de surf no Estoril, Domingas queria levar esta experiência com calma e sem pressão. “Sempre gostei de desportos, mas nunca gostei muito de competir”, admite. Competir com o calendário, então, nem pensar. “Disse aos meus pais que queria ir sem data para voltar, sem planear cada passo e com liberdade para fazer o que eu quisesse”.
A Austrália foi o primeiro país que veio à cabeça quando decidiu deixar o emprego. Mas o facto de ser um ponto já com “rotas bem definidas” pelos viajantes acabou por ser o fator de exclusão. “Eu não queria ir para o destino mais fácil. Queria mesmo era o mais difícil”, afirma. A escolha acabou por ser uma longa estada em países da América do Sul, onde já havia estado em viagens anteriores – mas não sozinha, nem com a pitada de aventura que agora estava à procura. “A cultura e energia das pessoas é tão diferente!”, recorda. “Também gostava de aperfeiçoar o meu espanhol, e sei que quando se fala o idioma do país é mais fácil conectar com as pessoas”.
Ao lado de Serpa, partiria da ilha do Faial, nos Açores, para cruzar o Atlântico a bordo de um veleiro. Devido às condições climáticas, a viagem que estava prevista para acontecer em poucos dias foi adiada um mês. Não era este um problema para quem não tinha um roteiro desenhado. Enquanto ainda estavam próximos da terra, teve então a oportunidade de ajudar o capitão a preparar o barco para a longa navegação, aprendendo tarefas de carpintaria e polindo os geradores. Acabou por conhecer a casa das máquinas do veleiro “melhor do que um mecânico”, afirma. “Foi um mês muito enriquecedor”.
A viagem dos Açores para o Brasil incluía algumas paragens. A aventura que estava à procura encontrou-a logo na primeira semana a bordo do veleiro, a caminho da Madeira. E a aventura, que tinha nome, apresentou-se em alto-mar: tempestade Cláudia. “Foi muito agressivo. Eram ondas de até oito metros e ventos de 140 quilómetros por hora”, recorda. “Achava que ia morrer, que o barco ia virar”.
O susto logo a caminho do primeiro porto em que atracaram deu-lhe fôlego para seguir adiante. “Depois daquilo, sabia que aguentaria qualquer coisa”. Norberto, descrito por Domingas como um também aventureiro que adora viajar, havia marcado de encontrar com a família nas Canárias. Foi onde avistaram “uma vida marinha com muita força, muito bonita”. Estiveram nas ilhas da Graciosa e Gran Canária antes de partir para Cabo Verde. Domingas não perdeu a chance de “surfar boas ondas”.
Nos seis dias de viagem entre o arquipélago espanhol e o africano, a tripulação de seis pessoas foi seguida por golfinhos. “Estavam sempre ao pé da proa do barco, todos os dias”. Estiveram nas ilhas cabo-verdianas por um mês, onde Domingas acabou por ajudar a organizar tours de mergulho com apneia. O mar calmo e cristalino, no entanto, viria a ser deixado para trás no início do mês de janeiro, quando seria feita a travessia mais longa de toda a viagem.
“É difícil mentalizar que iria levar dez dias para fazer uma viagem que se faz em oito horas de avião”, diz. “Poucas horas após deixar Cabo Verde, estávamos no meio do nada, sem terra à vista no horizonte”.
Ficar aborrecida durante tanto tempo a bordo após três meses entretida com tantas novidades em cada sítio em que soltavam a âncora era o receio de Domingas. “Mas o tempo no barco passa de uma forma diferente”, conta. “Eu acordava cedo para aproveitar a luz do dia, fazia o meu pequeno-almoço com calma, comia, escrevia, pintava”, diz. “Foi a experiência mais incrível que eu tive na minha vida. Foi espetacular. Tudo o que víamos no trajeto, como os animais marinhos, tornava o dia especial”.
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