Festas do Povo em Campo Maior

Flores cortadas e dobradas de forma tão delicada que quase parecem verdadeiras – há quem tenha de lhes tocar para ter a certeza de que são mesmo de papel. As Festas do Povo regressaram de 8 a 16 de agosto de 2026, mas o trabalho, dedicação e alegria dos campomaiorenses começaram muitos meses antes.
Quando o povo quer, a festa acontece
Nas Festas do Povo de Campo Maior há música ao vivo, ranchos populares e barraquinhas de comes e bebes, como em quase todas as festas tradicionais – mas, ao contrário de outras, estas só acontecem quando o povo quer. E o povo quis que acontecessem em 2020. Os preparativos da organização já estavam em andamento quando a pandemia de covid-19 se intrometeu, cancelando os planos. A 15 de dezembro de 2021, veio o prémio de consolação: a notícia de que as Festas do Povo foram classificadas como Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO. É uma tradição que remonta a 1893 e que, depois de um longo interregno, ganhou, em 1922, o nome de Festas do Povo. Em agosto de 2026 – passados 11 anos desde a última vez – aí estão elas novamente. Não por decreto, mas porque o povo assim quis.
As saias que dão voz à festa
A música faz parte das Festas do Povo. Antes de se escutar pelas ruas enramadas da vila, é entoada nas garagens, cozinhas e salas em que os campomaiorenses passaram os últimos meses a fazer flores de papel. Saca-se das pandeiretas e gaitas, afina-se as vozes com um licor e canta-se as emblemáticas saias de Campo Maior, cantigas tradicionais que acompanhavam os trabalhos no campo e que regressam à festa como memória viva da comunidade:
Oh, belo Campo Maior é terra dos trabalhadores!
De dia vão para o trabalho, à noite fazem flores!
Nas festas toda a gente diz que não, quando se fala nas festas toda a gente diz que não!
Mas depois o tal bichinho entra-nos no coração, mas depois o tal bichinho entra-nos no coração
Mas depois o tal bichinho entra-nos no coração, mas depois o tal bichinho entra-nos no coração
Três mil flores numa ruinha
No que às flores de papel diz respeito, o trabalho manual propriamente dito começa meses antes. “O ideal é arrancar logo em janeiro ou fevereiro. As pessoas começam a fazer flores por essa altura e nunca é cedo demais”, conta Célia Portela Cabaço, na garagem da Ruinha de Santo António. O diminutivo é apropriado considerando os 30 metros de comprimento da rua. Ainda assim, para a engalanar, Célia e os vizinhos – Jorge Bairua, Célia Saragoça e António Portela, mais conhecido como “Paródia”, entre outros – fizeram perto de três mil flores, incluindo papoilas, malmequeres e girassóis. “Só papoilas foram mil e cem!”, diz.
Flores que passam de mãos
Criar flores de papel é um labor de minúcia. O caule das flores, feito de arame, é forrado com papel verde. Mas as funções do arame não se esgotam aí: com cola e solda transforma-se um aglomerado de arames numa trepadeira, que de seguida receberá folhas, todas elas dobradas e coladas uma a uma ao longo de meses. As crianças também participam. “Em pequenos, todos nós assistimos aos serões e começámos por fazer aqueles trabalhos simples, os torcidos para fazer flores ou forrar arames, por exemplo.” Célia lembra-se de ser garota e ajudar os pais no inverno: “Íamos para uma casa que estava vazia, com chocolate quente e churros, e juntávamo-nos ali todos ao serão.”
Os maestros das flores
Cada rua pode ter um ou mais cabeças de rua. Esta é a pessoa que tem a responsabilidade de reunir os moradores e as suas vontades, ser o seu representante e coordenar a empreitada de modo a que na noite de 7 de agosto tudo esteja a postos para o preparativo final: a enramação das ruas com as coberturas de flores de papel produzidas nos meses anteriores. “É alguém que tem uma ideia criativa para a rua ou que tenta encontrar um consenso entre as ideias dos vizinhos”, resume Duarte Silvério, cabeça de rua da Mouraria de Cima.
A noite em que a vila floresce
A enramação faz-se de noite, na véspera das Festas do Povo, dando uso às centenas de estacas que foram colocadas nas bermas das ruas nas semanas que antecedem a inauguração. “É preciso nivelá–las, para que fiquem todas direitas, e isso demora tempo. Os tetos de flores, esses, é que só entram na noite de enramação”, explica Duarte. Teresa Cachapa considera essa noite a mais bonita: “É quando as nossas flores e os nossos segredos saem para a rua. E quando se termina, vamos todos ver qual é a rua mais bonita. Num dia temos uma vila normal e, na madrugada seguinte, vemos que se transformou num jardim encantado.” Nessa noite, em Campo Maior, ninguém dorme.
Segredo até à festa
Depois de oito horas à volta das flores da rua Delta, Maria Ramos e Susana Abreu ainda ajudam nos serões dos vizinhos. “Estamos a cumprir uma tradição que vem dos tempos dos nossos bisavós. Fazemo-lo com gosto e não damos pelo cansaço”, diz Maria. Como sempre, o sigilo é total. “Lembro-me de estar a brincar com outras crianças dentro da garagem e de a minha avó dizer: Meninas, não contem a ninguém o que se passa aqui!”, recorda Susana. Só no dia da enramação é que os temas de cada rua se sabiam. Nisso, nada mudou. E o segredo, em princípio, estaria seguro: “Eu fazia os torcidos, mas em criança não percebia do que se tratava, sabia apenas que era para as festas.”
