Lego, champanhe e segredos de Estado. O que levamos na mala?

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Margarida, quantas garrafas consegues levar na tua carteira?
Maria, começamos esta história já assim?
Tu sabes que o modelo Noé da Louis Vuitton começou assim precisamente e não se deu nada mal. Do Avesso, um podcast sobre moda com Margarida Brito Pais e Maria Ramos Silva.
Se vamos por aí, tudo bem. Em 1932, um produtor de champanhe pediu a Gaston-Louis Vuitton que desenhasse uma bucket bag que permitisse transportar, imagina tu, cinco garrafas daquela bebida.
Um luxo. Imagina, é como ir à Macro com a tua Vuitton, fazer as compras pra passagem do ano. Mas bom, um pouquinho diferente. 130 anos depois, a maison francesa assinala esta efeméride também para o famoso monograma.
Nem era preciso fazer um what's in my bag pra perceberes logo o que é que estava dentro da carteira.
É aquilo de ligeiramente se foram, é denunciar. Curiosamente, o primeiro vídeo de alguém conhecido a mostrar o que tem no interior da sua carteira é capaz de ser francês. É com a Jane Birkin, ao pé da Torre Eiffel, a despejar literalmente todo o recheio da sua Birkin, cheia de coisas. Aliás, é curioso porque o filme foi realizado pela Agnès Varda, outro luxo, imagina, a realizadora, que em 1988, apenas quatro anos depois do lançamento da Birkin, assina esta pequena obra.
Bem, é difícil, de facto, situar quando é que estes formatos começaram. Mas a verdade é que se tornaram apetecíveis pras revistas de moda e ainda mais pras redes sociais. Hoje continuamos a ver imensos destes vídeos. Abrir a tua mala mostra de facto um recheio que é revelador, apesar de ser coreografado. É como abrir um portal pra o universo daquela pessoa, e cada detalhe conta.
Claro, a quantidade de papéis, recibos, lip balms, chupetas, notebooks, etc. Nada disto é luxo, tudo isto acaba por ganhar o peso de quê? De símbolo cultural, obviamente.
Além de ser uma ótima montra de exibição de marcas e produtos. Já agora, o que é que tu levas na tua carteira?
Olha, comigo as pessoas iam ficar muito aborrecidas. Como sabes, eu sou muito minimalista no recheio da mala. Não entendo quem anda com meia casa atrás.
Não me entendes.
Não, e por outras razões, a não ser que seja por uma questão de trabalho, obviamente. Mas se estiver mais descontraída, mais em lazer, sou muito minimalista nisso. Um hidratante pros lábios, creme pras mãos, sim, um batom de cor que dá pra resolver muita coisa, até a falta de maquiagem. Eu de facto não costumo levar maquiagem extra. Se andar com livro, o mais certo é trazer pela mão, porque normalmente ele depois acaba por não caber na mala. Se tiver uma carteira maior, posso incluir o detalhe mais excêntrico se quiseres, que é, imagina, uma bola de tênis, que é o quê? Um ótimo instrumento de libertação fascial, ficas a saber. Se precisares a meio do dia de descontrair, é um precioso aliado.
Bem, isso é superindesprezado.
É um pouco, sim.
Quase tão indesprezado como o microfone da Céline Dion.
Tu viste esse vídeo? É maravilhoso. Ela mostrou o interior da carteira, diz que anda sempre com o microfone pro caso de alguém lhe pedir pra cantar os parabéns.
Coitada, mas ela deve ter muitos pedidos.
Sim, mas imagina, tu passas pela Céline Dion e de repente: "Olhe, cante-me os parabéns", e a senhora saca do microfone. Enfim, incrível. Mas tu sabes que eu tive uma fase há uns bons anos em que saía muitas vezes de casa até sem carteira, sobretudo à noite. Não sei se também passaste por isso. Ainda não tínhamos sequer esta dependência dos telemóveis, que entretanto foram crescendo um pouco em tamanho. E portanto era só enfiar as chaves e cartão no bolso e voilà, pronta pro que viesse.
Olha, estavas muito bem e muito vitoriana, devo dizer-te.
A sério?
Porque ali entre 1850 e 1860, com as saias a começarem a ser mais largas e com os bolsos enormes, as senhoras abandonaram as bolsinhas e enfiavam ali de tudo. Cartas, dinheiro, objetos de costura, leques, aquilo que havia lá, tudo.
É verdade é que no início do século XIX, as carteiras também não tinham o tamanho colossal que algumas peças oversized têm hoje. Usavam-se assim umas bolsinhas de veludo, seda ou cetim, com fecho de cordão mais delicadas e que serviam pra complementar o quê? Vestidos finos de estilo império.
E no fundo, mais do que um elemento estético, era um sinal também de emancipação.
Também, sim.
Em 1853, a sufragista americana Susan B. Anthony escreveu no seu diário: "A mulher deve ter a sua própria bolsa".
Ora esta.
Bolsa esta que era um pequeno saquinho que se fechava com atilhos e era muitas vezes decorado com bordados ou berloques. Na verdade, é uma peça que influencia muitas das bolsas de festa que hoje em dia estão na moda. O que é facto é que este pequeno objeto permitia às mulheres carregar consigo pequenos bens.
