Presidenciais no Brasil. "Não há renovação política"
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As presidenciais brasileiras são a 4 de outubro e a eventual segunda volta a 25. Aos 80 anos, Lula da Silva é de novo candidato e tem agora como principal oponente o senador e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro. O pai está a cumprir 27 anos de prisão por tentativa de golpe. Ao todo, são 13 candidatos e segundo as sondagens, Lula e Flávio Bolsonaro estão em empate técnico numa eventual segunda volta, com vantagem para o atual presidente. Eu sou o Ricardo Conceição e comigo está a Judite França.
E é nosso convidado João Gabriel de Lima, jornalista, escritor, colaborador da Folha de São Paulo e investigador na área de Ciência Política. Bem-vindo, João Gabriel. Estas eleições são uma corrida a dois ou há um terceiro candidato que ainda pode causar algum dano?
Boa tarde, muito obrigado pelo convite. Não há nenhum indício que haja um terceiro candidato que possa alterar essa situação. Como a gente sabe, no Brasil, a gente tem um cenário parecido com o cenário europeu. Você tem uma esquerda, que é representada pelo Lula, você tem uma direita e você tem uma direita radical. A direita radical vem dominando o campo da direita. A direita tradicional tentou muito, com vários governadores de estado, colocar um candidato viável na disputa. Mas o candidato que foi escolhido, que é o Ronaldo Caiado, governador de Goiás, que é do PSD, que é o partido que representa a direita tradicional, não parece ter fôlego pra alcançar Flávio Bolsonaro. Ele teve apenas 4% na pesquisa de primeiro turno. A pesquisa de primeiro turno deu 38 pra Lula, 31 pra Flávio e somando os outros candidatos da direita, mais 10 pontos. Eles dão 10 pontos. O que garantiria a vitória de Flávio no segundo turno se toda a direita tradicional votasse no Flávio. Mas parece que nem todos irão votar em Flávio, porque, como foi dito, a pesquisa de segundo turno dá empate técnico, 43 a 40. Vai ser uma eleição emocionante.
João Gabriel, o que é que nos dizem este arranque de campanha eleitoral sobre as estratégias de Lula da Silva e Flávio Bolsonaro? Lula voltou a um estádio onde já foi feliz, podemos dizer, no final dos anos 70, e Flávio Bolsonaro esteve no Rio de Janeiro.
Cada um dos dois candidatos resolveu fazer o seu arranque, o seu início de campanha, em lugares que são muito tradicionais pra esses dois grupos políticos. O Estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, foi o lugar onde o Lula comandou a primeira grande greve de trabalhadores, que foi uma greve histórica, porque ela foi o momento que demonstrou a fraqueza da ditadura militar. Isso em 1979. A ditadura durou até 1985. E foi onde Lula começou a se estabelecer como líder, primeiro sindicalista e depois político, deputado federal, candidato à presidência e presidente da República. E no caso de Flávio Bolsonaro, ele esteve em Copacabana. O Rio de Janeiro é de onde vem a família Bolsonaro. Embora o Jair Bolsonaro tenha nascido no interior de São Paulo, a família Bolsonaro fez carreira política no Rio de Janeiro. Eles vivem no Rio de Janeiro e Copacabana é um bairro onde tradicionalmente se fazem essas manifestações. E os discursos dos dois candidatos, nessa abertura, eles foram, a meu ver, muito reveladores do que eles pretendem apresentar como suas forças e também das suas fragilidades, eu acho.
Então, por que, João?
No caso do Lula, as forças do Lula têm a ver com bom desempenho econômico nesse prazo de três anos e meio de governo. Teve um crescimento econômico no Brasil, 3% ao ano, que é um bom crescimento pro padrão brasileiro. O Brasil, quando cresce bem, cresce 3, 4% ao ano. E também uma queda do desemprego. O desemprego no Brasil está muito baixo, é um dos mais baixos da série histórica, 5 e pouco por cento. Essas são as forças de Lula da Silva. A fragilidade de Lula da Silva é que esse bom desempenho foi obtido à custa de muito gasto público, muito dinheiro foi colocado na economia, o que gerou uma disparada da dívida pública no Brasil e gerou também, um pouco como consequência disso, um juro altíssimo. Aqui na Europa a gente não pode imaginar um juro básico de 14% ao ano. Juro de 14% ao ano significa que um pequeno comércio, o Brasil é um país de pequenos comerciantes, de uma maneira geral, que queira rolar uma dívida, que queira melhorar o seu comércio, fazer uma reforma, vai pelo menos ter que pagar 20% de juros. Então essas são as fragilidades e Lula vai ser cobrado por isso na campanha eleitoral. No caso do Bolsonaro, o que me pareceu muito interessante, o Bolsonaro representa um pouco esse movimento internacional da direita radical e muitas das promessas dele tiveram a ver com ideias de outros governantes conhecidos da direita radical. Então, por exemplo, ele prometeu combater a criminalidade construindo muito mais presídios, é um projeto de fazer o Complexo Treva. Esse Complexo Treva, esses presídios são claramente inspirados no Nayib Bukele, de El Salvador, que é um dos líderes da direita radical mais conhecidos.
Perfeitamente.
