O dilema do "ovo e da galinha" entre Israel e o Hamas

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Abrimos agora o Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos os principais focos de tensão na geopolítica mundial. Hoje contamos com a análise do major-general João Vieira Borges. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Muito boa tarde, muito obrigado.
Boa tarde. E começamos, inevitavelmente, pelo Médio Oriente, porque hoje termina o prazo para os Estados Unidos e o Irão negociarem um acordo de paz, o tal prazo de 60 dias que tinha sido fixado para esta paz final e que devia incluir o programa nuclear iraniano, também as sanções contra Teerão. Foram dois meses marcados por ataques e tensão no Estreito de Ormuz, e as conversas que deveriam ter existido estão paradas há semanas. Por causa desses ataques, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão diz que esse prazo se tornou irrelevante, acusou os Estados Unidos de violar o acordo. Entretanto, a imprensa saudita diz que há acordo para uma extensão deste cessar-fogo de 60 dias. Uma informação não confirmada por nenhum outro meio de comunicação social internacional, mas independentemente disso, pergunto: se durante estes 60 dias não foi conseguido nenhum acordo de paz final, o facto de haver esta possibilidade de extensão abre uma nova porta ou podemos esperar que tudo fique igual?
Eu julgo que depois das afirmações de Trump, acho que não devemos esperar nada. O Trump acabou de dizer há pouco que o Irão se deveria render. Não há uma noção mínima da realidade da parte de Trump, continua com uma narrativa perfeitamente desfasada da realidade. Segundo ele disse, o Irão deveria hastear a bandeira branca da rendição. Isto é uma linguagem que ele já devia saber, e os seus assessores, que não funciona com o Irão. É muito interessante, porque com o Irão, aquilo que chamou a atenção é que o memorando lhe serve muito bem. Nós todos temos consciência que foi um mau memorando para os Estados Unidos e para o mundo ocidental. E, portanto, a única coisa para o Irão, o problema é a implementação do memorando, dos desentendimentos, como eu lhes chamei desde o primeiro dia. Não é o texto, para eles o texto está ótimo. O problema é que certamente que Trump e a sua administração, depois das críticas de que foi alvo, obviamente, a começar no próprio Israel, por outras razões, mas no mundo ocidental, que era bom haver memorando, mas que o memorando não favorecia claramente os Estados Unidos. O memorando era uma declaração, na prática, de intenções em que uma leitura mais cuidada levava a interpretações de derrota dos Estados Unidos e por isso logo a seguir houve a guerra, houve novamente os ataques da parte dos Estados Unidos, não foi por acaso, se não me engano, no final de junho. E, portanto, a sua questão, a questão da Beatriz, é que, na minha perspectiva, não vejo grandes passos para entendimento. Enquanto não houver negociação com Omã. E por isso mesmo, também Trump hoje ameaçou o próprio Omã. Aliás, Trump ameaça todos os aliados, a começar no Canadá, a acabar na Europa, passando agora pela Coreia do Sul hoje também. Tudo o que é aliado, ele ameaça. Até o Omã, que era um aliado importantíssimo neste processo, mas que ele está a ver que está a negociar a passagem do Estreito de Ormuz com o Irão e está a caminhar no bom sentido, ele já ameaça o próprio Omã, caso Omã entre em acordo com o Irão. Portanto, digamos que enquanto não houver um acordo entre o Irão e Omã, eu julgo que não haverá espaço para qualquer entendimento, até porque o cerne do entendimento não era propriamente o Estreito de Ormuz no início. O cerne era a questão nuclear e a questão das sanções. E isso ficou de lado desde o início. E, portanto, continuamos à espera da resolução da questão do Estreito de Ormuz e só depois caminharemos para as questões essenciais. E dizia Trump que eram essenciais, mas agora com as eleições, o essencial já, pelos vistos, passou a ser o preço do petróleo nos Estados Unidos por causa das eleições norte-americanas.
