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Tuesday, September 29, 2026

A "sede própria" correu mal, Lacerda volta à "praça pública"

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Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Começa agora mais um episódio do "O Bom, o Mau e o Vilão" da Rádio Observador, que também pode ouvir em podcast. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.

Bom dia.

Bom dia. Miguel, o teu bom andou de comboio.

Sim, o governador do Banco de Portugal deve ter andado de comboio. O Álvaro Santos Pereira esteve ontem, não sei se seria um congresso, uma conferência, uma coisa qualquer. Enfim, uma coisa onde havia microfones. E falou sobre infraestruturas e turismo. Eu ia acabar esta frase com "disse aquilo que toda a gente sabe", mas se calhar não sabe. Se calhar há pessoas que trabalham no nosso Estado e nas nossas empresas públicas que não andam de comboio como as pessoas normais. Mas o que Álvaro Santos Pereira disse foi isto: "Agora metam-se no comboio e vão até ao Algarve ou venham do Algarve. Nós continuamos a ter infraestruturas que são verdadeiramente terceiro-mundistas, não há outra palavra." E depois explicou por que não há outra palavra. "Os comboios estão ultrabarrotados no verão, não têm qualidade suficiente e, principalmente, os comboios muitas vezes andam a velocidades que não se coadunam com um país que se quer desenvolvido como o nosso." Fim de citação. E eu presumo que Álvaro Santos Pereira tenha referido apenas os comboios do Algarve por estar a falar na região onde há mais turistas. Ele estava a falar também do impacto que isto tem nos turistas, mas eu imagino que ele tenha falado do Algarve apenas por causa disso, porque este problema existe no país todo. Portanto, ele poderia estar a referir-se ao país todo e não apenas ao Algarve. De qualquer maneira, não há nada como ouvir alguém que já viveu para lá de Badajoz para percebermos que há coisas que se passam aqui e que não são normais. Haja alguém a chamar a atenção para isso.

Mas nós já normalizámos. Isto é o nosso normal. E nem mexer nessa coisa.

É o novo normal. Certo. Porque, ó Paulo, qualquer pessoa que faça a grande linha do país, que é que liga Lisboa ao Porto, sabe o que são essas viagens. Portanto, lá está, não é preciso ir ao Algarve. Mas deixa estar, que está tudo bem.

Está tudo bem, não é preciso mexer nada.

E quem é o teu mau, Miguel?

É Marcelo Rebelo de Sousa. O Ministério Público decidiu acusar quatro pessoas no caso das gémeas, uma delas é Nuno Rebelo de Sousa, filho do ex-presidente da República. Nós teremos, obviamente, de esperar pelo julgamento, claro, mas esta acusação, por si só, é mais uma mancha no balanço que os portugueses fazem da sua presidência. Não há grande volta a dar. Ao longo da vida, Marcelo sempre se afastou destas confusões. Não é acusado de nada neste processo, não é acusado neste processo ninguém que trabalhasse com ele no Palácio de Belém. E Marcelo reagiu ontem impecavelmente às notícias. Ele afirmou que ninguém está acima da lei e que a justiça é independente. Portanto, está tudo muito bem. Acontece que mesmo não pretendendo, nem prevendo os efeitos do que estava a fazer, foi Marcelo o primeiro gesto que pôs tudo isto em movimento. Depois de Nuno Rebelo de Sousa lhe enviar um e-mail a contar o caso das gémeas e a perguntar: "O pai pode ajudar?" O então presidente reencaminhou a mensagem do seu filho para o chefe da Casa Civil, Fernando Frutuoso de Melo, questionando se Maria João Roela, assessora para os assuntos sociais, pode perceber do que se trata. A citação é esta. E a partir daí foi o descalabro. Eu imagino que hoje Marcelo olhe para trás e pense: "Devia ter feito delete àquele e-mail, em vez de o ter reencaminhado." E devia.

Pois, provavelmente devia mesmo. Provavelmente, estas coisas acontecem com muita naturalidade a vários níveis do Estado. Se calhar o problema está aí.

Claro. Atenção, mais uma vez, eu não tenho dúvida nenhuma de que Marcelo não quereria as consequências daquilo que aconteceu. De facto, ele realmente passou a vida toda a tentar evitar situações como esta e às vezes basta um deslize. Basta isso.

Miguel, o teu vilão falou em praça pública.

É, Lacerda Sales. Durante meses, o ex-secretário de Estado da Saúde andou a dizer e a repetir aos jornalistas que só responderia a perguntas sobre o caso das gémeas em sede própria, era a expressão que ele usava. Disse que respeitava aquilo que disse ser os poderes e os tempos da Justiça e insistia, vou citar: "Não vou desmentir nem confirmar, são situações que só em sede própria devem ser tratadas, não devem ser tratadas em praça pública." Pois bem, ontem a sede própria falou e Lacerda Sales foi acusado de um crime de prevaricação em concurso aparente com o crime de abuso de poderes. Segundo o Ministério Público, o antigo governante tratou da marcação de uma consulta para as gémeas em violação das regras e sabendo que o objetivo de tudo aquilo era a administração do medicamento e não apenas uma mera consulta. Além disso, o ex-secretário de Estado Também de acordo com o Ministério Público, sabia que, de acordo com a sede própria, sabia que ao reencaminhar os e-mails do filho do presidente para o director clínico do Hospital de Santa Maria, estava a influenciar a decisão dele. Isto foi o que nos disse a sede própria. Mas agora Lacerda Sales já não quer saber da sede própria e por isso ontem voltou, como dizias e muito bem, à praça pública, para usar a expressão dele. Os advogados de Lacerda Sales disseram na praça pública que o seu cliente recebeu a notícia com enorme surpresa, disseram que ele não se revê e rejeita os crimes de que vem acusado e disseram que os factos que estão na base da acusação são inconclusivos ou merecedores de outras conclusões. E, pelo que percebemos, a sede própria ficou lá para trás e agora Lacerda Sales gosta é da praça pública.

E vamos ver se isto não vira o contrário. Vamos ver o que é que o processo nos reserva, não é?

Não, certo, claro. Atenção, o ponto prévio disto tudo é: haverá um julgamento e tudo isto pode acabar em absolvições. Aqui o único ponto, para mim, e esse é o ponto político, quando dava jeito a Lacerda Sales, a sede própria é que era importante. Quando a sede própria não lhe corre bem, Lacerda Sales afinal já acha que a praça pública é maravilhosa. A mim só me interessam as incoerências políticas. De crimes trata o tribunal, que eu não tenho nada a ver com isso, graças a Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo.

O juiz decide.

Isso.

Vamos ao resumo. O bom desta terça-feira é o Governador do Banco de Portugal, o mau é Marcelo Rebelo de Sousa e o vilão de hoje é Lacerda Sales. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro. As manhãs 360 e sempre em podcast.

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