Pesquisa inédita monitora mais de 7.000 cultos e missas durante as eleições
Nas duas semanas que antecederam o primeiro turno, o grupo de pesquisa Passagens, que coordeno na UFRJ, e a organização More in Common monitoraram milhares de cultos e missas, país afora, para identificar crimes eleitorais e menções políticas nos púlpitos religiosos. O levantamento, até onde tenho conhecimento, é inédito no Brasil e resultou em mais de 13 mil horas de áudio analisadas.
Três tradições religiosas foram privilegiadas por conta de seu peso demográfico entre os cristãos no país: igrejas católicas, igrejas batistas e Assembleias de Deus.
Entre os católicos e as duas principais convenções batistas, o volume de igrejas monitoradas chegou a 10% da totalidade do país. No caso das Assembleias de Deus, como não há informações públicas com uma lista oficial de igrejas, esse percentual é impreciso, mas monitoramos mais de 2.000 cultos, o que julgamos um dado muito significativo.
Todos esses cultos e missas monitorados foram transmitidos via YouTube. O que fizemos foi baixar esse imenso volume de vídeos, transcrevê-los e, a partir daí, identificar e classificar menções à política.
O banco de dados obtido é inestimável e renderá novas análises nos próximos meses, mas desde agora é possível qualificar o debate público sobre religião e política com os primeiros resultados. Destaco alguns achados da pesquisa.
Se tomarmos como referência indicações explícitas de voto, ataques evidentes a candidaturas e crimes eleitorais, é notória a diferença entre os grupos religiosos. Enquanto nas igrejas católicas há propaganda eleitoral em apenas 0,7% das missas, e entre os batistas esse percentual é de 1,4%, nas Assembleias de Deus ele chega a 8,3%.
Alguns fatores podem explicar essa diferença, entre eles a descentralização institucional das Assembleias e o forte enraizamento dessas igrejas nas lógicas comunitárias dos bairros. Este último aspecto é um traço fundamental de outro dado relevante da pesquisa. Enquanto, pelo senso comum, se poderia esperar que as propagandas eleitorais nos cultos e missas fossem principalmente relativas à disputa presidencial, o que encontramos foi um mar de apoios a candidaturas de deputados estaduais e federais.
Esses apoios são anunciados nos púlpitos das igrejas de diferentes formas. Há casos muito explícitos, que envolvem panfletagem dentro das igrejas ou mesmo situações como a de um culto em Goiás em que o pastor disse: "Eu não posso pedir o voto, mas eu posso te orientar, tá bom? Então, se você de forma livre e espontânea, de livre, espontânea vontade, se você aceitar, eu vou colocar um adesivo no seu carro". Outros, mais atentos, mandaram parar a transmissão no YouTube quando foram dar as indicações de voto.
Na Igreja Católica, o período da pesquisa compreendeu justamente o momento do ápice da disputa sobre Nossa Senhora Aparecida. O que encontramos nas quase 2.000 missas monitoradas foi uma presença muito residual desse debate. Ou seja, nas missas, os padres fizeram pouquíssimas menções ao tema. De fato, a questão pode até ter chegado à paróquia, mas não foi tema do sermão do padre.
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É preciso dizer, no entanto, que o dado mais significativo encontrado tanto nos cultos quanto nas missas foi aquilo que chamamos de conteúdo cívico: intervenções que combatem a polarização e estimulam o voto consciente. Esse tipo de referência foi cinco vezes mais frequente em todo o nosso conjunto de dados do que as propagandas eleitorais.
Esta foi uma pesquisa feita para monitorar os púlpitos. Isso não significa que, nos corredores das igrejas, nos momentos fora dessas interações e nos grupos de WhatsApp, outros conteúdos políticos não circulem. Mas os dados que encontramos importam porque nos oferecem um volume de material de análise inédito, incomparável ao que se pode obter visitando igreja a igreja.
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