"É redutor ligar obesidade infantil apenas à alimentação"

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Temos conosco Carla Rego, pediatra, professora na Faculdade de Medicina do Porto e da Universidade Católica Portuguesa e investigadora do Sintesis. Hoje é o Dia Mundial da Alimentação e no início deste mês decorreu a segunda conferência do Centro Colaborativo da OMS em Nutrição e Obesidade Infantil, em Lisboa. Os dados apresentados detetaram que Portugal, em 2008, era o segundo país europeu com maior prevalência de excesso de peso infantil e em 2002 passou para a 14ª posição. Os dados mais recentes do COSI, de 2021 a 2022, apontam para cerca de 31,9% das crianças portuguesas apresentarem excesso de peso, sendo que 13,5% apresentam mesmo um quadro de obesidade. A que acha que se devem estes valores?
Juntando as duas coisas e ligando o facto de hoje ser o Dia Mundial da Alimentação, e falando da obesidade, é importante nós percebermos que será redutor assumir que a obesidade se resume a uma questão de alimentação. Isso é um aspeto da obesidade, sobretudo pediátrica. Portanto, vamos falar e focar na obesidade pediátrica. É claramente redutor associar de uma forma linear e simplista uma coisa à outra, muito embora, claro, a alimentação é crucial na promoção de um estado nutricional adequado e na promoção da saúde. Portanto, ela é fundamental e é importante, mas a obesidade pediátrica tem muitas particularidades. E a primeira delas é a seguinte: nós em pediatria não podemos falar em obesidade, temos que falar em obesidades. E eu dou-lhe um exemplo muito rápido e simples. Se eu tiver uma criança ou adolescente, e isso aconteceu claramente na altura do COVID, que tem um estado nutricional adequado e por qualquer motivo, por exemplo, o que aconteceu no COVID, fica confinado, reduz a sua atividade física, desequilibra um pouco o seu aporte alimentar, porque o acesso ao alimento e a própria rotina do dia a dia é diferente, essa criança e esse adolescente que estava impecável, adequadamente nutrido até um determinado momento, vai aumentar o seu peso e vai desenvolver um quadro de excesso de peso e obesidade. Naquele momento. Mas se após passada essa contingência que limitou, ou melhor, modificou o estilo de vida, quer em termos de oferta alimentar, quer em termos de exercício daquele adolescente ou daquela criança, ele reentrar no seu ritmo de vida normal, tiver um aconselhamento nutricional, reiniciar a sua atividade física, rapidamente ele vai voltar, sem grandes dificuldades, na adolescência ou na infância, ao seu estado nutricional anterior, adequado. Portanto, isto é uma situação que acontece com alguma frequência e que é uma situação em que há transitoriamente um quadro de obesidade. Qual é o grande problema da obesidade em idade pediátrica? Não é este. O grande problema da obesidade pediátrica, e que justifica estas estatísticas e que justifica provavelmente um agravamento claro da situação ao longo dos próximos anos, tem a ver com o facto de que a obesidade, e particularmente a obesidade pediátrica, têm muito de suscetibilidade individual, ou seja, há indivíduos que são indivíduos de risco, e esses indivíduos de risco são definidos pela existência de risco nos seus progenitores. Ou seja, se eu tiver uma criança, por exemplo, cuja mãe tem excesso de peso e obesidade ou aumentou excessivamente durante a gravidez. Eu agora faço aqui um pequeno parêntesis. O EPACI Portugal 2013, que foi um estudo que caracterizou a nível do país, do continente, não inclui ilhas, o estado nutricional das crianças do zero aos três anos, e é o único estudo representativo com sensibilidade para o fazer, mostrou que mais de 33% das mulheres portuguesas em idade fértil têm excesso de peso e obesidade. Mais incrível ainda, destas 33% que têm excesso de peso e obesidade na altura em que engravidam, mais de 50% aumenta durante a gravidez acima daquilo que é expectável aumentar. O que isto significa? Significa que quando aquele bebê é gerado, e já vai entender porque eu falo em suscetibilidade e porque isto implica o impacto na prevalência futura da obesidade. Um bebê que é gerado numa situação de excesso de peso e obesidade da mãe, ou numa mulher que aumenta excessivamente peso durante a gravidez, aquele feto vai ser sujeito, na vida intrauterina, a um ambiente de excesso de oferta alimentar. É assim mesmo, é excesso de oferta alimentar, que em termos clínicos se diz