Digitalização: o Brasil precisa de mais crédito, mas não de qualquer crédito
O Brasil passou décadas discutindo como ampliar o acesso ao crédito. Agora precisa começar uma conversa mais difícil: como impedir que acesso se transforme em excesso. As fintechs foram decisivas para abrir essa porta. Em dez anos, o volume de empréstimos concedidos pelas 44 empresas acompanhadas pela PwC Brasil e pela Associação Brasileira de Crédito Digital saltou de R$ 161 milhões para R$ 53,8 bilhões. Só em 2025, cresceu 51%.
Não há contradição automática entre esse avanço e os 83,5 milhões de brasileiros endividados registrados pelo Serasa. O país ainda empresta relativamente pouco. A relação entre crédito e PIB é de 55,9%, praticamente a mesma de uma década atrás e baixa quando comparada à de economias com renda semelhante. O problema, portanto, não é simplesmente a quantidade de crédito disponível. É a qualidade da expansão.
A digitalização mudou a porta de entrada do sistema financeiro, mas não resolveu a velha equação entre renda e dívida. Ao contrário, tornou o crédito mais rápido, acessível e conveniente. Para quem antes sequer conseguia um empréstimo, isso é inclusão. Para quem toma dinheiro sem capacidade de pagamento, a mesma facilidade pode apenas antecipar um problema.
É nesse ponto que os números das próprias fintechs merecem atenção. A inadimplência média de suas carteiras chegou a 10,1% em 2025, acima dos 9,5% do ano anterior e dos níveis registrados pelos bancos tradicionais. A participação dessas empresas nos registros de entrada e saída da inadimplência do Serasa também cresceu 129% entre 2019 e 2022. Elas já não são uma alternativa periférica ao sistema bancário. Tornaram-se parte relevante de sua engrenagem, inclusive do problema do endividamento.
A próxima fase do setor deveria ser menos obcecada por ampliar a base de clientes e mais preocupada em sofisticar a concessão. Há um equilíbrio delicado entre usar dados para incluir quem não tem histórico e usar modelos pouco precisos que acabam colocando crédito nas mãos erradas. Mais informação pode reduzir esse risco, mas tecnologia nenhuma elimina a realidade mais básica do mercado: uma dívida só é sustentável quando cabe na renda de quem a contrata.
As fintechs ajudaram a democratizar o crédito. Agora precisam ajudar a torná-lo mais responsável. O indicador de maturidade do setor não deveria ser quantos brasileiros ainda conseguem tomar dinheiro emprestado, mas quantos conseguem fazê-lo sem transformar o empréstimo de hoje no problema financeiro de amanhã.
*Edson Vasconcelos é CEO e fundador da ecomm|it
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