Os segredos das joias da Casa Real portuguesa

Entretanto, por muito tempo Portugal teve uma fonte quase inesgotável de diamantes.
Os diamantes eram raríssimos no século XV, uma coisa mesmo de outro mundo. Porque vinham da Índia, eram poucos, difíceis de minar, tinham que ser transportados por terra e quando chegavam à Europa eram absorvidos pelas casas reais. A partir do final do século XVII — e eu quero frisar isto, porque a história até hoje é contada como sendo no século XVIII e não é — surgem diamantes no Brasil em quantidade inaudita. A coroa portuguesa vai tentar, até 1760, controlar a exploração. Só que nestes anos, entre o final do século XVII e os meados do século XVIII, há exploração descontrolada e os diamantes do Brasil chegam à Europa por vias não oficiais, normalmente via Holanda e Inglaterra, e inundam o mercado europeu. E o preço dos diamantes baixa muito. Mais: desenvolve-se a indústria da lapidação, porque há mais pedras, podem-se fazer mais experiências e desenvolve-se o talho em brilhante, que ainda é hoje o talho mais usado.
No livro menciona uma “reserva em segredo” do Rei de Portugal. O que era esta reserva?
Este afluxo de diamantes brasileiros é estabilizado na década de 1760, por D. José, que cria um enorme fundo diamantífero com mais de 200 mil quilates, que também é uma descoberta da minha tese. É uma “reserva em segredo”, uma caixa que está no quarto do rei com diamantes em bruto, que serve para o Rei de Portugal ter força para se instalar no comércio de diamantes europeu e dizer: ‘meus senhores, o monopólio dos diamantes do Brasil é do Rei de Portugal, que tem força para abrir ou fechar a torneira dos diamantes para a Europa e controlar assim os preços.’ Ele só consegue fazer isto: um, porque faz a reserva e tem essa força material; dois, porque faz um acordo com o cônsul holandês, Daniel Gildemeester, que era diamantário. Ele então tem o exclusivo da venda de todos os diamantes da coroa portuguesa em bruto, que depois faz lapidar na sua Holanda natal e distribui pelo resto da Europa. Este consórcio que é gizado e pensado pelo Marquês de Pombal na década de 1750, logo após o terramoto, e que é acertado e contratado em 1760, é o início desta história.
A descoberta da "reserva em segredo" do rei
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Sabia-se que a Família Real guardava diamantes em bruto, mas ninguém sabia por que razão nem para que serviam. A história que se contava era a de que havia uma caixa de diamantes lapidados no Palácio da Ajuda, mas não se sabia da existência da segunda caixa, com diamantes brutos.
Logo no início do meu trabalho, a investigadora Inês Líbano Monteiro, que também fazia parte do Comissariado do Tesouro Real, sugeriu-me que lesse um documento na Torre do Tombo sobre as partilhas de Dom João VI, onde vinham referidas as joias principais. Nesses apêndices surgiam referências vagas que usavam a expressão “reserva em segredo”, o que me chamou logo a atenção. A partir daí, fui investigando para entender a utilidade dessa reserva.
Percebi que ela tinha sido criada em 1760, no mesmo ano em que a Coroa firma o acordo com Daniel Gildemeester e começa a receber muito dinheiro da extração brasileira. Cruzei esses dados com um estudo do investigador brasileiro David Rabelo, que analisou no Tribunal de Contas em Lisboa a documentação sobre as vendas e o que entrava de diamantes do Brasil. Essa documentação revelava que a Casa Real tinha a prerrogativa de, sempre que chegava um carregamento do Brasil, o rei escolher todas as pedras que quisesse para usar em joias e para alimentar a reserva. Ao juntar os pontos, percebi que a grande mais-valia dos diamantes estava justamente nessa reserva estratégica e em todos os diamantes que a Coroa usava para si própria e para distribuir em presentes.
Ou seja, os diamantes eram extraídos do Brasil e vendidos em bruto por Portugal para serem lapidados e vendidos posteriormente pela Holanda?
Exatamente. É um problema que ainda hoje acontece na indústria portuguesa. O valor da matéria-prima ficava na Casa Real mas o valor acrescentado da lapidação, que era quatro vezes o valor do bruto, ficava para os holandeses. Na verdade, ficava para o Gildemeester. Ele manteve o monopólio durante mais de 20 anos. Constrói Seteais, o palácio dele, e faz uma das maiores fortunas do mundo.
E por que Portugal considerou que este era um bom negócio na altura?
