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Saturday, October 24, 2026

É falso áudio de suposto membro da equipe de Flávio Bolsonaro sobre cortes

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Publicação acumulou milhões de visualizações nas redes sociais
Publicação acumulou milhões de visualizações nas redes sociais Imagem: Projeto Comprova

Gravação viral mistura informações falsas com posições públicas do senador sobre privatizações e exploração de minerais estratégicos.

Ao contrário do que sugere uma postagem que viralizou em redes sociais, não é verdadeiro um áudio supostamente vazado de um "coordenador da campanha" de Flávio Bolsonaro (PL) que relata uma reunião em que o candidato à Presidência teria dito que iria "privatizar tudo" - Petrobrás, Correios, Banco do Brasil - e cortar o Bolsa Família e 50% dos salários dos aposentados. Na gravação, o homem também afirma a existência de acordos com os Estados Unidos para a exploração de terras raras e de nióbio no Brasil.

O áudio circula sem a identificação de quem o gravou. Todos os dados concretos que permitem uma análise mais direta indicam que a gravação foi inventada. Um deles é a menção a ACM Neto (União Brasil) que, segundo o áudio, estaria presente à suposta reunião. Procurado pelo Comprova, ACM Neto afirmou que o conteúdo do áudio é "completamente mentiroso", que a mencionada reunião nunca existiu, que não reconhece a voz de quem fala no áudio e que nunca participou de encontro com Flávio Bolsonaro no qual ele tenha feito as afirmações que constam no áudio. "Isso é fake news, uma tentativa de enganar a população com informações falsas", disse ACM Neto.

Já as declarações públicas de Flávio Bolsonaro contradizem o teor do áudio. A gravação foi postada, no dia 19 de outubro, por perfis petistas e não é mencionada por nenhuma fonte confiável de informação.

A campanha de Flávio foi contatada, mas não retornou até o fechamento desta verificação. O Comprova também questionou o autor da postagem sobre a origem do áudio. Não houve resposta.

Declarações públicas contradizem conteúdos do áudio

A maioria das afirmações atribuídas a Flávio no áudio é falsa, mas há também afirmações que, em parte, são verdadeiras, como as sobre as privatizações. E, apesar de não haver indícios de contratos assinados pela equipe do senador com os Estados Unidos relativos a terras raras, o candidato é abertamente alinhado aos interesses norte-americanos sobre o tema. Outro aspecto é que a alegação só faria sentido se Flávio já tivesse sido eleito.

As afirmações sobre o Bolsa Família e cortes na aposentadoria foram negadas pelo próprio Flávio em várias ocasiões, como no dia 14 de outubro: "Não existe isso de acabar com o Bolsa Família. Eu vou garantir o Bolsa Família para quem precisa. Vou garantir que o Estado chegue até você com capacitação e com qualificação. Vou fazer o maior programa de mobilidade social que este Brasil já viu", disse o candidato durante evento no Rio de Janeiro.

Sobre cortes nas aposentadorias, Flávio Bolsonaro negou em 8 de outubro e prometeu aumentar o benefício. "Vocês (aposentados) vão ter reajuste, sim, acima da inflação das suas aposentadorias, que é uma coisa sagrada", disse. Na ocasião, o candidato do PL tentava explicar declarações de sua equipe sobre um "tesouraço de R$ 200 bilhões", sem cortar benefícios sociais. Juntos, os custos dos benefícios previdenciários, do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) representam 53% das despesas primárias da União.

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No que se refere a privatizações, não há declarações de Flávio Bolsonaro afirmando que vai privatizar a Petrobras e outras estatais, como o Banco do Brasil e a Caixa. No dia 8 de outubro, o coordenador econômico da campanha do candidato do PL, Adolfo Sachsida, negou a intenção de privatizar essas empresas. Os rumores foram levantados pela oposição, a partir de declarações do próprio Flávio Bolsonaro, como a que ele deu a empresários em fevereiro deste ano, na CEO Conference do Banco BTG Pactual. "Onde puder privatizar, nós vamos privatizar. Não dá para ser tudo, mas vamos privatizar 95%", disse o candidato na ocasião.

