O que aprendi obituando dezenas de vítimas de Coronavírus
No começo da pandemia, um artista, Edson Pavoni, me procurou com uma proposta. Queria montar uma rede de jornalistas e escritores para obituar as vítimas de Covid, de forma que não se tornassem só mais um número.
Tentamos imaginar quantas pessoas morreriam. "40 mil, 50 mil?" Lembro de cogitarmos, certos de que nunca passaria disso —quanta inocência! Propus que fizéssemos questionários a serem preenchidos online pelas famílias das vítimas, de onde cada redator tiraria as informações para fazer o tributo, que depois subiria para o site.
O criador do projeto rechaçou a ideia: a coleta de informações tinha que ser por telefone. Uma conversa sem pressa com o familiar, uma troca que colaborasse de alguma forma com o processo de luto.
A missão parecia impossível, mas era também irrecusável. Eu e uma rede de voluntários, espalhados por todo o Brasil, começamos a ligar para as pessoas que se cadastravam no site pedindo pelo tributo.
Lembro de estar isolada em casa e me esconder da minha filha, na época uma criança, para falar ao telefone: ouvir as pessoas chorando também me fazia chorar. As conversas eram dilacerantes.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
Também era dilacerante deixar o telefone no fim do dia e ver as notícias. Ainda com as histórias das vítimas na cabeça, assistir ao ex-presidente dizendo que a Covid era só uma gripezinha. Vê-lo fazendo mímica com falta de ar, espalhando fake news sobre a eficácia da vacina, deixando na mão quem precisava desesperadamente de auxílio.
Se a vacina não chegava para a maioria, em certas comunidades, não chegava nem máscara, nem álcool em gel, nem sequer um aceno. Ou melhor, chegava: o aceno de que ninguém se importava com eles.
Uma indígena me contou que nem tentavam mais a saúde pública. Cientes do desmazelo, tratavam as vítimas com suas próprias medicinas.
Enquanto isso, eu e os voluntários seguíamos entrevistando os familiares das vítimas. Mães, pais, maridos, esposas, filhos, irmãs, irmãos, netos, enteados, primos; em longas ligações em que os enlutados descreviam a pessoa que perderam, choravam, lembravam de episódios ternos ou marcantes e, às vezes, se indignavam: ele ou ela não precisava ter ido embora tão cedo.
Ainda lembro de trechos de alguns tributos, e revivo aqui a memória de Agatha, de 25 anos, que sonhou com um cavalo branco vindo buscá-la alguns dias antes de sua morte; Aldevan Baniwa, que sabia enxergar os cogumelos luminescentes da floresta; Gabriel, que viveu só uma horinha fora da barriga de sua mãe, mas nesse tempo foi muito amado por ela; Alessandro, que sempre chegava em casa gritando "hello, family"; Mamy, da etnia gavião, que ensinava as meninas a flechar, cortar de machado e matar o próprio jabuti; Beraldina, que tomava banho, cantava e rezava de madrugada como um ritual de gratidão; Gardiman Júnior, que adorava gravar o canto dos pássaros; José, oficial da marinha que cantava serestas; Lindalva, que batia papo com todo mundo na rua.
Escrevendo esses e outros tributos, aprendi que não existe uma trajetória parecida com a outra e que cada vida é sempre bonita e singular à sua maneira. Que a vida nunca mais seja tratada com desprezo no Brasil. Para ler os tributos citados e outros na íntegra: inumeráveis.com.br.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.