Erradicar a indisciplina: momento da verdade dos professores

Após o abandono da vida parlamentar, em outubro de 2025 regressei à casa de partida: a uma escola pública do ensino básico e secundário da multicultural Margem Sul do Tejo. Além das aulas, assumi a coordenação da formação de professores. Com as campainhas de alarme desligadas apesar de cerca de metade dos mais de 120.000 professores estar em sofrimento psíquico e físico, respondi ao desafio do centro de formação das escolas do concelho para realizar uma ação de formação.
Motivo para investir numa abordagem de tipo freudiano que permitisse aprofundar a compreensão de tão desumana desgraça, a possibilidade de enfrentá-la de forma sustentável. Tinha de trazer para a luz da razão as dores da mente de quem cumpre a missão de ensinar, os recalcamentos malsucedidos acumulados em salas de aula ano após ano, década após década. Esse sofrimento psíquico, por um lado, teria de se refletir no olhar dos professores sobre as suas relações com os alunos, pais, governantes ou académicos e, por outro lado, permitiria tipificar a personalidade do sujeito coletivo (em rigor, a sua estrutura psíquica), o que fosse saliente e estável no relacionamento dos professores consigo mesmos e com os outros. Pressupunha, contudo, que os sintomas poderiam variar consoante o objeto de atitude dos professores fosse ora a ciência e o conhecimento, ora a burocracia, facilitismo, indisciplina, violência, estado dos edifícios escolares, entre outros.
Parti de um modelo académico de investigação empírica sobre o pensamento social, revertido num guião composto por sete conjuntos de perguntas abertas que espoletassem sessões dialogadas, se possível sem filtros. Caberia aos professores-formandos, por eles mesmos, fornecerem a matéria-prima que validasse os propósitos da investigação-formação. A primeira ação seria um ensaio exploratório, no qual o formador-investigador procuraria tornar clarividente o padrão de personalidade do sujeito coletivo, em primeiro lugar para os próprios professores-formandos.
Entre fevereiro e março de 2026, decorreram as primeiras sessões nas instalações do centro de formação de professores do concelho. Qual destapar de uma panela de pressão, os diálogos forneceram elementos abundantes, forçando-me a uma atividade intensa de escrita nas semanas e meses seguintes. Ela foi ganhando formato publicável, e o interesse imediato de uma editora de referência acelerou o desfecho.
Saí desse primeiro ciclo de imersão em vidas sofridas de sala de aula com dois dogmas. O primeiro, os próprios sujeitos são a peça-chave do seu sofrimento, evidência resultante das atitudes de fuga dos professores, por um lado, a se reconciliarem com o ideal de autoridade e, por outro lado, a assumirem o seu dever inescapável de liderança moral suprema da sala de aula. O segundo, reverso do anterior, a cura de tão penoso sofrimento reside, por inteiro, na consciência de cada professor, na vontade manifesta de se mudar a si mesmo e, desse modo, resgatar a sanidade mental e dignidade do sujeito individual (Eu professor) e do sujeito coletivo (Nós professores). Logo, tal autoterapia psíquica – na fronteira entre a filosofia (Conhece-te a ti mesmo) e a psicanálise (uma certa uma dose de orientação externa) – comprova que os professores não precisam de mais ninguém, só deles mesmos, para a reforma do ensino que necessitam, reclamam e merecem.
No mês de setembro de 2026, a investigação empírica estava na sua versão conclusiva revertida em livro: «A Reforma das Reformas: a autoridade moral suprema do professor. Entre Platão, Freud, Weber e a ‘Paideia’». Cada professor e cada estabelecimento de ensino passou a dispor de um modelo de formação de professores para, pelo seu pé, exercer o direito e o dever de se libertar das décadas recentes autodestrutivas. Motivo para ter oferecido o primeiro exemplar ao Diretor em início de funções, uma vez que mudara a liderança da escola onde leciono na transição do final do ano letivo anterior para o início do atual. Poucos dias passados, o novo Diretor acrescentou às minhas obrigações a coordenação do Gabinete de Mediação de Conflitos (GMC), pois tínhamos de escalar a montanha da indisciplina: «Precisávamos de fazer cidadãos», expressão do Diretor. Com escolas públicas entregues à sua sorte, o caos no domínio das atitudes e comportamentos dos alunos torna impossível a sanidade mental e a qualidade de ensino nessas instituições, a desgraça das famílias desfavorecidas e da classe média.
Como as sociedades massivamente escolarizadas não são imunes a tal contágio, não podemos continuar tolerantes a defensores dogmáticos da comunidade cigana que nunca partilharam o quotidiano da referida comunidade, de minorias e pobres que nunca viveram em tais meios, de África e dos africanos que nunca por lá viveram, princípio extensível a generais de cinco estrelas que nunca estiveram numa frente de combate. Porque as tutelas ministerial e académicas cristalizaram no vício, todos os dias vemos nas escolas crianças, adolescentes e adultos coagidos ao sofrimento psíquico e físico.
