A uma semana da eleição, ainda dá para entrar na bolsa ou é melhor ficar fora dela?
A uma semana da eleição, o mercado acionário brasileiro já começou a incorporar parte das apostas sobre o resultado das urnas. Porém, isso não significa que seja hora de aumentar ou zerar a exposição à bolsa brasileira, de acordo com especialistas.
Até o último pregão na sexta-feira, 25, o Ibovespa subiu 10,3% desde 18 de agosto, quando passou a se recuperar das quedas em julho e na primeira quinzena do mês passado ao fechar em 166.335 pontos. Em setembro, o principal índice acionário da B3 acumula alta de 2,09%.
O movimento foi acompanhado por forte entrada de capital estrangeiro, enquanto investidores locais continuaram reduzindo posições. Um descompasso que ajuda a explicar o dilema que se coloca para o investidor antes da votação: quanto da eleição já está nos preços e quanto ainda pode mudar depois das urnas?
De um lado, o JP Morgan vê espaço para uma reprecificação relevante das ações brasileiras caso o mercado enxergue uma trajetória de maior disciplina fiscal e queda dos juros. De outro, os analistas ouvidos pela EXAME alertam que tentar antecipar o resultado para capturar uma alta, ou evitar uma queda, transforma a eleição em uma aposta de curto prazo.
Entrar agora na bolsa ou esperar?
Na avaliação de Jayme Simão, sócio-fundador do Hub do Investidor, tentar capturar um movimento eleitoral nos preços atuais envolve risco elevado independentemente do lado escolhido. "Apostar no resultado é cara ou coroa. Quem tem posição de longo prazo, mantém. Quem quer entrar, entra aos poucos", recomenda o especialista.
O CEO da Inter Asset, Daniel Castro, tem uma avaliação semelhante sobre a necessidade de calibrar a exposição, mas considera que os preços atuais ainda oferecem espaço para quem está disposto a correr algum risco.
"A Bolsa, hoje, você tem um nível de preço interessante para entrar nesse momento. Se tivermos um governo que tem agenda de ajuste fiscal mais forte você tem um potencial de alta relevante no curtíssimo prazo. Não estar alocado, talvez não faça sentido. É interessante uma margem de segurança, uma calibragem do risco que você vai querer correr. Não recomendo não ter nenhum tipo de participação. Agora o peso dela é importante discutir", diz.
A ideia de ajustar o tamanho da posição, em vez de tomar uma decisão binária, também aparece na análise de André Matos, CEO da MA7 Capital. Na visão dele, a eleição não deveria determinar sozinha a decisão de investir em ações.
"A decisão de estar ou não em bolsa não deveria depender de uma data no calendário, deveria depender do horizonte de quem investe e de quanto de oscilação essa pessoa aguenta sem mudar de ideia", afirma.
A lógica, porém, é diferente para quem precisa do dinheiro em breve e para quem tem horizonte de vários anos. "Se o dinheiro vai ser usado em seis meses, ele não deveria estar em bolsa em nenhum cenário, com eleição ou sem eleição. Se o horizonte é de cinco anos, uma semana não muda tese nenhuma", completa Matos.
O CEO da MA7 Capital acrescenta que o mercado tende a antecipar resultados que considera prováveis. "O cenário considerado provável já está embutido no preço muito antes da apuração, então quem sai para esperar o desfecho normalmente vende no susto e volta depois do movimento, que é a pior combinação possível", adverte.
Para André Motta, especialista em investimentos da Valor Investimentos, a indefinição eleitoral também torna arriscada uma aposta direcional neste momento. "Minha visão é que o cenário da eleição é de indefinição, com aproximadamente 50% de chances para cada lado. Então se posicionar agora seria como jogar um cara e coroa, fazendo uma aposta, o que nunca é recomendável", afirma.
Quem dá peso para as eleições são os investidores locais
A sensação de que o mercado já precificou uma eventual alternância de poder não é desconsiderada. O Ibovespa saiu de cerca de 166 mil pontos, na mínima em agosto, para acima de 183 mil pontos no fim da semana passada, uma recuperação de mais de 10%.
Iuri Franceschini, fundador da Acta Partners, destaca, no entanto, que interpretar esse movimento como um rali eleitoral completo seria exagero. "A verdade é que estamos com a sensação que 'o mercado já andou' devido a essa alta do Ibovespa".
"Isso, porém, foi apenas uma descompressão de risco com gringo parando de vender o absurdo que vinha sendo. Não estamos em máxima história e extremo otimismo. Muitos ativos estão defasados ainda por falta de fluxo, especialmente muitas small caps, as mais beneficiadas caso venha um governo pró-mercado", afirma.
De fato, de acordo com dados do fluxo de investimento da B3, enquanto os estrangeiros acumulam entrada líquida de R$ 9,06 bilhões em setembro até o dia 24 de setembro, os investidores institucionais locais retiraram R$ 7,20 bilhões.
Para Franceschini, isso mostra que o investidor doméstico ainda não participou do movimento de recuperação na mesma proporção. "Quem mais dá peso a eleições são os investidores locais", acrescenta.
Na avaliação do gestor, isso deixa espaço para uma mudança mais forte de fluxo caso o resultado das urnas seja interpretado como favorável pelo mercado.
Um dos exemplos citados por Franceschini é o Banco do Brasil (BBAS3). Mesmo depois de uma alta superior a 30% desde a mínima de agosto, BBAS3 ainda estaria 27% abaixo da máxima do ano e 33% abaixo da máxima histórica, segundo os cálculos apresentados pelo analista.
