PISA 2025 ou o incómodo da avaliação comparada em educação

Após o 25 de Abril-e tal como seria previsível tendo em conta a herança do regime anterior- correntes ideológicas diversas mas geralmente próximas de partidos políticos mais à esquerda têm tido grande influência no nosso setor da Educação incluindo opções que muito se afastam dos ideários marxistas, designadamente na gosto em reduzir exigências, eliminar exames, etc tal como aconteceu entre nós entre 2015 e 2023. Com efeito, estas opções poderão relacionar-se com ideários anarquistas mas não com os princípios e práticas dos regimes que mais se aproximaram dos movimentos comunistas, tal como eu próprio testemunhei na Polónia de Jaruzelski na década de 80 quando participei em atividades como convidado da Universidade de Poznan: nem a tolerância do quarto de hora académico era aceite! Todavia, entre nós, tais correntes continuam a lutar pela ausência de exames e de comparações de resultados educativos com argumentos variados, designadamente que tais comparações prejudicam os mais desfavorecidos e que geram processos escolares apenas orientados para obter boa nota nos exames.
2 O Education at Glance, o PISA e o incómodo das comparações
Em 1990, era o autor Diretor Geral do Planeamento Educativo e Vice-Presidente do Comité de Educação da OCDE, quando se assumiu consciência da urgência de desenvolver análises objetivas que premitissem estabelecer comparações credíveis entre sistemas educativos dos Estados membros e dos resultados obtidos tendo assim nascido em 1992 o primeiro relatório do Education at Glance o qual haveria de evoluir para o projeto PISA a partir de 2000. Tal como seria previsível, nos nossos meios educativos surgiu forte oposição à participação de Portugal mas, felizmente, a minha proposta vingou e Portugal passou a participar desde o início. Aliás, movimentos semelhantes oposeram-se à divulgação de rankings no Ensino Secundário e só a conjugação de esforços da sociedade civil, onde se devem destacar os de jornalistas como o atual Diretor do Observador,continuaríamos a conhecer os rankings de outros países mas não o nosso.
Todavia, o incómodo evidente com que é recebido por muitos o relatório do PISA de 2025 confirma que os receios de 1992 perduram no nosso mapa educativo buscando argumentos visando mostrar que existem outros priores do que nós ou que também pioraram entre 2015 e 2025.
Para contrariar tal desinformação apresentam-se neste breve artigo três reflexões que se retiram das muitas centenas de importantes análises e conclusões do citado relatório.
3 A falácia de que tudo piorou
A referida cultura de desvalorização dos resultados obtidos costuma encontrar outros casos de insucesso para assim atenuar os nossos fracos resultados e neste caso comenta-se que nós piorámos entre 2015 e 2025 mas a média dos resultados da OCDE também baixou. Note-se que se deve usar a média da OCDE com cautela pois inclui países com níveis de desenvolvimento muito díspares, tais como a Colômbia, a Tailândia ou o Chile. Ora, é verdade que houve tal redução mas importa comparar com a de Portugal:
Resultados Ciências Literacia Matemática
Ano 2025-2015 2025-2015 2025-2015
OCDE 482-489=-7 461-489=-28 463-485=-22
PORTUGAL 482-501= -19 462-498= -36 460-492= -32
Confirmando-se assim que os agravamentos para Portugal são bem superiores aos da média da OCDE.
4 Que diversidade dos resultados em função das culturas educativas
Os paradigmas, os modelos e os sistemas educativos variam fortemente com os países pois radicam-se e são expressão das suas culturas e políticas públicas. O relatório PISA ilustra esta diversidade melhor do que qualquer outro estudo pelo que é interessante caracterizar alguns clusters de países que podem ser mais significativos para Portugal e que exemplificam culturas educativas bem distintas. Assim, consideraram-se os grupos, Latino (Espanha, França e Portugal); Nórdico (Suécia, Dinamarca e Finlândia), Anglo-Saxónico( Reino Unido e Irlanda); Asiático (Coreia do Sul, Macau, Hong/Kong, Japão, Singapura e Taipé) apresentando-se no quadro seguinte os resultados médios para cada grupo:
Resultados médios Ciências Literacia Matemática Média
1-Grupo Latino 480 456 466 467
2-Grupo Nórdico 489 467 468 474
3-Grupo Anglo-Saxónico 506 497 484 496
4-Grupo Asiático 534 505 538 526
Como se sabe, a cultura nórdica é rigorosa e pragmática,a anglo-saxónica é exigente e muito orientada para os desempenhos e a asiática é extremamente exigente até para a avaliação dos docentes e acredita-se que a educação é o bem mais precioso que se pode cultivar. Os resultados são bem claros pois todos suplantam os do primeiro grupo, e, mesmo no seio da Europa, o 3º grupo distancia-se cerca de 30 pontos do primeiro. No que respeita a evolução entre 2025 e 2025 o grupo que apresenta melhores variações é o asiático onde até existem casos como Macau, Taipé e Singapura que apresentaram melhorias significativas.
5 Quantos alunos atingem o nível 2 de competência?
Dos numeroso indicadores apresentados, talvez este seja um dos mais importantes: A percentagem de alunos na faixa dos 15 anos que não consegue atingir o nível 2 de competência. Segundo a OCDE, o nível 2 é o “nível mínimo de proficiência (a chamada “linha de base”) que a OCDE considera essencial para que um jovem de 15 anos consiga participar plenamente e de forma eficaz na sociedade contemporânea, no mercado de trabalho e em estudos futuros”. Ora é muito preocupante referir que em Portugal no ano de 2015 esta percentagem era de 24% e agora em 2025 é de 35%, ou seja cerca de 1/3 não têm condições para se integrarem na sociedade atual.
6 Que fazer?
Qualquer análise independente e objetiva permite concluir que importa identificar as principais causas do agravamento dos resultados e seguir os exemplos daqueles que nos ultrapassam pois os nossos jovens não têm menores capacidades ou motivação do que os desses países mas importará, em especial, não nos nivelarmos por baixo. Com efeito, não serão os políticos que optem pelas comparações com os piores que irão contribuir com mais ambição para o desenvolvimento de Portugal.
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