Brasil: e agora?

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Acho que ele fez uma campanha que era evidente que se não fosse o enviesamento e a grande proteção que a imprensa internacional e a própria brasileira deu a Lula da Silva, era evidente que ele é um homem muito velho, muito agreste. Não tem nada a ver com a imagem do Lulinha Paz e Amor que nós conhecemos. Era um homem muito zangado, muito agreste, a dizer enormes incongruências e inconveniências, nomeadamente sobre o abuso sexual das meninas, sobre todo esse tipo de coisas. Lula sempre teve alguns gafes, mas tudo aquilo era muito enquadrado, não tinha nada a ver com isso. E eu procurei ver algumas coisas da campanha, dos dois principais candidatos, claro, e era evidente uma campanha de gente muito mais velha, a campanha do PT, mas com tudo isto, e depois falaremos disto no Contracorrente, não acho que o maior derrotado tenha sido Lula da Silva. Aliás, acho que esse é o grande problema. Qual é que teria sido o resultado do PT sem Lula da Silva? Eu acho que mesmo assim, Lula da Silva conseguiu dar ao PT um resultado, e vamos ver o que é a segunda volta, tem possibilidade, ainda pode ganhar. Achas que o PT sem o Lula é mais fraco? Fraquíssimo. Aliás, a procura de criar um novo candidato, que é o Haddad, teve um resultado absolutamente miserável. Portanto, não acho de modo algum que Lula da Silva tenha sido o grande derrotado. Acho, aliás, que sem ele o resultado do PT teria sido pior. Pode é perguntar-se e porque é que se chegou aqui e a responsabilidade que Lula tem no facto do PT estar neste momento sem candidatos. Mas não, não me parece que o Lula da Silva tenha sido o maior derrotado desta campanha. O PT é sem dúvida um grande derrotado, o Haddad um enorme derrotado, porque ele é aquele que era visto como o futuro, mas eu acho que isto é assim: os líderes passam nas democracias e o Brasil, com as suas dificuldades, mas é uma democracia, tudo passa e amanhã virão outros e agora estamos com uma onda de direita, depois teremos uma onda de esquerda. A grande questão é o problema do Poder Judiciário. E também acho que a forma como o Poder Judiciário se foi politizando e tomando decisões de caráter político, aliás, decisões muitas vezes dificilmente enquadráveis naquilo que é uma democracia, acabou a prejudicar muito a candidatura de Lula da Silva, que acabou a ficar muito colado, nomeadamente ao juiz Alexandre de Moraes e algumas decisões do Poder Judiciário, e isso é muito complicado, porque a exposição a que o Poder Judiciário chegou no Brasil e a sua intervenção política, é claro que neste momento se fala de passar a haver impeachment de juízes. Essa é uma ideia que não é de todo excluída pelo candidato Flávio Bolsonaro e, portanto, aquilo que nós temos aqui é, para mim, o maior derrotado é sem dúvida o Poder Judiciário, não apenas pelo sinal que as pessoas deram nas urnas, mas porque enfrentar um intervencionismo do Poder Judiciário é muitíssimo difícil e não é algo que se consiga fazer sem outros impactos no próprio funcionamento das instituições, muito negativo. Portanto, acho que tivemos aí. É claro que neste momento nós temos aqui um Flávio Bolsonaro que parte numa posição de vantagem para uma segunda volta. Eu acho que ele é um vencedor por duas razões, pelo resultado que teve. Até contra aquilo que também falaremos hoje aqui no programa, que é o enviesamento habitual das sondagens, mas porque ele conseguiu ir ao centro. Ou seja, nós estamos a falar de um candidato que, por contraste, foi criando uma imagem muito mais de centro. Mais moderada do que a do pai. Politicamente, isso não sei, mas muito mais moderada nos termos. Ou seja, por antítese, quer em relação ao Lula da Silva, que estava muito agreste, quer em relação a partes do setor que o apoiam, um candidato muito mais moderado. E depois, nós temos que perceber que havia um terceiro, uma terceira pessoa nesta campanha, que estava em casa, que não podia ser vista, que não podia falar, que não podia conversar com os filhos, que não podia sequer ver as redes sociais e que, portanto, tal como aqueles ícones que morrem jovens, isto para falar claramente de Jair Bolsonaro. Ou seja, ele, na minha opinião, acaba por ter uma intervenção na campanha, que é a intervenção do ausente. E, na minha opinião também, isso contribuiu, certamente que deu votos a Flávio Bolsonaro, ou consolidou os votos, mas não só. Alimentou muito esta acrimónia contra o Poder Judiciário. Portanto, agora nós vamos falar muito daquilo que vai ser esta segunda volta, com uma questão aqui. Flávio Bolsonaro, das declarações últimas que fez, terá deixado a entender que não pretende a reeleição, o que nos deve levar a perguntar se o senhor que se segue será Tarcísio, que teve um resultado espetacular em São Paulo, da mesma área política de Flávio Bolsonaro, o homem que para muitos deveria ter sido o candidato nestas eleições. E de alguma forma, vamos ver se Flávio Bolsonaro está ou não disponível para levar novamente a família Bolsonaro, no sentido literal do termo, ao poder e também pôr-lhe um fim, porque isso aí é que me parece muito mais difícil. Também tínhamos ouvido Lula dizer que não ia à reeleição e acabar por ir. Portanto, há muita coisa em jogo para lá da China, dos Estados Unidos, tudo isso. É fantástico. É fantástico. Então, depois das 10:00 vamos tentar responder pelo menos algumas dessas questões. Até já. Ligue 91 002 41 85 e dê-nos a sua opinião em direto no Contracorrente. 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