No fundo do rio Arade escondem-se dois mil anos de história

No fundo do estuário do rio Arade, que nasce na Serra do Caldeirão e desagua no Atlântico, junto a Portimão, escondem-se vestígios arqueológicos que remontam ao período romano. São indício de uma longa história de atividade marítima na região, com mais de dois mil anos, que se explica pela localização estratégica do Arade, uma ponte entre dois mundos muito diferentes, mas que sempre comunicaram entre si: o Mediterrâneo e o Atlântico. Embora os achados sejam conhecidos há várias décadas, nunca foram estudados aprofundadamente. Uma realidade que está prestes a ser alterada, com o arranque do projeto MUSA – Musealização dos achados arqueológicos do fundo do Arade. Financiado pelo programa Algarve 2030, que visa promover a economia algarvia através da valorização do território e da população, o projeto de 3,4 milhões de euros vai permitir monitorizar e estudar os vestígios dos navios naufragados de diferentes épocas que se encontram depositados no fundo do Arade. Além de campanhas arqueológicas e inspeções ao leito do rio, está também previsto o restauro de peças já recolhidas, expostas no Museu de Portimão, e das que venham a ser encontradas pelos arqueólogos.
A primeira fase do MUSA arrancou em setembro e ficará concluída este domingo, 4 de outubro. Esta quinta-feira, foram apresentados, no Museu de Portimão, os resultados preliminares desta primeira campanha, que consistiu numa avaliação do estado de conservação das várias áreas e locais que vão ser escavadas pelos arqueólogos. José Bettencourt, chefe de divisão do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática (CNANS) do Património Cultural, Instituto Público, explicou ao Observador que esta primeira etapa é essencial para “planear uma intervenção mais intensa”, que decorrerá no próximo ano. Essa fase, a da escavação propriamente dita, que se processa da mesma maneira na arqueologia subaquática e na arqueologia em terra, consistirá na “retirada controlada de sedimentos e de objetos, e das estruturas que encontramos num sítio arqueológico”.
“É como a cena de um crime”, explicou. “Na investigação criminal, antes de se tocar nas provas, é preciso documentar a sua origem e, depois, retirá-las de uma forma controlada, respeitando uma série de normas que permitem que sejam depois analisadas em laboratório para responder a várias perguntas. Fazemos a mesma coisa na arqueologia”, afirmou o arqueólogo, que comparou ainda o trabalho arqueológico à abertura de um livro, cujas páginas só se podem ler uma vez, “porque implica rasgá-las”. “Os sedimentos contam a história do sítio [arqueológico]. Depositaram-se de determinada maneira, em determinadas condições, e essas condições condicionam a forma como os objetos e as estruturas se relacionam, como estão preservadas, e, por isso, temos de documentar toda essa informação. É por isso que todo o trabalho é feito de forma controlada.”
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