Era o seu mundo.
E davam-lhe independência, alguma independência. Portanto, ficou assim ligado à emancipação. Mas sabes o que é mais engraçado? É que eram tão pequeninas, que lhes chamavam as ridículas.
As ridículas. Olha, ao mesmo tempo, esse tamanho era sinal de estatuto também. Porque se podias andar com tão pouco peso atrás, era sinal de que não eras uma mulher de trabalho, cheia de carga. No entanto, no final do século, as carteiras começaram a crescer. E sabes por quê? Porque tinham muitas coisas pra enfiar lá dentro, ou pelo menos alguns artigos novos que foram aparecendo e chegando ali ao cotidiano feminino. Os espelhos e os pentes, desde logo, ocupam ali um pouquinho mais de espaço.
Deviam ser maiores do que são hoje em dia.
Sim, e depois no começo do século XX, vem a grande revolução da cosmética. Ora, mais coisas pra levar na mala.
Sim, é um sem fim. Na cosmética enches muitas carteiras.
É verdade.
Há uma coisa que foi desaparecendo com o tempo e que era muito comum. Eu já nem falo dos sais de cheiro e os cartões de visita, mas sim dos lenços.
Pois é.
Andavam sempre com um lencinho na carteira. E depois tinhas pequenos objetos que nem sequer eram funcionais. Como fotografias dos entes queridos, flores prensadas, bilhetes de amor.
Nós hoje temos isso tudo guardado onde? Nos nossos telemóveis.
É verdade. Podíamos recuar até 800 anos antes de Cristo, porque até os relevos assírios mostram figuras a segurar no que parece ser uma carteira.
É uma história muito antiga.
Muito antiga. Ou então, ao período medieval e à mala Courteau, que supostamente é a mais antiga que sobrevive, a peça mais antiga deste género, feita em 1300 e terá pertencido a uma mulher nobre de Mossul.
Quase todos os modelos de carteiras mais famosos têm as suas origens em contextos fora da moda. Aliás, para mim o mais interessante são os acessórios que nasceram com um propósito e acabaram por ganhar outro, não é? Queres dizer.
Olha as tote bags.
É um exemplo clássico.
É um tipo de peça que encontras aos pontapés hoje em dia, mas na verdade foi criada em 1944 pela L.L.Bean para carregar gelo para pesca. Nem era gelo para bebidas, era para pesca.
E depois tornou-se uma coisa absolutamente de culto. Tu achas que daria para enfiar no L.L.Bean um Jacob Elordi lá dentro?
Inteiro é difícil, que o rapaz ainda é alto.
É verdade.
Mas se o distribuísses pela sua coleção de malas, daria de certeza. Aliás, esse tem sido um ponto em destaque nos seus looks ultimamente. E há muitas senhoras a roerem-se de inveja por causa da sua coleção de botegas.
Pois é. É ótimo que as carteiras possam circular entre géneros. Começam a ser cada vez mais os embaixadores masculinos deste acessório. Falamos do Elordi, claro, mas tens também o Bad Bunny, o Harry Styles, o Jules Condé, o Timothée Chalamet. E que génios possam reinventar os clássicos sem amarras de género, estilo, isso também é muito interessante, não é?
Olha, a mim veio-me logo à cabeça a fase do Jean-Paul Gaultier na direção criativa da Hermès.
Incrível.
Foi ali entre 2003 e 2010, que nem foram assim tantos anos, mas teve uma intervenção.
Que ele produziu.
Produziu imensas carteiras. A intervenção nas peças em pele foi de facto fascinante. Tiveste de tudo. Tiveste as séries Soul Black, a Shadow, a Kelly Pochete, a Kelly Flat, enfim, um sem número de reinvenções.
É impressionante quando vamos olhar para trás e conferir essas inovações todas. As peças da Hermès são das mais cobiçadas do mundo, não é novidade. E também sabemos que não basta aparecer na loja com um molho de notas para comprar uma.
É verdade. Tens a famosa lista de espera, de que já todos ouvimos falar, nem que seja por aquele episódio de "Sex and the City" em que a Samantha se faz passar pela Lucy Liu para conseguir a sua Birkin.
Pois é. Margarida, até mais do que isso, porque segundo sei, as tuas redes acabam por ser investigadas, por assim dizer, para saber se és digna de exibir uma Hermès. Ou seja, os critérios de seleção não são muito claros, mas também faz parte do jogo e do mistério. Ainda assim, há coleções estrondosas pelo mundo.
Sim, a Victoria Beckham tem uma coleção que não é nada de má. A da Melania Trump também não. A das Kardashians, claro, essa é talvez das mais famosas. E olha que a Georgina Rodríguez vai bem lançada.
Pois vai na sua caminhada. Em Cingapura, tens uma senhora que se chama Jamie Chua, uma socialite que tem mais de 100 carteiras desta marca, uma espécie de cofre forte, climatizado, enfim, aquilo é tudo ao detalhe. Supostamente, a coleção vale mais de seis milhões. Até existe um fundo de investimento dedicado exclusivamente à compra deste tipo de carteiras.
