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Wednesday, September 16, 2026

BC deve ir na contramão global e cortar Selic para 13,75% na última reunião antes das eleições

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O Copom (Comitê de Política Monetária) deve ir na contramão dos principais bancos centrais do mundo e cortar a taxa básica de juros (Selic) novamente em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano, na última reunião antes das eleições.

Essa é a aposta consensual do mercado financeiro, que vê espaço para o Banco Central continuar a flexibilização de juros graças a condições mais favoráveis na economia doméstica. Desde o encontro de agosto, os economistas passaram a ter maior convicção na desaceleração da atividade econômica e no avanço do processo de desinflação.

No ambiente internacional, a tendência é de alta de juros em resposta ao cenário mais adverso para a inflação com a guerra no Oriente Médio. As cotações do petróleo voltaram a ficar acima de US$ 100 com a intensificação do conflito.

Nesta quarta-feira (16), o Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos) deve elevar os juros para o intervalo de 3,75% a 4% –hoje, estão na faixa entre 3,5% e 3,75%. Também cresceram as apostas de que o Banco do Japão vai subir sua taxa de juros de referência de 1% para 1,25%. Na semana passada, o Banco Central Europeu elevou a taxa de depósito (taxa referencial) em 0,25 ponto percentual, para 2,5% ao ano.

Esse cenário de maior incerteza externa, contudo, não deve alterar os planos do colegiado do BC de cortar a Selic pela quinta vez seguida, dizem os economistas ouvidos pela Folha.

Folha Mercado

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Para Fabio Kanczuk, ex-diretor do Banco Central, o Copom está sendo guiado por uma crença muito forte de que os juros estão tão elevados a ponto de provocar uma contração muito grande da economia à frente. Na visão dele, essa é uma avaliação equivocada.

O economista defende que o colegiado não deveria seguir cortando a Selic se quisesse assegurar a convergência da inflação à meta –o alvo central é 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.

Apesar da divergência, ele dá como certa a queda da taxa básica nesta quarta. Segundo o ex-BC, isso evitaria ruídos no mercado durante o período eleitoral. O próximo encontro está marcado para os dias 3 e 4 de novembro, quando o resultado do pleito já será conhecido.

"O Banco Central gosta de não aparecer nas eleições. Ele quer não criar marola, quer que ninguém perceba que está acontecendo alguma coisa. Eu acho que é a decisão correta mesmo, você não participar do processo eleitoral, ficar escondido. No momento atual, ficar escondido é continuar cortando juros", afirma.

Kanczuk descarta surpresas no comunicado desta quarta e não espera que o Copom antecipe seus próximos passos, deixando a "porta aberta". Ele estima que a Selic seguirá caindo até o ano que vem, sem pausas. Uma nova crise fiscal, a depender das eleições, pode ser o gatilho para uma interrupção do ciclo de queda de juros, segundo ele.

Henrique Danyi, economista do Santander, considera que o BC parte de uma situação diferente na comparação global por ter mantido os juros em patamar restritivo por mais tempo que outros bancos centrais. Além disso, vê se materializar nos dados vetores que dão conforto para o colegiado continuar o ciclo de cortes da Selic, iniciado em março.

Ele cita a desaceleração da atividade econômica, a melhora na inflação corrente e a relativa estabilidade da taxa de câmbio. O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) desacelerou para 4,22% no acumulado de 12 meses até agosto, puxado pela queda da conta de luz sob impacto temporário do bônus de Itaipu.

O que segue como ponto de preocupação persistente, segundo o economista, é o comportamento das expectativas de inflação, distantes da meta no médio e longo prazos. Conforme os dados do último boletim Focus, as projeções dos analistas para o IPCA de 2027 e 2028 estão em 4,3% e 3,8%, respectivamente.

O BC tem o primeiro trimestre de 2028 como prazo na mira devido aos efeitos defasados da política de juros sobre a economia.

Para Danyi, nesse contexto de atividade mais fraca e de dólar na casa de R$ 5,15, seria mais adequado o Copom manter uma postura "dependente dos dados", ou seja, sem compromissos predefinidos para preservar uma flexibilidade adicional de atuação.

"Não tem por que antecipar uma parada ou um fim de ciclo no contexto atual. A nossa projeção é que o ciclo se encerraria por aqui [em 13,75% ao ano], só que as coisas estão evoluindo numa direção que é importante manter esse grau de flexibilidade", afirma.

A principal fonte de incerteza, de acordo com ele, é a trajetória do mercado de crédito e do mercado de trabalho. Como mostrou a Folha, a desaceleração do consumo e o aumento do endividamento das famílias castigam o setor do varejo mais do que o esperado. O economista também menciona os possíveis impactos do Super El Niño.

"Está ficando cada vez mais incerto se essa é a última reunião [de cortes] ou não. Realmente a gente vai ter que esperar os dados um pouco mais para ter certeza", diz.

Andrea Damico, economista-chefe e CEO da consultoria Buysidebrazil, já admite a possibilidade de revisar seu cenário depois da próxima decisão do Copom. Ela projeta que o colegiado do BC fará um derradeiro corte de 0,25 ponto percentual nesse encontro. No entanto, vê chance de o ciclo de queda de juros continuar em novembro.

"Estamos esperando esse próximo comunicado para eventualmente fazer uma calibragem. A gente está nesse momento vendo, sim, como bastante provável que sejam feitos novos cortes", diz.

Segundo ela, a desaceleração da atividade econômica e a descompressão da inflação subjacente –que mostra a tendência para os preços– seriam os principais fatores para a continuidade do ciclo de queda da Selic. Com relação às expectativas de inflação, disse não ter visto avanço entre uma reunião e outra, que "continua tão ruim quanto estava."

A economista ressalta que, no avanço de 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto) no segundo trimestre, na comparação com os três meses imediatamente anteriores, o consumo das famílias puxou o indicador para baixo. A taxa que mede as despesas com a compra de bens e serviços para uso próprio recuou 0,4% no segundo trimestre.

"O mercado de trabalho, por mais que esteja ainda bastante robusto, a gente já observa um ensaio de um movimento de reversão. Esse é um ponto também importante", acrescenta.

O comportamento da renda é um dos indícios de que o mercado de trabalho dá sinais de leve desaceleração, segundo os economistas. A taxa de desemprego do Brasil recuou para 5,3% no trimestre até julho –o menor patamar para esse intervalo na série histórica iniciada em 2012, conforme dados do IBGE.

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