Você confiaria seu dinheiro a uma IA? Só 14% dos brasileiros dizem que sim
A inteligência artificial entrou na rotina financeira de milhões de pessoas antes de conquistar a confiança delas. No Reino Unido, quem segue recomendações financeiras feitas por ferramentas de IA estima ter economizado, em média, 399 libras, segundo análise do Lloyds Banking Group.
O maior banco de varejo britânico mapeou como os clientes usam ferramentas digitais para orçamento, dívidas, investimentos e planejamento em cada região do país.
O uso é intenso. Entre os britânicos que usam ferramentas digitais para cuidar do dinheiro, 88% acompanham as finanças pelo celular ou computador pelo menos uma vez por semana. Em Londres, a região mais avançada, 76% recorreram à IA para assuntos financeiros no último ano, 49% fazem isso todos os dias ou toda semana e 48% usam a tecnologia para pesquisar investimentos.
O mesmo levantamento traz o contraponto. Londres também é a região onde os usuários se sentem menos confiantes: só 75% dizem estar seguros ao usar as ferramentas, o índice mais baixo do Reino Unido. Usar mais, nesse caso, não significa confiar mais.
Uso alto, confiança em atraso
O descompasso já aparecia em um estudo anterior do banco. Em novembro do ano passado, o Lloyds estimou que 56% dos adultos britânicos, cerca de 28 milhões de pessoas, tinham usado IA para gerir o próprio dinheiro em 12 meses. Entre eles, 83% se diziam preocupados com a privacidade dos dados e 80% temiam receber informações erradas ou desatualizadas.
A nova análise reforça o padrão. Nas West Midlands, região central da Inglaterra, o uso de IA acima da média coincide com a maior preocupação do país com viés nas recomendações, citada por 30% dos usuários.
No Brasil, o interesse ainda supera o uso
O brasileiro está alguns passos atrás na adoção, mas com a mesma cautela. Uma pesquisa do Mercado Pago com 2,3 mil pessoas, divulgada em julho, mostra que 17% já usam IA para controlar o orçamento e 47% nunca usaram, mas têm interesse em experimentar. Outros 16% dizem não confiar na tecnologia para essa função.
As preocupações seguem a mesma linha das britânicas. A segurança e a privacidade dos dados lideram, com 34% das menções, seguidas pelo medo de receber orientação errada (16%), pela dependência excessiva da tecnologia (12%) e pela dificuldade de entender como a IA chegou a uma recomendação (10%).
O limite fica claro em outro levantamento, feito pelo Itaú Unibanco com o Grupo Consumoteca. Segundo a pesquisa, 65% dos brasileiros querem que a tecnologia ajude a orientar o orçamento, desde que ela não assuma as decisões. Apenas 14% aceitariam que a IA tomasse decisões financeiras por eles.
Os bancos aceleram a aposta
Do lado das instituições, o movimento é mais rápido. Os bancos brasileiros investiram R$ 826 milhões no desenvolvimento de inteligência artificial em 2025, alta de 39% sobre o ano anterior, segundo a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026, feita com a Deloitte. A IA é prioridade de investimento para 84% das instituições ouvidas em 2026.
O retorno começa a aparecer, mas ainda é exceção. A parcela de bancos que percebem retorno sobre o investimento em IA passou de 5% em 2024 para 19% em 2025. Cerca de 60% das instituições ainda estão em fases iniciais de adoção, e os usos mais comuns são sugestão de produtos e atendimento por chatbots.
A combinação cria uma tensão para o setor. O cliente já é digital: 83% das transações bancárias do país passam por canais digitais, segundo a mesma pesquisa. Mas ele aceita a IA como conselheira, não como gestora do próprio dinheiro.
A IA já sabe sugerir o que fazer com o dinheiro. Fazer as pessoas confiarem na sugestão ainda é trabalho humano.
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