Sobre os Correios, Flávio defendeu publicamente a privatização da empresa. "Os Correios são uma estatal que precisa ser privatizada", disse o candidato em entrevista publicada no dia 9 de maio.

Quanto aos minerais estratégicos e os de terras raras, não há declarações ou contratos já assinados para a exploração pelos Estados Unidos. Entretanto, Flávio Bolsonaro se alinha aos EUA neste tema. Já em relação ao nióbio, um dos minerais estratégicos, não há publicação de qualquer contrato ou declaração de Flávio Bolsonaro e de seu entorno sobre acordos para a venda desse mineral.

Em relação ao alinhamento de Flávio Bolsonaro com os EUA neste tema, em 28 de março de 2026, durante a CPAC (Conservative Political Action Conference) nos Estados Unidos, ele defendeu que o Brasil seria a "solução para os Estados Unidos quebrarem a dependência da China por minerais críticos, especialmente terras raras".

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

A postagem do áudio viralizou no Instagram com 298 mil curtidas, mais de 60 mil comentários, 123 mil compartilhamentos e cerca de 400 mil encaminhamentos até a tarde desta quinta, 22. O perfil que publicou o conteúdo se identifica como "uma rede progressista/socialista livre".

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Na legenda, o autor do post faz uma ressalva quanto à autenticidade da gravação: "O conteúdo do áudio, sua autenticidade e o envolvimento dos citados precisam ser apurados."

O post foi publicado em conjunto com três contas: um perfil pessoal de um homem que se diz "vegano, publicitário, marxista e apaixonado por incertezas!" e outros dois dedicados à moda e diversidade. Todos os quatro perfis postam conteúdos em apoio à candidatura do presidente Lula e com críticas a Flávio Bolsonaro.

Por que as pessoas podem ter acreditado

A publicação aborda temas que afetam diretamente a vida dos eleitores, como aposentadorias e Bolsa Família, e explora o medo ao atribuir a Flávio Bolsonaro supostos planos de cortar benefícios sociais. A narrativa mistura alegações falsas ou sem comprovação com elementos verdadeiros, como a defesa pública da privatização dos Correios, na tentativa de conferir credibilidade ao relato.

Por não constar em nenhuma fonte de informação confiável, a gravação simula um relato "vazado" de bastidores, o que pode levar as pessoas a acreditar no conteúdo. Outro aspecto nesse sentido é a citação a ACM Neto, que declarou apoio a Flávio e vem aparecendo ao lado dele em eventos de campanha.

Além disso, a alegação de que haveria um plano para entregar riquezas minerais brasileiras aos Estados Unidos, associada à suposta articulação de um golpe de Estado, mobiliza elementos de teorias conspiratórias.

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O apelo à emoção e a indução de pânico e medo no ouvinte do áudio, especialmente em grupos vulneráveis, como aposentados e beneficiários do Bolsa Família, também são táticas utilizadas por desinformadores.

Fontes que consultamos: O Comprova entrou em contato com ACM Neto, com a campanha de Flávio Bolsonaro e com o autor da postagem. A equipe consultou declarações do candidato à Presidência sobre os temas mencionados no áudio, Também verificou o áudio na ferramenta SynthID, que não detectou manipulação por inteligência artificial (IA).

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já verificou conteúdos falsos ou enganosos relacionados às eleições de de 2026, incluindo uma suposta promessa de salário mínimo de R$ 3 mil por Lula e Flávio Bolsonaro, posts que distorcem imagens de manifestações pró-Lula e postagens que insinuaram apoio do Corinthians e do Palmeiras ao atual presidente. A seção Comprova Explica publicou dicas e orientações para o segundo turno das eleições.

Este conteúdo foi investigado por NSC Comunicação, O Estado de S.Paulo, Correio do Estado e Projeto Comprova. A investigação foi verificada por A Gazeta e Correio Braziliense. A checagem foi publicada no site do Projeto Comprova em 23 de outubro de 2026.

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