E falando precisamente agora dessa ameaça de Donald Trump a Omã, se o país se colocar no caminho dos Estados Unidos nestas negociações, Trump ameaça bombardear. Pergunto se esta é uma ameaça para levar em conta e também partindo do princípio daquilo que acabou de dizer, que sem acordo entre Irão e Omã não há possibilidade para a resolução deste conflito, se Trump está aqui a agir como principal dificultador do alcance deste acordo.
Sim, não estará muito longe, Beatriz, da surface. Sinceramente, digamos que neste momento, a aliança importantíssima, a aliança do Cairo com a Turquia, o Paquistão e a Arábia Saudita, alterou completamente o quadro geopolítico na região. Trump há pouco teve esse cuidado, pelo menos isso foi positivo, de apoiar essa mesma aliança no sentido de ser uma aliança que crie condições para que haja paz na região, desde que seja uma paz que favoreça os Estados Unidos da América. Digamos que esta ameaça de Trump a Omã é mais a dissuasão no sentido de Omã perceber que não pode negociar com o Irão algo que é contrário aos interesses dos Estados Unidos e, na prática, aos interesses da geopolítica da região neste momento. É mais nesse sentido que é esta linguagem à maneira de Trump. É evidente que não é uma linguagem adequada Para aquela região, designadamente para outros países que ainda não estando naquele tratado ou no acordo do Cairo, também já têm muitas dúvidas sobre a credibilidade dos Estados Unidos e sobre a fiabilidade dos Estados Unidos em termos do apoio. Porque quando são atacados pelo Irão, pelos vistos, têm dificuldades em reagir e os Estados Unidos, pelos vistos, depois também não os protege. E, portanto, essas garantias de segurança não sendo dadas, eles vão se juntando em alianças na própria região. É a mesma situação que está acontecendo na própria Europa relativamente à Ucrânia. Também tivemos a Finlândia e a Suécia a entrar na NATO, também temos a própria Europa a unir-se em torno daquilo que é o apoio à Ucrânia, porque também sabemos que da parte dos Estados Unidos não há qualquer fiabilidade e, sobretudo, desta administração. E é isso que também estamos a ver ali. E é isso que também estamos a ver agora também na Coreia do Sul, no Japão, todos aqueles países, depois daquilo que ele acabou de dizer há pouco, mais uma vez, é a destruição da estratégia norte-americana. Trump consegue, com as suas narrativas e com a sua linguagem "ordinária", dar cabo de tudo o que tem sido uma estratégia norte-americana ao longo dos anos, neste caso, desde 53, neste caso da Coreia. É perfeitamente indescritível o que ele disse há pouco, protegendo o líder da Coreia do Norte, que é uma coisa perfeitamente . Naturalmente que os assessores, os estrategistas de Trump, devem ter ficado agora muito atarefados para tentar tapar estas asneiras de Trump. Mas isso é outro assunto, mas está relacionado, como já viu.
E ainda no Médio Oriente, o enviado especial norte-americano, Jared Kushner, pressionou o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu para avançar finalmente com o plano de cessar-fogo de paz para Gaza, apoiado por Donald Trump. Os dois estiveram reunidos durante mais de quatro horas, um longo encontro, e durante esse encontro, Netanyahu terá dito a Kushner, e também ao diretor do Conselho de Paz, que o Hamas deveria tomar medidas primeiro. Netanyahu diz que o Hamas se desarme completamente antes de Israel iniciar a retirada das forças de Gaza. O Hamas, do outro lado, diz que só entrega as armas com uma retirada faseada das tropas israelitas do território. Afinal, quem é que deve dar o primeiro passo?
