Aos 54 anos, varejista gaúcha em recuperação judicial tem um plano para faturar R$ 20 milhões
RESUMO | A ferragem Thony, de Porto Alegre, entrou em recuperação judicial no início de 2026 com dívida superior a R$ 8,5 milhões, após alta das despesas financeiras e pressão sobre as margens. A varejista aposta em cortes de custos, marketplaces e inteligência artificial para faturar cerca de R$ 15 milhões neste ano e alcançar R$ 20 milhões em 2027.
Uma das ferragens mais tradicionais de Porto Alegre, capital gaúcha, a Thony entrou em recuperação judicial no início do ano após enfrentar uma escalada das despesas financeiras, pressão sobre as margens e uma dívida que supera 8,5 milhões de reais.
Agora, poucos meses depois, a varejista de 54 anos tenta deixar a crise para trás com um plano que mistura corte de custos, comércio eletrônico e inteligência artificial. A meta é chegar a 20 milhões de reais de faturamento em 2027.
Fundada em 1972, a Thony começou como uma loja de bairro na avenida Protásio Alves. Em 1975, foi comprada por Orlando Finatto e permaneceu nas mãos da família. Hoje, o negócio é comandado pelo filho, Ricardo Oliveira, arquiteto que entrou na empresa em 2005, depois de passar uma temporada em Londres.
A operação tem 30 funcionários, cerca de 15.000 produtos e deve faturar aproximadamente 15 milhões de reais neste ano.
A recuperação judicial colocou urgência em uma transformação que já estava em curso.
A empresa precisava reduzir desperdícios e rever processos ao mesmo tempo que buscava novas fontes de receita. Nesse processo, uma ferragem que passou décadas dependente do movimento de uma loja física em Porto Alegre começou a vender para todo o país. Marketplace, televendas, automação e inteligência artificial entraram no centro da estratégia.
"Do jeito que está, com escala de trabalho, novo comportamento do consumidor e todos os desafios, precisamos ficar mais enxutos e eficientes. Aquilo que meu pai fazia deu muito certo, mas chegou um determinado momento que começa a engasgar", diz Oliveira.
A expectativa agora é terminar 2026 perto dos 15 milhões de reais de faturamento e alcançar 20 milhões de reais em 2027.
A empresa também começou a estudar importações e produtos de marca própria como uma forma de proteger margem. Antes disso, porém, terá de executar o plano de recuperação e sustentar a operação enquanto paga as novas obrigações em dia.
Como a empresa entrou em recuperação judicial
Parte dos problemas começou antes da recuperação judicial. Em 2020, dois sócios que trabalhavam na empresa deixaram o negócio. A Thony precisou recorrer a empréstimos para comprar a participação deles.
Segundo Oliveira, uma dívida contratada em um momento de juros mais baixos ficou mais pesada conforme as taxas subiram.
Ao mesmo tempo, ele precisou assumir mais responsabilidades na operação. O pai havia sofrido um acidente, os antigos sócios deixaram de trabalhar na empresa e a pandemia trouxe novos problemas de logística e gestão de pessoas.
"Eu não tive transmissão de conhecimento. Meu pai teve um acidente, perdi os sócios, tomei muita porrada de recursos humanos, logística, e tudo isso com a pandemia rolando no meio", diz.
No pedido de recuperação judicial, a companhia também apontou uma alta de 384% nas despesas financeiras em três anos, além da pressão de custos, redução das margens, mudanças na dinâmica do setor e os efeitos das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. A dívida incluída no processo superava 8,5 milhões de reais.
Ao entrar em recuperação judicial, Oliveira diz ter adotado uma estratégia: preservar, sempre que possível, a relação com os fornecedores e concentrar a reestruturação principalmente nas dívidas financeiras.
Segundo ele, cerca de 80% dos fornecedores continuam vendendo para a Thony a prazo.
Qual a estrátegia de recuperação
Até poucos anos atrás, a Thony estava concentrada em Porto Alegre. Hoje, os marketplaces já representam 47% da receita da empresa. Mercado Livre e Shopee são os principais canais.
A expansão ganhou força depois da abertura de uma filial em Santa Catarina, em 2024. O espaço funciona como ponto de passagem das mercadorias para operações de fulfillment, modelo no qual o armazenamento, a separação e a entrega dos pedidos ficam a cargo da estrutura logística do marketplace.
Isso permitiu à ferragem vender para clientes de diferentes partes do Brasil sem replicar a estrutura da loja gaúcha. O modelo também mudou o tamanho do catálogo. Enquanto a unidade física trabalha com cerca de 15.000 produtos, a operação de marketplace está concentrada em aproximadamente 60 itens.
"Uma loja de bairro no extremo sul do Brasil ter a possibilidade de vender para o restante do país. Só com e-commerce", diz Oliveira.
A escala veio rápido. Segundo o empresário, depois de um início lento, o marketplace saiu praticamente do zero para cerca de 500.000 reais em vendas em um intervalo de seis meses.
