Grêmio tem futebol e clima de rebaixado

Todos aqueles que já foram desgraçados por um rebaixamento se tornam especialistas no assunto, tamanho o trauma. Reconhecemos um condenado à queda pela curvatura dos ombros, pelas palavras desconexas, pelo olhar que implora por socorro. Sabemos como ele joga: a pressa de quem não sabe para onde correr, o destempero de quem não sabe com quem brigar. Quando o desespero e o desânimo se encontram, já era.
Faltando sete rodadas para o fim do Campeonato Brasileiro, o relógio do Grêmio tiquetaqueia na direção do rebaixamento. O jogo entre Corinthians e Vitória, na noite desta segunda-feira, ajudará a dimensionar, numericamente, o tamanho do buraco no qual o Grêmio se enfiou com a derrota de 4 a 2 para o Cruzeiro, domingo, na Arena. Mas o drama tricolor é muito mais grave do que sugere a tabela.
Kannemann foi expulso na Arena — Foto: Roberto Vinicius/AGIF
Contra o Cruzeiro, o Grêmio levou uma virada em casa, teve Kannemann expulso por fazer (sem nenhum fundamento) gesto de roubo para a arbitragem, viu Renato mais uma vez criticar a diretoria e questionar a qualidade do elenco. Nas arquibancadas, alguns torcedores brigaram entre si, outros gritaram “time sem vergonha”, tantos mais vaiaram a equipe. Em um dos últimos lances da partida, o goleiro Weverton deu um bico na bola para a linha de fundo.
O Grêmio não caiu. A salvação é possível. Mas hoje ele tem futebol e clima de rebaixado. Taticamente, oferece espaços com os quais jogadores como Matheus Pereira e Kaio Jorge se deliciam. No comportamento, apresenta atletas desnorteados e um treinador que, a cada entrevista, constrói a mensagem de que a culpa pelo rebaixamento não será sua.

Renato critica montagem do elenco do Grêmio
Dos sete jogos que restam, quatro são contra adversários que estão entre os oito primeiros, incluindo o Flamengo, líder do campeonato, e o Athletico, terceiro colocado. É neste cenário que o Grêmio, com um time que passa a impressão de jamais ter jogado junto, precisará acumular vitórias para uma arrancada que hoje parece incompatível com a realidade.
Em 18º, o time tricolor precisará arranjar dois clubes mais dispostos a cair do que ele. Há bons candidatos (o Inter, o Corinthians), mas hoje o maior argumento pelo rebaixamento do Grêmio é o próprio Grêmio. A grande cartada que a diretoria poderia ter dado já foi dada com a chegada de Renato. E ela se mostrou incapaz de mudar o cenário. Embora o técnico diga que melhorou a equipe “em todos os aspectos”, o campo mostra outra coisa. Ele mostra estagnação.

Felipe Melo critica falas de Renato Gaúcho no Grêmio
Enquanto isso, Renato vê suas estratégias se esgotarem. As críticas à diretoria como forma de fortalecer o vestiário, os recados a jogadores desinteressados, o churrasco para aglutinar o grupo, as tentativas de puxar a torcida – nada surte efeito. Neste domingo, o treinador, sempre tão otimista, sempre tão confiante, também era a imagem do desânimo ao admitir que a situação se complica mais e mais a cada rodada.
Se cair, o Grêmio cairá especialmente por causa da montagem do seu elenco, uma mistura de veteranos em decadência com apostas randômicas. A isso, se soma a perda de tempo com Luís Castro, que parecia um bom nome, mas entregou um trabalho nulo.
Renato cumprimenta torcedor na Arena do Grêmio — Foto: Roberto Vinicius/AGIF
Renato, de fato, não poderá carregar esse fardo sozinho – e tenho sérias dúvidas de que ele seguirá no cargo até o fim do campeonato. Se ficar, estará sujeito a virar o símbolo mais dolorido deste pesadelo gremista: o ídolo, também ele falho, sem forças para evitar a queda.
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