Ele prometeu cortar o gasto público, que a gente viu que é um ponto fraco de Lula, usando o tesourão. Ele citou o tesourão, que seria algo parecido com a motosserra do Javier Milei, que esteve inclusive na convenção do partido dele no Brasil, eles cantaram juntos, tudo aquilo. E ele promete também Considerar os grupos de crime organizado no Brasil, organizações terroristas, e combatê-los como se combate organizações terroristas, que é uma bandeira de Donald Trump. Então essas são as forças que ele apresenta pro eleitorado dele. A fragilidade disso aí, e onde ele vai ser criticado, é pelo fato de que incorporando políticas ou ideias de Donald Trump, de alguma certa maneira, Lula pode usar isso como um atentado à soberania brasileira. O Brasil combate o crime organizado do seu jeito e não da maneira que Donald Trump quer. E Donald Trump também está colocando várias tarifas e sanções contra produtos brasileiros nos Estados Unidos, com apoio da família Bolsonaro. Então a fragilidade é que ele vai ser atacado do ponto de vista da soberania, enquanto o Lula vai ser atacado do ponto de vista da questão fiscal. É isso que eu vejo dos dois discursos iniciais.
João Gabriel, o que nos diz da política brasileira ter como os dois principais candidatos Lula da Silva e Flávio Bolsonaro?
A gente vê um pouco a política brasileira com uma falta de renovação, tanto à esquerda quanto à direita. À esquerda, essa vai ser a última eleição de Lula da Silva, porque constitucionalmente ele não pode concorrer a um terceiro mandato. Também ele vai ter 84 anos, daqui a quatro anos, se ele for eleito. E ficou muito claro que nenhum candidato da esquerda poderia ser competitivo nessa eleição contra um candidato forte de direita. Então vamos ter aí uma quarta tentativa e um possível, se ganhar, quarto mandato de Lula da Silva. Quer dizer, a renovação na esquerda foi jogada pra daqui a quatro anos. Há nomes bons na esquerda, um deles é apontado como sucessor de Lula, como Fernando Haddad, mas nenhum conseguiu aparecer ainda. Do lado da direita, foi mais dramático por causa dessa divisão da direita. A esquerda, de uma certa maneira, se uniu em torno de Lula da Silva e aceitou passivamente o fato de que não teria outro candidato. Na direita, não. A direita moderada tinha dois governadores muito populares, e ela estava construindo a candidatura desses dois governadores, o Tarcísio de Freitas, que é o governador do estado de São Paulo, e o Eduardo Leite, que é o governador do Rio Grande do Sul. Eduardo Leite muito bem avaliado, primeiro governador reeleito do Rio Grande do Sul, popularidade altíssima. E Tarcísio de Freitas, muito forte, até por ter uma interlocução com o bolsonarismo. Ele foi ministro de Jair Bolsonaro. Então havia uma grande articulação das direitas pra ter algum candidato da direita moderada. Mas quando isso estava prestes a se consumar, no final do ano passado, Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar, condenado por tentativa de golpe de Estado, considerou que caso a direita saísse da família Bolsonaro, a liderança da direita, isso seria ruim pra ele, porque ele pretende conseguir um indulto presidencial. E ele não confia que ninguém possa dar um indulto a ele, que não seja um filho dele, alguém da família dele. E ele praticamente impôs o nome de Flávio Bolsonaro como candidato. Lançou a candidatura do Flávio, surpreendendo a todos, e o Flávio também, um pouco surpreendentemente, galgou postos e surfando na popularidade do pai, que ainda é alta, chegou a esses 31 pontos. Trinta e um pontos contra quatro é muita coisa. Tanto o Tarcísio quanto o Eduardo Leite resolveram retirar suas candidaturas. Tarcísio vai concorrer à reeleição em São Paulo e Eduardo Leite vai esperar quatro anos. Quer dizer, a renovação da direita vai esperar quatro anos, assim como a esquerda.
João, e há algumas outras corridas eleitorais a que devemos estar atentos no Brasil, além das presidenciais, pra governadores?
Sim, eu acho que uma corrida que vai ser muito interessante de acompanhar no Brasil, vai ser a corrida em São Paulo, porque em São Paulo, os grupos da direita e da esquerda estão com candidatos muito fortes. Lula lançou em São Paulo Fernando Haddad, que ele próprio Lula diz que é o seu sucessor. É uma prova de fogo pra Fernando Haddad, porque a esquerda nunca venceu uma eleição no estado de São Paulo. E ele vai concorrer contra Tarcísio de Freitas, que é um candidato de uma direita mais moderada, mas é um candidato apoiado pelo bolsonarismo. O que se diz muito é que pra Lula, não é tão importante que Fernando Haddad vença, mas que se perder, perca por uma diferença pequena, porque São Paulo é o maior colégio eleitoral do Brasil. São Paulo é um estado que tem 44 milhões de pessoas, é a mesma população da Argentina, é como se fosse um país.
Exato.
E as outras corridas eleitorais importantes, são as corridas estaduais no Nordeste do Brasil, porque o Nordeste é o principal reduto eleitoral de Lula da Silva. É a região mais pobre, é a região que tem mais pessoas que dependem de programas sociais do governo Lula. E se Lula conseguir uma vantagem grande no Nordeste, ele tem grandes chances de passar. Lula aposta em ganhar com muita margem nos estados do Nordeste, muita margem eu digo algo como 70% dos votos ou mais. E perder de pouco no Sudeste e no Sul, que é onde a direita tem mais força, mas principalmente em São Paulo. Ele aposta muito num bom desempenho de Fernando Haddad, que no mínimo, dê uma diferença pequena e permita a ele, naquelas contas, na calculadora, chegar em primeiro lugar no segundo turno.
Muito obrigado, João Gabriel Lima. Obrigado mais uma vez pela tua ajuda e pela tua participação aqui na Rádio Observador, por nos ajudar a enquadrar esta corrida eleitoral no Brasil. Um abraço, João. Jornalista, escritor, colaborador da Folha de São Paulo e investigador na área da Ciência Política.
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