A velocidade criou outro problema: dependência. Com o marketplace já respondendo por 47% da receita, Oliveira pretende estabelecer um limite de participação para cada canal. A ideia é que nenhum deles ultrapasse 45% das vendas.
IA para comprar parafuso e cortar despesas
A outra frente da reestruturação acontece longe do balcão.
Desde 2025, a Thony vem incorporando ferramentas de inteligência artificial à gestão. Em vez de concentrar o uso apenas na produção de textos e imagens, a empresa passou a empregar IA para decidir o que comprar, analisar estoque, acompanhar resultados financeiros e administrar campanhas de marketing.
Todos os domingos, por exemplo, Oliveira usa o Claude, ferramenta de inteligência artificial generativa da Anthropic, para cruzar a posição do estoque com a curva ABC, método que classifica os produtos de acordo com sua relevância para o negócio. O resultado é um plano de compras com prioridades para a semana.
Antes, o processo era feito em uma planilha de Excel e percorria os fornecedores um a um.
A IA também ajuda a definir quais produtos precisam ser contados nos inventários, analisar demonstrações financeiras e criar imagens para anúncios nos marketplaces. No marketing, Oliveira decidiu levar parte da gestão de mídia paga para dentro da empresa depois de questionar o retorno de uma agência.
Segundo ele, a empresa pagava cerca de 10.000 reais por mês à agência, além da verba destinada aos anúncios. Agora, afirma gastar 550 reais com uma ferramenta e estima uma economia mensal de aproximadamente 15.000 reais.
"Tem baixíssimo custo, tem uma facilidade enorme de aprendizado, tem muito conteúdo disponível. Fico assistindo aos vídeos no YouTube dos caras falando de Claude, e-commerce. Chego no escritório e já começo a testar", diz.
O uso da tecnologia coincide com uma melhora dos números operacionais. Segundo a empresa, em março de 2026 a Thony voltou a registrar caixa operacional positivo. Em maio, o e-commerce atingiu sua melhor margem do ano.
O próximo passo é vender produto próprio
A recuperação, porém, ainda está em andamento. A empresa terá de cumprir o plano negociado com os credores e lidar com um passivo construído ao longo dos últimos anos. Ao mesmo tempo, precisa evitar que a busca por crescimento volte a pressionar caixa e margem.
É nesse cenário que Oliveira começou a estudar uma nova frente: importação e marca própria.
Uma das primeiras categorias analisadas é a de válvulas hidráulicas produzidas na China. A lógica é comprar diretamente do fabricante e vender produtos com a própria marca, reduzindo intermediários e tentando preservar uma parcela maior da margem.
"Varejista vai ter que desenvolver cada vez mais a marca própria", afirma.
Por enquanto, o principal desafio é menos distante: fazer uma empresa de 54 anos crescer enquanto atravessa uma recuperação judicial. A Thony aposta que uma operação menor, mais digital e apoiada por dados pode levá-la aos 20 milhões de reais em 2027.
Por que a Thony entrou em recuperação judicial?
A Thony entrou em recuperação judicial após enfrentar o aumento do custo de empréstimos, pressão sobre as margens e mudanças no setor. No pedido, a varejista também apontou alta de 384% nas despesas financeiras em três anos e os efeitos das enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul.
Qual é o valor da dívida da Thony?
A dívida incluída na recuperação judicial da Thony supera R$ 8,5 milhões. Segundo Ricardo Oliveira, diretor da empresa, a reestruturação se concentrou principalmente nas dívidas financeiras, enquanto cerca de 80% dos fornecedores continuaram a vender a prazo.
Quanto a Thony pretende faturar em 2026 e 2027?
A Thony espera faturar aproximadamente R$ 15 milhões em 2026 e alcançar R$ 20 milhões em 2027. A operação possui 30 funcionários e cerca de 15 mil produtos na loja física.
Qual é a estratégia da Thony para superar a crise?
A estratégia da Thony combina redução de custos, expansão do comércio eletrônico, automação e uso de inteligência artificial. A varejista também estuda importações e produtos de marca própria para reduzir intermediários e proteger as margens.
Quanto os marketplaces representam nas vendas da Thony?
Os marketplaces representam 47% da receita da Thony, com Mercado Livre e Shopee como principais canais. Segundo Ricardo Oliveira, as vendas nesse segmento passaram de quase zero para cerca de R$ 500 mil em seis meses, mas a meta é evitar que qualquer canal supere 45% da receita.
Como a Thony usa inteligência artificial?
A Thony usa inteligência artificial para planejar compras, analisar estoques e resultados financeiros, selecionar produtos para inventários e criar anúncios. Ricardo Oliveira afirma que a substituição de parte do trabalho de uma agência por uma ferramenta de R$ 550 gera economia mensal estimada em cerca de R$ 15 mil.
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