São Paulo registra recorde de mortes de motociclistas; casos envolvendo ciclistas voltam a crescer
Com 334 casos de janeiro a agosto, a cidade de São Paulo atingiu o maior número de motociclistas mortos na soma dos oito primeiros meses de um ano desde 2015, quando começou a série histórica do Infosiga (sistema estadual que mede a letalidade no trânsito paulista). Os dados foram publicados nesta quarta-feira (16).
A alta foi de 6,4% em relação a janeiro a agosto de 2025, quando 314 pessoas que estavam em motos acabaram mortas. O número atual supera os 321 registros de 2021, até então o recorde.
Ao mesmo tempo, a morte de ciclistas também cresceu na cidade. Segundo os dados do do Detran-SP (Departamento de Trânsito), foram 23 casos nos primeiros oito meses deste ano, contra 18 no mesmo período de 2025.
No geral, o trânsito paulistano registrou leve queda de mortes, de 0,7% —de 678 para 673 óbitos nos dois períodos comparados.
Para efeito de comparação, a frota de motos cresceu 3% entre os meses de julho do ano passado e o de 2026 (dado mais recente) contra 1,4% de todos os veículos.
Especialistas apontam que há uma tendência de alta nas estatísticas de mortes de motociclistas no município e a falha na fiscalização de velocidade é uma das principais causas.
"O trânsito na cidade tem ficado mais violento", afirma Luis Fernando Villaça Meyer, diretor de Operações do Instituto Cordial e estudioso no assunto. "Isso tem a ver gestão de velocidade, intervenções em pontos críticos e manutenção de infraestrutura."
Em nota, a CET (Companhia de Engenharia Tráfego) cita a faixa azul —sinalização no asfalto para circulação exclusiva de motocicletas— como ação para reduzir o número de acidentes.
Segundo a gestão Ricardo Nunes (MDB), são 46 vias, beneficiando cerca de 500 mil motociclistas por dia. "Há ainda frentes seguras [nos semáforos] para motos", diz trecho do texto.
No caso dos ciclistas, a estatística de óbitos volta a crescer após um ano de queda: em 2024 foram 31 casos, o maior dado da série histórica.
Atualmente, a cidade tem cerca de 800 km de ciclovias e ciclofaixas. Em julho passado, a prefeitura estabeleceu como meta chegar a 1.000 km de malha cicloviária até 2028.
Para Rafaella Basile, coordenadora de Mobilidade e Vias Seguras da Iniciativa Bloomberg para Segurança Viária Global o aumento médio da rede cicloviária, de 30 km por ano, é baixo, para uma cidade com quase 20 mil km de vias de trânsito.
"Existe um crescimento visível de entregadores de aplicativo usando bicicleta, inclusive elétricas e outros veículos autopropelidos, mas a infraestrutura não está acompanhando esse ritmo", afirma.
Dados do monitoramento de viagens da organização Ciclocidade, apresentada recentemente na Câmara Municipal, mostram que atualmente, 83,3% dos ciclistas que circulam pela cidade são entregadores com bags (bolsas) nas costas.
O diretor do Instituto Cordial diz não ser possível cravar uma explicação única para o aumento de ciclistas mortos na cidade. Mas afirma que o perfil das pessoas usam tanto bicicletas comuns quanto elétricas e veículos autopropelidos tem se "transformando bastante" nos últimos três anos na capital. E esse pode ser um fator. "A infraestrutura cicloviária atual não foi desenvolvida para uso de bicicleta elétrica."
No mês passado, a administração municipal limitou em 20 km/h a velocidade de bicicletas elétricas em ciclovias e ciclofaixas. Mas esses veículos, entretanto, estão espalhados por todo o trânsito, sem cumprimento de regras e circulam, inclusive, em calçadas.
Não há dados exclusivos do município, mas segundo a Abraciclo, associação que representa os fabricantes, foram produzidas 43,1 mil bicicletas elétricas entre janeiro e julho de 2026 no país, alta de 77,3% sobre o mesmo período de 2025. Elas já representam 21,5% de toda a produção.
Questionada sobre investimentos na segurança de pessoas que pedalam pelo município, a prefeitura não cita a ampliação de ciclovias e ciclofáixas. Porém, afirma contar com ações voltadas a todo o sistema viário e para redução de acidentes envolvendo motoristas, pedestres, motociclistas e ciclistas.
A companhia cita o Programa Operacional de Segurança em pontos com maior índice de acidentes, além da implantação de áreas calmas (onde o limite de velocidade é de 30 km/h), rotas escolares seguras, ampliação do tempo de travessia, das faixas de pedestres e das travessias elevadas e implantação de minirrotatórias.
"A CET também monitora diariamente os acidentes e reforça a fiscalização com equipes em campo, presença de agentes em cruzamentos, uso de equipamentos eletrônicos e painéis informativos, além da realização de campanhas educativas durante todo o ano", afirma a nota.
Em todo o estado, houve queda de 5,5% dos óbitos—foram 3.900 em 2026. Apenas os casos envolvendo motociclistas (1.830) tiveram alta, de 1,9%,.
Também em nota, o Detran afirma que tem trabalhado de forma contínua com ações de fiscalização e educação, visando o aumento da segurança viária em todo o estado.
"O foco das ações são os públicos mais vulneráveis, como pedestres, ciclistas e motociclistas", diz o órgão de trânsito.
"Nas campanhas voltadas a ciclistas e motociclistas, por exemplo, o Detran enfatiza a importância do uso de equipamentos obrigatórios e da circulação em vias seguras para evitar sinistros, respeitando os limites de velocidade."
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