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Monday, September 21, 2026

Leão Serva lembra em livro histórias 'no meio do turbilhão'

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Na noite de 13 de setembro de 2022, o então diretor de jornalismo da TV Cultura, Leão Serva, deixava o Memorial da América Latina, em São Paulo, quando foi avisado que José Roberto Maluf, presidente da emissora na época, queria falar com ele.

Serei demitido?, pensou Leão. Não foi. "Você jogou o celular do deputado longe! Como eu te invejo", disse Maluf, rindo.

Alguns minutos antes, o público no Memorial havia testemunhado uma das passagens mais insólitas do noticiário político daquele ano.

Depois do debate entre os candidatos ao governo do estado de São Paulo, o bolsonarista Douglas Garcia começou a ofender a jornalista Vera Magalhães. Segurava o celular com a mão esquerda elevada, em posição de selfie. "Vergonha para o jornalismo brasileiro!", repetia Garcia. "Pau mandado", respondia Vera.

De repente, Leão se aproximou, arrancou o celular das mãos do deputado estadual e jogou o aparelho em uma parte vazia da plateia.

O registro de apenas sete segundos viralizou rapidamente. Ao se deitar naquela noite, Leão tinha pouco mais de mil seguidores no Instagram; quando acordou, eram 21 mil.

A cena do celular "em modo avião", como descreveu um dos memes, é detalhada em um dos capítulos de "Como se Proteger de uma Granada", novo livro de Leão. A publicação tem lançamento nesta segunda (21) em São Paulo.

Professor de ética jornalística na ESPM e pesquisador no departamento de antropologia da USP, Leão, 66, já ocupou funções de comando em veículos como a revista Placar e os extintos Notícias Populares e Jornal da Tarde. Cobriu conflitos em países como Bósnia e Somália pela Folha, em que foi secretário de Redação, e lançou livros como "Jornalismo e Desinformação".

"Como se Proteger…" não busca reconstituir essa experiência de quase cinco décadas. Leão se concentra nas situações em que atuou sob pressão. Como diz o subtítulo, "sobrevivência em um mundo de guerras, disputas políticas e redes sociais".

O livro não foi escrito "no diapasão do professor de ética, mas no de um cronista no meio do turbilhão", ele afirma.

Em 2024, quando era correspondente da TV Cultura em Londres, Leão foi chamado pela direção da emissora para mediar outro debate, desta vez entre os candidatos a prefeito de São Paulo.

Tudo ia bem até o terceiro bloco. Depois de uma série de ataques disparados por Pablo Marçal (PRTB), José Luiz Datena (na época no PSDB, hoje no PSB) deu uma cadeirada no adversário, atingindo a mão e as costas dele. Embora não fosse protagonista do momento mais comentado da noite, o mediador voltou a figurar nos memes.

O contador de histórias prevalece ao longo das 120 páginas, mas Leão também reflete sobre os episódios narrados. O livro reproduz um artigo dele publicado na Folha uma semana depois da cadeirada. "Por que continuamos chamando figuras como Trump, Bolsonaro e Marçal para debates?", questionava. "A democracia precisa se proteger das ‘legiões’, e o jornalismo deve fazer o mesmo em seu microcosmo."

Em seguida, o livro destaca trechos das colunas de Joel Pinheiro da Fonseca e Wilson Gomes, também no jornal. Ambos divergiram de Leão. "Uma democracia que precise ser protegida de um candidato através do veto a um candidato com 20% das intenções merece realmente esse nome?", indagava Gomes.

Os choques de adrenalina saltam da arena política para o jornalismo de guerra. O autor lembra, por exemplo, a cobertura dos conflitos de Angola, em 1992. Sob ameaça de integrantes da Unita (União Nacional para a Independência Total de Angola), o motorista que conduzia Leão e outros jornalistas pelas estradas do país africano quase levou um tiro na cabeça.

Leão admite, aliás, que o despreparo dele e de colegas naquela cobertura contribuiu para botar em risco a vida do motorista.

"Anos depois, me dei conta de que tive uma síndrome de estresse pós-traumático por conta das guerras que cobri", diz. Os sintomas ligados a essa condição são discutidos por ele na publicação.

O livro chega ao fim rememorando um episódio em chave menos trágica e mais cômica –ao menos quando visto hoje, 25 anos depois.

Em 2001, quando Leão dirigia o jornal do portal iG, a empresa decidiu promover o Dia da Boa Notícia. Na data marcada, 11 de setembro, todos estavam mobilizados para botar no ar uma sucessão de registros positivos quando um avião atingiu o World Trade Center, em Nova York. Dezessete minutos depois, outro.

O Dia das Boas Notícias durou poucas horas. Como disse um colega da equipe de Leão, "vamos fazer jornal porque os leitores querem ler a notícia".

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