anabolismo. Esse excesso de oferta alimentar na barriga da mãe vai programar aquele bebê, vai programar os seus órgãos, os seus sistemas, o seu apetite, o seu cérebro, para o resto da vida, no que diz respeito ao seu padrão de crescimento, à composição corporal, inclusive à própria apetência para comer. A isto se chama programação. Grande parte das vezes aquele bebê vai nascer grande, ou seja, vai nascer com um bocadinho de peso a mais. E agora, vamos ao início da história. Se eu tenho 33% das mulheres portuguesas em idade fértil com excesso de peso e obesidade, 55% das quais aumenta de peso mais do que o que deve durante a gravidez, isto é um manancial brutal de risco de, eu na geração futura, ter crianças com risco de excesso de peso e risco de obesidade programada para o resto da vida. E a história começa aqui. Começa, claro, com alimentação, com estilo de vida, mas começa com suscetibilidade genética. É evidente que, se estas crianças forem alvo de uma vigilância médica regular, de uma vigilância do processo de crescimento, do controle do padrão de crescimento na trajetória da vida, e elas conseguirem desenvolver um crescimento e um estado nutricional adequado, eu vou controlar o seu risco futuro, durante a idade pediátrica. Agora, se estas crianças que já têm suscetibilidade ou risco individual programado na barriga da mãe, continuarem a aumentar de peso por questões alimentares ou de estilo de vida, e repare, se há uma situação de obesidade parental, provavelmente eu vou ter um ambiente familiar com tendência a ser um ambiente obesogênico, o que vai fazer com que aquela criança, que já de si é de risco, provavelmente vai crescer num ambiente de risco também. E se esta criança, aos cinco, seis anos de idade tiver excesso de peso e obesidade, 5, 6 anos, estou a falar na entrada para o primeiro ciclo. Se ela tiver excesso de peso e obesidade, ela só tem 50% de hipóteses de vir a ser um adulto com o peso adequado. Mas se esta criança entrar na adolescência, 11, 12, 13 anos, com excesso de peso e obesidade, ela só vai ter hipótese de 10% a 5% de vir a ser um adulto adequadamente nutrido, ou seja, perdemos a batalha. Onde é que eu quero chegar? Claro que o estilo de vida, o comportamento alimentar, a alimentação equilibrada, variada, é crucial para a manutenção da saúde e de um adequado estado nutricional. E não é só na obesidade que isso impacta, é no risco futuro, inclusive, de doença cardiometabólica e por aí fora. Mas no que diz concretamente respeito à obesidade, esta preocupação com o estado nutricional, com a alimentação e com o controle do risco do indivíduo, deve começar bem na fase inicial do ciclo de vida. É evidente que se deve manter na trajetória da vida e é evidente que qualquer atitude de literacia alimentar, de literacia da atividade física, de literacia de comportamentos saudáveis, deve ser transversal à vida e fortemente trabalhada durante a idade pediátrica. Mas temos que perceber que no que diz respeito à obesidade, o nosso grande desafio em termos de intervenção, de prevenção, deve começar bem cedo no ciclo de vida, porque se eu vou trabalhando em idades mais tardias, eu tenho muito poucas hipóteses de conseguir controlar a expressão da obesidade na idade adulta. Portanto, veja, desses 30% de excesso de peso e obesidade referidos, que serão necessariamente mais, provavelmente, isto são pesos reportados, veja o que isto implica em termos de estabilidade da obesidade para a nossa geração futura. Com tudo o que depois aí advém, que acontece na obesidade já em idade pediátrica, que é a doença cardiometabólica associada. E eu dou-lhe o exemplo: crianças entre os sete e os 18 anos com excesso de peso e obesidade, mais de 50% delas associa já à sua obesidade, um fator de risco cardiovascular. Por exemplo, alteração do perfil das gorduras, do colesterol, triglicerídeos, alteração da tensão arterial, risco de diabetes, gordura no fígado e veja o que isto implica depois na trajetória da vida destes indivíduos.
Voltando à questão do excesso de peso, referiu que a questão da obesidade é redutor ligá-la apenas à alimentação. Porém, a nível da evolução do excesso de peso infantil em Portugal, havia aqui uma descida até cerca de 2019, que começou a subir novamente a partir de 2019, até pelo menos 2022, que são os últimos dados registados. Pensa que a pandemia pode ter tido um impacto nos hábitos alimentares e, nesse sentido, ter levado a esta subida?