Resultado eleitoral sozinho não 'transforma' a Bolsa
Segundo o JP Morgan, MSCI Brasil, índice de ações que mede o desempenho das empresas brasileiras de médio e grande porte, negocia atualmente a 8,6 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses. Esse múltiplo coloca o mercado entre os cenários de "deterioração" e "melhoria" construídos pelo banco a partir dos múltiplos dos últimos dez anos e mais próximo do primeiro.
Se o mercado migrar para um cenário de "melhoria", o maior banco dos Estados Unidos calcula um potencial de alta de 28% para o MSCI Brasil a partir dos níveis atuais. Em um cenário de "correção estrutural", com o P/L médio chegando a 13,3 vezes, nível observado pela última vez em 2020, o potencial implícito chega a 54%.
"O Brasil foi o mercado emergente com melhor desempenho no último mês, à medida que as pesquisas começaram a mostrar uma diferença cada vez menor, indicando a possibilidade de uma vitória da oposição nas eleições de outubro. Conforme enfatizamos em nossas perspectivas para o segundo semestre, fatores globais geralmente são os principais impulsionadores na América Latina, mas, às vezes — especialmente durante as eleições —, fatores locais podem assumir o comando. Quando isso acontece, a oscilação costuma ser maior do que a decorrente apenas do beta global", dissem os analistas.
O JP Morgan ressalta, contudo, que o resultado eleitoral, sozinho, não é suficiente para transformar o cenário de deterioração em melhoria.
"Acreditamos que o potencial de alta poderia ser maior se houvesse uma visão positiva do mercado sobre a direção e a implementação da futura política econômica, incluindo os possíveis candidatos a ministro da Fazenda e, por extensão, o gabinete como um todo. Nesse caso, em nossa opinião, o mercado poderia avançar de forma mais concreta em direção ao 'equilíbrio' de melhora", afirma o banco.
A análise é corroborada por Simão. "O que decide é o sinal fiscal nas primeiras semanas, não o nome eleito", diz.
Mas se a oposição vencer, a bolsa dispara?
Há espaço para uma reação positiva caso o mercado interprete o resultado como uma mudança na direção da política econômica. Mas os especialistas diferenciam o movimento imediato da valorização que poderia se sustentar nos meses seguintes.
O sócio-fundador do Hub do Investidor afirma que parte dessa expectativa já está incorporada nos preços. "Parte já está no preço, mas não tudo: o Ibovespa segue uns 8% abaixo da máxima de abril. O primeiro a reagir seria o juro longo, puxando as ações mais sensíveis a juros".
A dinâmica faz sentido porque uma expectativa de menor risco fiscal tende primeiro a aparecer na curva de juros. Se os juros futuros caem, empresas mais sensíveis ao custo de capital podem ser beneficiadas.
E se o atual governo for reeleito?
Já uma vitória do atual governo pode provocar uma reação negativa inicial, especialmente entre os ativos mais dependentes da percepção de risco doméstico. Mas também não há uma relação automática entre reeleição e queda prolongada da bolsa.
"A bolsa cai inicialmente caso o governo atual levar a melhor, e ações de high beta — small caps, varejo, construção — tendem a sofrer mais por estarem nessa dinâmica de ‘sentimento dos locais’ e por serem afetadas por políticas fiscais ruins e que afetam a curva de juros futuro", diz Franceschini.
Nesse cenário, porém, o analista vê uma consequência diferente para quem não estiver excessivamente exposto: uma eventual queda pode abrir oportunidades de compra."Mercado como um todo deve cair caso o governo atual leve, e nesse ‘tudo cair’, abrem boas oportunidades em setores defensivos e que já se mostraram vencedores independente de quem está no comando do barco chamado Brasil", afirma.
Entre eles estão utilities e bancos. "São dois setores que o gringo também adora e direciona grande fluxo quando mira Brasil".
O que fazer com a carteira em cada cenário?
Para o investidor de longo prazo, os analistas ouvidos pela EXAME não veem razão para transformar uma semana eleitoral em uma mudança estrutural de carteira.
Para quem tem menor tolerância a risco, a recomendação é diferente. Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, afirma que ficar completamente fora pode significar perder movimentos importantes, mas elevar demais a exposição também não parece necessário diante da volatilidade esperada.
"O mais racional é manter uma posição menor e seletiva, privilegiando empresas com caixa forte, baixo endividamento e resultados menos dependentes do cenário político", afirma.
Para esse perfil, preservar liquidez também ganha importância. "A eleição pode provocar movimentos rápidos de preço, mas o que deverá sustentar a Bolsa depois das urnas será principalmente a percepção sobre juros, inflação e trajetória fiscal", acrescenta Lima.
A lógica é manter recursos disponíveis para aproveitar oportunidades caso apareçam preços mais baixos depois da eleição, sem necessariamente abandonar completamente a renda variável. Já para quem aceita mais risco e busca capturar uma eventual mudança de percepção sobre o Brasil, ativos que ainda estão distantes das máximas podem oferecer maior sensibilidade ao cenário.
Franceschini cita justamente as small caps e empresas mais expostas ao ciclo doméstico como possíveis beneficiárias de um cenário pró-mercado. No cenário contrário, de uma reação negativa após as urnas, a estratégia pode ser justamente esperar a poeira baixar e procurar empresas com fundamentos mais resilientes.
Para investidores mais sofisticados, há ainda a possibilidade de utilizar opções para atravessar o período eleitoral com proteção. Motta afirma que uma conversa com o assessor sobre estruturas de opções pode fazer sentido para quem deseja manter a exposição, mas reduzir o impacto de uma oscilação adversa.
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