Esta é a questão do ovo e da galinha, claro. Portanto, quem deve dar o primeiro passo, obviamente que neste caso é a potência ocupante. Na minha perspectiva, tem liberdade de ação suficiente, se não houvesse eleições, mas há eleições. Se não houvesse eleições, tinha liberdade de ação suficiente para recuar um primeiro faseamento e imediatamente na primeira fase, o Hamas desarmar. Isso era uma demonstração, era assim que devia ser, mas há eleições. Há eleições e temos ministros israelitas como Ben-Gvir a dizer que se devem matar 30 a 40 pessoas por dia, independentemente de estarem ligadas ou não ao Hamas. Portanto, nós temos situações perfeitamente indescritíveis em Israel, num período eleitoral, que estão a destruir todo este processo. Processo esse que obviamente era muito positivo da parte dos Estados Unidos, ali sim, Kushner e não só, têm desenvolvido um trabalho positivo depois de todo aquele genocídio, quer se queira quer não, é essa a expressão utilizada pelas Nações Unidas, é essa a expressão que eu utilizo. Eu considero dois genocídios. O primeiro de 7 de outubro e depois o outro de Israel. Depois de dois genocídios e a precisarmos de paz na região, essa era a solução, mas os negociadores vão ter que trabalhar muito mais para que Israel dê um passo atrás ou que deem os dois um passo ao mesmo tempo, o que é muito difícil, como nós sabemos. A solução seria sempre essa. Marcar uma data para haver retração das Forças de Defesa de Israel, é assim que se denomina, as FDI, e em simultâneo, um processo de desarmamento. É a solução, mas não sei se haverá capacidade para chegar a este ponto, já que quer uma solução, quer outra, são inaceitáveis pelas duas partes. Portanto, vamos ver.
Antes de terminarmos, queria ainda falar de um outro país em guerra aberta, isto porque foi divulgada uma investigação do jornal britânico The Telegraph, cita fontes de serviços secretos europeus, também americanos, que acreditam que a Rússia pondera levar a cabo uma provocação armada em solo polaco. Falamos de ataques com mísseis ou drones contra infraestruturas críticas ou ataques de falsa bandeira atribuídos à Ucrânia. Tudo porque a Rússia construiu 10 bases secretas e que são capazes de atacar territórios da NATO. Putin já tem vindo a fazer algumas ameaças, pergunto para terminarmos e pedir-lhe uma resposta mais rápida. Agora, não se trata de uma ameaça velada do presidente russo, mas o perigo de uma escalada do conflito pode estar realmente aí à porta?
Segundo os polacos, que conhecem bem os russos, e também conheciam bem os nazis, segundo os polacos, isso é altamente provável que venha a acontecer. E, portanto, eu confio muito na Polônia e nos serviços de informações da Polônia. E, portanto, é preciso acautelar essa situação, não só por parte da Polônia, que já o fez, por parte de países, designadamente os países bálticos ou os países que fazem fronteira com a Rússia, mas também por parte da NATO, que certamente tem acautelada essa situação. Mas há duas dimensões na NATO: a dimensão militar de resposta e a dimensão política, que é sempre mais difícil entre os 32 países. É muito difícil depois fazer essa gestão política. Não é fácil. Agora, eu de Putin acredito em tudo, em todas as situações possíveis. Portanto, no âmbito de uma guerra híbrida, tudo isso é possível, tudo isso é equacionado, umas mais prováveis, outras menos prováveis, mas temos que acautelar em função da situação atual, que a situação é muito crítica, quer para a Ucrânia, quer para a Rússia, como saberemos mais tarde quando acabar esta guerra. A situação na Rússia, em termos económicos, em termos sociais, em termos políticos, não é propriamente a situação ideal ao fim de quatro anos e meio de guerra ou, se quisermos, ao fim de 12 anos de guerra.
E chegamos assim ao final do nosso tempo. Fica por aqui o Gabinete de Guerra, hoje com a análise do major general João Vieira Borges. Mais uma vez, agradeço-lhe por ter estado conosco esta tarde.
Muito obrigado.
O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã e fica disponível, como sempre, em podcast.
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