O 'supercomando' da PSP para investigar crimes em Lisboa

Se antes as várias divisões dos concelhos à volta de Lisboa “falavam línguas diferentes”, agora a prioridade é criar um “sistema completamente unido”: “A forma como, ao longo destes 23 anos da DIC, construímos a nossa forma de trabalhar vai ter de ser transposta para as outras estruturas, que não trabalhavam da mesma maneira.”
Rui Costa rejeita a ideia de que essa “diferente forma de trabalhar” fosse ainda “rudimentar”, preferindo focar-se na experiência da DIC de Lisboa: “A questão é que temos uma experiência de trabalhar na cidade de Lisboa que é diferente da experiência dos colegas que estavam nos outros locais. E essa experiência, esse know-how, levou-nos a construir uma panóplia enorme de formas de trabalhar.”
No terreno, a maioria dos operacionais continuará instalada nas esquadras locais, de Sintra a Loures — agora com uma linha direta de reporte ao novo comando. Mas o comandante da PSP sabe que a transição exigirá tempo. “Temos de trabalhar todos da mesma forma, e isto não se faz de um mês para o outro. Vamos demorar, porventura, dois ou três anos a ter todos os efetivos alinhados. Mas o objetivo é ter uma doutrina comum para que um roubo na Amadora seja tratado exatamente da mesma forma que um roubo em Lisboa”, afirma ao Observador.
“A esmagadora maioria dos crimes continua a ser praticada por portugueses”
A transformação aconteceu numa altura em que várias vozes políticas se têm juntado para falar num aumento da criminalidade e dizer que as ruas estão mais perigosas — de Carlos Moedas, na capital, a Pedro Duarte, no Porto. Mas o comandante Rui Costa contrapõe esta ideia, alinhando pela mesma bitola do atual ministro da Administração Interna (e ex-diretor da Polícia Judiciária), Luís Neves.
Moedas “alarmado por muitas situações” que comprometem segurança em Lisboa
Ainda no gabinete, Rui Costa levanta-se para ir à secretária procurar números. Abre um dossiê espesso, com centenas de folhas com gráficos e relatórios, e aponta para a folha com os dados da criminalidade que a PSP faz questão de agregar: “Em termos quantitativos e qualitativos, a área metropolitana tem os seus problemas. Mas há algo de que não se fala muito: cerca de 60% da criminalidade violenta e grave em toda a área de intervenção da PSP ocorre no concelho de Lisboa. Os outros 40% dividem-se por Amadora, Cascais, Oeiras, Sintra, Odivelas, Loures e por aí fora. Às vezes, temos a ideia de que a Amadora é o fim do mundo, mas a grande fatia é na capital.” Não deixa ainda de sublinhar: “Fazemos este trabalho analítico, não falamos à toa.”
E comparações com o passado? Diz que apenas um estudo científico rigoroso, que recuasse no mínimo 10 anos, podia permitir esse tipo de análise. “Como comandante, tento basear-me em evidências, em factos. Não se consegue fazer um trabalho científico credível relativamente à criminalidade se não andarmos no mínimo 10 anos para trás. Compararmos 2025, ou um mês de 2025 com um mês de 2026, em termos científicos, não nos diz nada.”
Recuando ao início dos anos 2000, lembra-se bem de quando chegou a Lisboa vindo das Caldas da Rainha, ainda como cadete da academia da PSP. O jovem — que hoje comanda a nova DIC da Grande Lisboa — confessa que o cenário na capital impressionava. “Via fenómenos na zona de Lisboa, principalmente na cidade de Lisboa, que hoje não vejo. Era horrível o que se passava no Casal Ventoso, no Martim Moniz, no Intendente, etc. Essa realidade, felizmente, hoje já não existe”, explica ao Observador, com uma ressalva: “Temos problemas — claro que temos problemas —, mas estamos atentos e com mais meios para os resolver”.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.