Foi um excelente negócio inicial para a Casa Real Portuguesa, que finalmente passou a receber muito dinheiro com a extração no Brasil. Contudo, o processo esconde também uma enorme ironia histórica. No século XVI, Portugal tinha sido um dos centros de lapidação de diamantes mais importantes da Europa, com o negócio maioritariamente controlado pela comunidade judaica. Quando os judeus foram expulsos de Portugal no século XVI, a grande maioria emigrou para a Holanda. No século XVIII, os maiores diamantários holandeses eram precisamente os descendentes desses judeus expulsos — e tinham todos apelidos portugueses. Ao fechar o negócio, Gildemeester e essa elite garantiram o supply de bruto vindo do Brasil para encher os cofres da Coroa, mas deixaram claro que o valor acrescentado da lapidação pertenceria aos holandeses, impedindo que Portugal desenvolvesse a sua própria indústria de lapidação. Sempre que Portugal tentou criar uma indústria local, foi travado. Apenas na década de 1780 é que a Rainha D. Maria I terminou o contrato com Gildemeester, em bons termos, para tentar iniciar uma fábrica de lapidação em Lisboa.
Por falar em presentes, qual era o papel das joias e, especificamente, dos retratos com molduras de diamantes, nas relações diplomáticas do século XVIII?
A maioria da produção de diamantes da Coroa era para distribuir como presentes pelas potências europeias e pela corte, em situações como nascimentos, casamentos, ou até a assinatura de um tratado. Havia, por exemplo, a tradição do retrato em miniatura do soberano, moldurado por diamantes. Isto é muito divertido, porque o século XVIII é, de facto, o século da delicadeza e que opera nas subtilezas e no não dito. O diplomata ou ministro recebia e agradecia o retrato, mas a prática corrente era retirar e vender os diamantes valiosos. Depois, substituía-os por pedras sem valor ou vidros e mantinha o retrato régio — ainda que a retribuição financeira tivesse sido recebida.
O primeiro-ministro português que quis rejeitar um retrato de Catarina II da Rússia
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Essa história não está na tese, só está no livro. Surgiu há poucos anos no mercado uma caixa que foi oferecida pela Catarina II da Rússia ao Aires de Sá e Melo, que é o grande primeiro-ministro de D. Maria I. Foi na ocasião da assinatura de um acordo comercial entre Portugal e Rússia, e a Catarina, a Grande, oferecia o seu retrato ao embaixador e ao rei, ou seja, à D. Maria I, mas também — o que não era comum, mas um costume que ela tinha — mandava ao primeiro-ministro do soberano do país amigo. Portanto, manda informar que vai enviar uma caixa com o seu retrato ao Aires de Sá e Melo.
Mas nas correspondências, Aires de Sá e Melo faz-se muito rogado, diz que não quer. O embaixador insiste: ‘o senhor vai querer, e o senhor vai receber, e o senhor vai agradecer.’ E depois de algum tempo, já devia estar um bocado irritado com esta falsa modéstia, que lhe escreve: “Os diamantes em que o retrato estará montado, posto que de preço, não se consideram aqui por causa alguma enquanto ao valor do presente, que só consiste no retrato da imperatriz”. É a única vez que a menção aos diamantes aparece, porque isto é uma história que opera no não dito — toda a gente sabe que o que se agradece é o retrato e não são os diamantes.
A Catarina II soube desta correspondência, claro, e manda dizer ao Horta Machado, que era o embaixador de Portugal em São Petersburgo, que já que o primeiro-ministro tinha problemas em receber uma caixa muito rica, mandaria fazer uma caixa que não era decorada com diamantes, porque ‘não se podia mandar diamantes para o país de onde eles vinham’. E então, o que é que ela faz? O retrato, de facto, está no centro e tinha diamantes, mas depois, a caixa em si, é toda com pedras russas, como pedras da lua e ónix.
Ainda neste tema dos presentes, os casamentos eram alturas de grandes produções e trocas de joias entre casas reais. O que foi a encomenda de joias para o episódio conhecido como a “Troca das Princesas” em 1785?
Foi o maior e mais denso capítulo da tese, uma das encomendas mais caras do período estudado. Em 1785, Dona Maria I e Carlos III de Espanha acordam o casamento cruzado dos infantes: a infanta D. Mariana de Portugal casa com o infante D. Gabriel de Espanha, e a infanta D. Carlota Joaquina de Espanha vem casar com o futuro D. João VI. Atenção, os infantes não são herdeiros diretos, ou seja, não estão na primeira linha de sucessão ao trono.
Não seria uma troca de rainhas, portanto.
Exato, seria uma troca de infantes, porque à altura existia D. José, que era o herdeiro da coroa portuguesa. Ora, Portugal vivia uma década dourada e quis transformar o evento num momento de afirmação política e diplomática. E D. Maria I faz uma encomenda de joias extraordinárias para impressionar a Europa inteira. Foram tirados cerca de 200 contos em diamantes dos cofres da Coroa para fazer as joias mais importantes em Lisboa, mostrando a Paris e à Europa que a corte de Lisboa tinha ourives tão qualificados como os franceses. Só o adereço de diamantes oferecido à jovem Carlota Joaquina — composto por um colar rivière, brincos com peras enormes e um medalhão — valia 90 contos, o equivalente a metade do valor de avaliação dos palácios de Queluz e Caxias, mais as duas quintas.
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