É fascinante.
Mas sabes que já há quem se interrogue se o verdadeiro luxo não é estar um passo à frente, e quem diz isto, diz investir antes nas fundadoras celas para cavalos da Hermès, que na verdade é aí que a história começa.
Estas que falámos são pessoas para começar a investir nisso mesmo sem ter cavalos.
Verdade.
E por falar em celas, entretanto percebi que a Saddle da Dior foi desenhada pelo Galliano e já faz 26 anos.
Outro génio, pois é, há tanto tempo.
Quem teve a sorte de apanhar os anos de 1955 é que devia ter investido, sabes em quê?
Imagina.
Numa Chanel. É que o modelo 2.55 costumava custar 220 dólares.
Ai, Margarida, e hoje é milhares. Hoje é preciso bem mais para isso. Ciclicamente a peça volta a aumentar, inflaciona até o mercado em segunda mão, que também é forte, como sabemos.
Aqui falamos de clássicos absolutos. Depois temos fatores mais sazonais. Tens apostas para os próximos meses?
Sobre os modelos que vão estar em alta? Eu acho que nós vamos voltar, de onde na verdade não temos saído nos últimos tempos, mas acho que vamos voltar muito a 96 e à Reedition Bag da Prada. Até muito por causa desta série recente, o "Love Story" do Ryan Murphy, sobre a história de amor do John Kennedy Junior e da Carolyn Bessette, mais o seu estilo único.
Essa carteira exprimia muito aquela onda minimalista dos anos 20, que está um pouco de volta.
Sim, precisamente. E nem tem que ser em preto, porque em acardado, por exemplo, fica ótima, se quiserem variar um pouco. Depois como as modas regressam a cada 20 anos, como sabemos, já estamos a assistir à nova encarnação das city bags por excelência, como a da Balenciaga, a versão da Mulberry também, que é 2004, salvo erro, ou ainda a Paddington da Chloé.
Outra clássica não desaparecida.
Sim. E tudo para revermos aquelas imagens de nomes como, por exemplo, a Kate Moss nas ruas de Londres. Quem não se lembra disto? E muito ainda pré-redes. Hoje o efeito viral vem muito das redes sociais, do Instagram, do TikTok, onde domina o conceito de luxo acessível também, e onde vão surgindo, quer dizer, elas já existiam, mas se vão popularizando mais marcas como a Manu Atelier, que é criada por duas irmãs turcas em 2014, a chinesa Songmont, fundada um ano antes, ou ainda a londrina DeMellier, por exemplo, que passou por um rebranding em 2017, e acabam por se juntar aqui estes pesos pesados, nomes mais clássicos como Chanel e por aí fora.
E tu achas que isto vem com os amuletos atrelados ou nem por isso?
Ai Deus do céu, pela minha parte eu rezo todas as noites por um mundo sem charms nas carteiras. Mas vamos ver. Ainda não falaste do recheio da tua carteira, por falar nisso. Eu lembro-me de te ver quase perdendo o telemóvel por causa de uma funny pack atravessada à cintura. Tu tens mesmo é que usar bolsas maiores.
Olha, eu já nem sequer me lembrava disso.
Eu lembro-me bem desse concerto.
Mas se me recordo, esse episódio foi de facto como dizias, teve que ser numa noitada, num concerto que pedia pouco peso para a questão.
Elas são perigosas, porque quando se abre não é muito seguro para o conteúdo.
Não, é. Queres tirar o cartão e vai o telemóvel atrás. Sabes que agora com uma filha de um ano e outra a caminho, as minhas carteiras já aumentaram consideravelmente de tamanho. E o conteúdo também mudou um bocadinho. Agora é mais toalhitas, frutinhas de pacote e umas peças de Lego que eu confesso não sei bem como é que vão lá parar dentro.
Olha, mas isso é engraçado. Era precisamente, não com peças de Lego, mas um sentimento muito parecido partilhado pelos ministros da senhora Thatcher, que diziam sobre os documentos importantes que iam desaparecendo dos gabinetes e iam parar, não se sabe bem como, à carteira de mão da antiga primeira-ministra britânica. Portanto, eu acho que eles também tinham essa ideia que tu tens, que é não saber como é que as coisas vão bem lá parar.
Olha, o que é certo é que ela partilhava muito o gosto com a rainha Isabel II, que tinha mais de 200 carteiras da Launer London.
Sim, elas chegaram a usar a mesma marca, é verdade. E de facto, as carteiras falam muito sobre quem és e a fase da vida em que estás. A Kate Moss e a filha Laila, por exemplo, até têm aparecido juntas várias vezes. Ambas revelaram há pouco tempo os conteúdos das suas carteiras. Uma tinha um isqueiro preso ao porta-moedas da Chanel, porque diz que é algo que não pode mesmo perder. A outra tinha cristais para limpar a atmosfera e trazer boa energia. Tu consegues adivinhar quem é quem? De quem é que eu estou a falar?
Olha, tenho uma forte suspeita.
Tens, não é?
Tenho. Mas como não estamos aqui para difamar ninguém, o melhor é irmos andando. Até para a semana.
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