Eu creio que é inquestionável que qualquer modificação do ambiente e do estilo de vida, e a pandemia e o Covid foi efetivamente uma modificação com impacto muito marcado durante um tempo relativamente longo do nosso estilo de vida, e isso necessariamente terá impacto no estado nutricional. E não é só no estado nutricional. Como sabe, teve impacto em termos comportamentais e nós na idade pediátrica sentimos mudanças negativas muito marcadas no desenvolvimento, não só físico, motor, psicológico, mas também no estado nutricional das crianças. Presumo que sim, que este facto encontrado em 2022, será o reflexo daquilo que se passou na altura da pandemia e que é evidente que não é uma coisa ao nível de imediato, até como já percebeu. Aliás, tratar a obesidade em idade pediátrica não é propriamente fácil, acaba por ser uma doença crónica, uma doença comportamental, é uma doença que necessariamente envolve muitos stakeholders, envolve a criança, envolve a família, envolve a escola, envolve a sociedade, envolve as decisões políticas e, necessariamente, mudança de fatores ambientais. E de novo, eu volto a dizer, qualquer doença que tenha uma componente comportamental, e obesidade claramente é uma componente comportamental, muito embora há diferentes indivíduos com diferentes suscetibilidades, nos quais o comportamento impacta. Mas sim, eu presumo que esta subida relativa dos valores tenha a ver com as mudanças registadas na altura do Covid e que levam o seu tempo depois a ter uma mudança na trajetória contrária.
Há pouco falou também na literacia alimentar. Acha que existe literacia alimentar neste momento nas escolas, relativamente à questão pediátrica, e se ela está a contribuir para hábitos alimentares melhores ou se, por exemplo, com a crescente presença nas redes sociais e na internet de crianças cada vez mais jovens, os hábitos alimentares estão também afetados neste sentido?
Ora bem, nós temos, sem dúvida, um currículo escolar que desde os primeiros anos de vida, e eu digo desde os primeiros anos de vida, porque isso já é trabalhado nas creches, que é uma coisa engraçada, trabalha efetivamente noções corretas e saudáveis de comportamento alimentar. Isso existe. Mas a grande diferença está entre o debitar informação um pouco isolada, não é propriamente isolada, mas o debitar informação só em termos de conhecimento e de informação, ou o fazer questão de a aplicar trabalhando-a de uma forma lúdica e de uma forma prática no dia a dia e nos hábitos alimentares. Portanto, há aqui um contrassenso. Ok, há informação, é dada informação às crianças desde idades muito precoces, é trabalhada nos currículos escolares, informação sobre hábitos de vida saudável, alimentação saudável e por aí fora, mas o que me parece que falta é uma forma efetiva e eficaz de transformar esse conhecimento um pouco árido numa prática diária, incorporando num comportamento saudável das crianças, porque depois falta aí alguma coisa que faça com que elas realmente, para além de saberem teoricamente e debitarem teoricamente, eu vejo nas minhas consultas, os miúdos sabem tudo ou sabem quase tudo, mas depois não aplicam na prática ou não conseguem transformar aquele conhecimento teórico numa aplicação para alimentos, práticas alimentares, estilos de vida saudáveis. Este hiato aqui é algo que eu acho que deve ser colmatado. E depois, há outro grande problema, que é a transposição para aquilo que em algumas circunstâncias as escolas oferecem, nomeadamente em termos de bufês, snacks, se calhar nos refeitórios a coisa está um bocadinho mais controlada, e mais ainda, aquilo que em casa os pais fazem. E efetivamente, o dizer e o ensinar e depois não praticar, como sabe, é a pior atitude em termos educativos que se pode ter em relação a uma criança. E há muita iliteracia no que diz respeito a práticas alimentares e hábitos alimentares nos adultos. Aí sim, e sobretudo, há muitas modas, há muitos preconceitos, há muitas ideias que não são ideias corretas, muito suportadas naquilo que falou que são as redes sociais, e que não têm fundamento rigorosamente nenhum, e que muitas das vezes, inclusive em algumas idades que são fundamentais no que diz respeito a um crescimento equilibrado, acabam por comprometer a própria saúde e o próprio crescimento. Há aqui, acho eu, um desajuste entre aquilo que é debitado no que diz respeito à informação sobre alimentação e estilos de vida a nível escolar, e que até existe, mas provavelmente estará na forma como é feito, desadequado daquilo que permita à criança assimilar e usar na prática essa informação. E depois há o que falta de cumprir daquilo que é recomendado em alguns aspetos, sobretudo na parte dos bufês escolares e depois muito nas próprias famílias.
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