Após mais de duas décadas a tentar contrariar o avolumar desse caos desumano – através de livros ou da comunicação social, no ensino superior como investigador e docente, assumindo responsabilidades de liderança partidária ou cumprindo cargos na Assembleia da República, em particular como deputado na Comissão de Educação e Ciência –, a realidade evidencia que a chave da reforma do ensino está onde sempre esteve: na intimidade quotidiana da sala de aula, a penumbra apodrecida do sistema escolar e, por inerência, do sistema social. Aí se instalou o olho do furacão da «banalidade do mal», tipificação da filósofa Hannah Arendt que assenta como uma luva a salas de aula que espraiam violência social pura e dura, a intrínseca aos povos escolarizados.
Entre a infância e adolescência, há décadas que todos os indivíduos passam pela formação escolar para aprenderem a autocorrigir os vícios da alma humana no resto das suas vidas. Rebelde, o quotidiano escolar e para além dele assola-nos com atitudes e comportamentos inversos, dissonância que me força ao regresso ao tema da violência social, que tinha abordado na minha segunda investigação empírica pós-doutoral, então sustentada num extenso trabalho de campo em Moçambique (2013-2015). O confronto no espaço (Moçambique versus Portugal) e no tempo (há cerca de uma década versus hoje) deixa a nu salas de aula portuguesas feitas portas de entrada da violência social na vida quotidiana, cuja crueldade compreendi como tinha contaminado a sociedade moçambicana para a desgraçar. Mesclado com vícios ocidentais precedentes, o fenómeno é hoje parte integrante do caos imigratório – basta fazer inferências sobre a restante África, América do Sul ou Ásia –, caldo no qual os professores das escolas públicas portuguesas, e demais ocidentais, foram jogados pelas tutelas ministerial e académicas sem para-choques, qual carne para canhão da violência psíquica.
Além da necessidade da simplificação burocrática para travarmos a indisciplina e violência, comprometi-me com o Diretor – personalidade de perfil clarividente – que, na primeira fase, iria realizar a ação de formação na própria escola multicultural da Margem Sul do Tejo. A condição sine qua non tinha de ser o envolvimento consciente e voluntário dos professores na renovação da ideia de escola, ambição favorecida por se tratar de um mesmo e único estabelecimento de ensino. É uma diferença substantiva em relação à ação de formação exploratória original, que tinha incluído professores de escolas diferentes fora do seu contexto institucional habitual.
Para a fase seguinte, comprometi-me a simplificar as ideias-chave da formação para ajustá-las aos alunos. Uma cultura escolar renovada só se gera se também partilhada pelos alunos, e não existe limite de idade mínima para crianças e adolescentes aprenderem que a escola é o seu (único) elevador social, cuja destruição são sobretudo alguns deles os responsáveis. Embora de muito menor duração, daí calendarizarmos sessões destinadas a todos os alunos por níveis de ensino, cingidas aos conteúdos da autoridade institucional e da moral social: do sétimo ano de escolaridade, sucessivamente, até ao do décimo segundo ano, incluindo os alunos do ensino profissional (secundário).
Em inícios de outubro de 2026, na abertura da primeira sessão da ação de formação específica para uma única escola, fui incisivo no diálogo com os professores: desafiava-os a comungarmos o dever e o direito de erradicar a indisciplina, assumindo-nos como a primeira escola pública do mundo ocidental a manifestá-lo. Bastaria não mais alimentarmos qualquer diferença de princípios entre o combate à indisciplina e violência escolares e o combate às demais formas de violência social. Os professores não mais se deveriam enganar a si mesmos, pois sofrem o mal na pele todos os dias. O caminho seria fácil? Seguramente que não, até porque o esforço de mudança tinha de ser remetido, acima de tudo, para a intimidade de cada professor, para a sua relação de consciência com a sua autoridade e com o seu dever de liderança moral da sala de aula. Seria uma conquista para amanhã? Que ninguém alimentasse a ilusão.
Nos dias e semanas seguintes, na comunidade escolar em causa multiplicam-se os sinais ter existido um antes e um a partir de agora, enquadrados pelo trabalho global da nova Direção. Embora incipiente, se tal rota renovada da cultura institucional se sedimentar nos meses e anos que temos pela frente, poderemos estar a viver dias decisivos de libertação de um ainda depressivo e opressivo presente que não deixará saudades a professores, alunos, técnicos operacionais, escolas.
Todavia, sementes lançadas num caso singular só se tornarão resistentes se outros professores de outras escolas, por eles mesmos, ousarem trilhar rumos equiparáveis. Cresceria o número de professores e escolas capazes de entregar muitíssimos mais alunos e famílias a futuros dignos e prósperos por vivermos dias d’«A Reforma das Reformas».
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