A rua que nos une
Um casebre ao lado de um armazém do Grupo Nabeiro foi convertido em quartel-general das decorações da rua Vasco Sardinha, por estes dias batizada de “rua Delta”. Sob o tema “A rua que nos une”, quase uma dezena de pessoas passa aqui oito horas por dia a fazer flores de papel. “Foi uma iniciativa de agradecimento dos colaboradores à Delta e a Campo Maior, já que as festas não aconteciam há dez anos”, esclarece Teresa Cachapa. Os tetos da rua estão a ser preparados num edifício desocupado na praça da República, bem no centro da vila. É um cenário onírico. Há flores em caixas, ramos espalhados pelo chão e buquês suspensos do teto.
Onde nasceu uma história de amor
Na casa onde nasceu Rui Nabeiro, no n.º 6 da Travessa da Praça, começou a história de quem acreditava que, mesmo com pouco, se pode fazer muito. Pela primeira vez, a casa pôde ser visitada pelo público. Para celebrar a ocasião, foi inaugurada uma placa comemorativa, onde se lê: “Aqui nasceu Rui Nabeiro (1931–2023). Eternamente Humanista, Feliz, Sonhador, Campomaiorense, Empreendedor, Líder, Pai, Pai da Delta. E/ternamente do Povo.” A rua acolhe uma homenagem da Associação Coração Delta. “São as primeiras Festas do Povo sem o Senhor Rui. Por isso, quando foram anunciadas, propus à Rita Nabeiro que adotássemos a rua onde nasceu o avó, um lugar de que sempre falou com orgulho”, conta Dionísia Gomes. “A Rita respondeu com entusiasmo e esteve envolvida em todo o processo de criação e mentoria, incluindo a escolha do tema do Jardim da Alice”, recorda a coordenadora de ação social da associação responsável pelo Centro de Talentos Alice Nabeiro, para crianças, e pelo programa Tempo para Dar, dirigido a idosos. “Pensámos que seria interessante juntar a geração do saber – que são os nossos idosos e as nossas senhoras que aqui estão – com as novas gerações, para que nunca se perca esta festa, que faz parte da nossa cultura.” Inspirada no jardim de flores cuidado por Alice e admirado por Rui – onde nasceu a sua história de amor –, a intervenção recria um jardim vertical e aberto a todos, onde as flores, em vez de virem do chão, vêm de cima, do teto.
Festas com história
Para se perceber a origem das Festas do Povo, é preciso recuar até ao século XVIII e às festas de São João Baptista, padroeiro de Campo Maior, que se realizavam a 28 de outubro para comemorar a data em que, em 1712, a povoação se tinha libertado de um cerco que pusera em risco os seus bens e as suas vidas. No final do século XIX, estas festas religiosas perderam expressão, mas foram retomadas com um carácter mais popular e mais próximo daquele que têm hoje. Em 1893, comerciantes, artesãos e trabalhadores urbanos – os chamados “artistas” locais – organizaram os festejos, que, no ano seguinte, passaram já a incluir a ornamentação e a enramação das ruas com verdura, iluminação e os primeiros enfeites de papel. Em 1922, a celebração ganhou o nome pelo qual é hoje conhecida esta semana de alegria e festejos na raia alentejana: as Festas do Povo de Campo Maior.
O legado nas ruas de Campo Maior
Ao longo de nove dias, mais de cem ruas decoradas por quatro mil voluntários deram vida a uma tradição que reflete os valores de comunidade, entreajuda e dedicação que marcaram o percurso de Rui Nabeiro e que continuam hoje presentes na identidade de Campo Maior. A celebração do seu legado prolonga-se pelas ruas enramadas da vila e pelas histórias que ajudam a contar o seu percurso: a travessa da Praça foi decorada pela associação Coração Delta; a rua Vasco Sardinha pela Delta Cafés, um tributo dos colaboradores do Grupo Nabeiro à vila de Campo Maior; a Cafés Camelo tomou conta da rua Afonso Costa; e, por fim, a Adega Mayor levou flores e vinho à rua da Misericórdia. A cereja em cima do bolo? Pela primeira vez, a casa em que nasceu o Comendador Rui Nabeiro foi aberta ao público para ser visitada por campomaiorenses, forasteiros e curiosos.
Uma tradição com futuro
João Manuel Nabeiro, presidente da Associação das Festas do Povo, teve um papel decisivo no regresso desta celebração a Campo Maior. Foi o chairman do Grupo Nabeiro quem, em 2025, convocou a população para aferir a vontade de voltar a celebrar e que, obtida uma resposta afirmativa, liderou o processo que devolveu as flores de papel às ruas. Depois de “nove meses” de preparação e de “milhares de mãos” envolvidas, a cerimónia de inauguração decorreu a 8 de agosto, com a presença do Presidente da República, António José Seguro, de membros do Governo e de autarcas. “A festa, meus senhores, nasceu esta madrugada, entre arames, escadotes, pregos de mão e café sem fim”, disse João Manuel Nabeiro, referindo-se à noite de enramação, na véspera, quando as festividades começaram para os campomaiorenses. “É uma festa que não nos pertence, que nos ultrapassa. Foi-nos emprestada por quem cá veio antes e havemos de entregá-la a quem vier depois.”
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