וואלהשגריר ארה"ב בדרום אפריקה: הגבלות הוויזה הן רק צעד ראשוןPunchFour killed in Lagos-Ibadan Expressway crashBollywood HungamaSHOCKING: Gurugram youth takes inspiration from Vikrant Massey’s Pritam And Pedro character to allegedly con student of Rs. 24.60 lakhsThe Jerusalem PostCar crashes into residential building in Hadera, driver lightly injured, ramming attempt ruled outInquirer‘Thinking Pinoy’ blogger named assistant secretary at Office of CabSecUOLJustiça condena rede de supermercados em Manaus por aplicar escala 9x1 e servir comida estragadaCNN TürkİŞKUR GENÇLİK PROGRAMI BAŞVURU 2026 | İŞKUR Gençlik Programı başvuruları başladı mı, ne zaman başlayacak?Sky TG24Resident Evil, 15 cose da sapere sul nuovo film. FOTORTL BoulevardViola Davis krijgt prijs bij San Diego Film FestivalIl Fatto Quotidiano“Quando sono rimasta incinta i media si concentravano sulla mia età anagrafica ma io mi sentivo 27 anni. Non ci credevano, peggio per loro. In pensione? E chi me la da? Finché c’è l’ispirazione…”: parla Gianna NanniniDeadlineDisney Seeking Next Big K-Pop Hit After Striking Ten-Project Deal With KakaoMintTukaram Mundhe's latest action plan on medical devices: MRP vs procurement prices revealed
The Daily Newsstand · Free, Always
Wednesday, September 16, 2026

A nova geração anda à deriva?

Translate

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Quando falo, descubro mais sobre me e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza que somos todos malucos. Olá a todos, sejam bem-vindos a mais um episódio do Somos Todos Malucos. Uma nova temporada, novos convidados, novas partilhas, mas já sabem, tem muitas conversas para assistir aqui no Spotify, no iTunes, no Castbox, no YouTube, se estão a ver isto com imagem. Há muitas conversas para explorarem. Já são três anos e tal de podcast, cento e tal conversas já aqui registadas e vamos continuando. Deixem também, se estão a ver no YouTube, aqueles clássicos, deixem o like, clica no sininho para partilhar com os amigos, para refletirem em conjunto, por que não? Ora bem, quanto ao convidado de hoje: o Paulo tem 19 anos, conheci-o no fim do meu espetáculo "Volto Já", que ainda está em cena, podem ir assistir. Mas este espetáculo foi em Lisboa. Falámos um pouco também sobre as questões de saúde mental, dado ao conhecimento, da importância de lidar com as emoções. Embora eu já tinha pensado neste tema, mas foi daí que nasceu esta ideia de convidar um jovem adulto e saber qual é a sua perspectiva do mundo, os seus medos, os anseios, as diferenças, se calhar, da minha geração para a geração do Paulo. E cá está o Paulo. Paulo Rodrigues, muito obrigado por teres vindo.

Obrigado eu.

Portanto, 19 aninhos, és uma criança.

É verdade.

Podias ser meu filho, Paulo. Sim, podia ser. À vontade, claramente. Ainda há pouco estava a perguntar que idade é que tinham os teus pais para perceber se são uma geração um bocadinho à frente da minha. Mas diz-me uma coisa: tu tens 19 anos, temos aqui um gap grande entre nós os dois. Qual é a tua primeira memória de infância?

Isso é sempre aquela pergunta um bocado difícil.

Sim.

Pelo menos em termos de desenhos animados, essas cenas, aquilo que eu me lembro mais e que eu ainda hoje se eu for rever, eu continuo a gostar daquilo, porque é aquela memória nostálgica. Eu via muito Cartoon Network, se calhar por causa das tuas filhas.

Sim.

"Regular Show", cenas tipo "Gumball".

O "Gumball", sim. O "Phineas". "Phineas and Ferb"?

Sim, também, da Disney. "Gravity Falls", cenas assim.

Só aí já temos uma diferença. Eu vi uma coisa que se chama "Darth tacão". Sabes o que é o "Darth tacão"?

Há aqui uma coisa engraçada, que é: eu ainda apanhei aquele fenómeno que é desses desenhos antigos a voltarem.

O revival.

Exato. Então eu ainda apanhei DVDs que os meus pais me compravam do "Darth tacão".

Tinhas um espetacular, que era o "Bocas".

Isso eu já não sei.

Paulo, eu vou ter que te mostrar. O "Bocas", e quem está a ouvir isto, quando eu disse "o Bocas", eu acredito que a maior parte da malta fez assim: "Eí, o Bocas!" O Bocas era um boi que tinha uma amiga, que se não me engano, se me recordo, era uma tartaruga, e estava sempre a fazer porcarias. Era muito engraçado. Era o Bocas.

O meu pai fala-me muito de um que eu também já não apanhei, que era um soldado qualquer coisa, que era um gajo que também estava sempre a-

Um soldado?

Soldado...

Mas o teu pai é mais velho do que ele. Se o teu pai tem 53.

Sim, mas acho que até tinha uma banda desenhada, uma coisa assim.

Eu sei o que tu estás a dizer. Sim, eu lembro-me disso em banda desenhada.

Pronto, mas também é daquelas que já não sei.

Não me lembro o nome, mas eu tenho na imagem de um soldado careca com um chapéu verde.

É isso.

Mas eu não me lembro o nome.

Mas também é daquelas que eu já não apanhei. Agora, eu ainda apanhei aquele revival dessas cenas antigas, tipo o "Darth tacão". O "Spider-Man" tinha ali uma versão dos anos 90, que depois também voltou aí nessa altura, que eu ainda apanhei, por causa dos meus pais também. "Noddy" também, isso aí não dá para fugir.

Mas não tens que te arrepender. Não tens que te arrepender de ter visto o "Noddy".

Não, eu agora arrependo-me é de ver a versão atual, que aquilo está muito diferente.

Mas isso é que é engraçado, é tu teres 19 anos e já veres as diferenças. Tu tens irmãos mais novos?

Não. Sou filho único.

Tens primos, putos? Ou seja, tu consegues ver hoje os desenhos animados de hoje em dia, já vês a diferença após a tua idade.

Sim, mas é uma diferença ainda gritante, que é tipo, o "Noddy" antigo, nós olhávamos para aquilo, àquela altura parecia que era muito bom, a maneira como o desenho estava feito. Hoje em dia eu vou ver, aquilo estava tudo lixado, em termos gráficos. E a versão atual, bué perfeitinha. E mesmo o "Ruca", que era um estilo bué arcaico de desenho, o atual não tem nada a ver.

É já tipo CGI.

Sim, já é muito mais avançado.

Sim, é digital, parece que não é desenhado à mão.

E essa diferença, mesmo malta da minha idade nota bastante.

Tu tiveste uma infância feliz? Achas que sim?

Eu quero acreditar que sim.

Sabes que a psicologia diz uma coisa, que é: à medida que nós vamos envelhecendo, a nossa infância vai parecendo cada vez mais que foi feliz. À medida que vais ganhando o distanciamento da infância e dos traumas da infância, vais tendo cada vez a ideia que tiveste uma infância espetacular. Portanto, eu aos 99 vou ter uma infância altamente.

Eu acho que tive uma infância feliz, muito rodeada dos meus avós, para além dos meus pais, que também faziam muito parte do meu dia a dia, porque eu fui daqueles putos que não foi logo pra creche. Ou seja, ainda estive nos avós e depois é que fui, não fui logo bem cedo.

Mas brincavas muito com amigos?

Eu passava muito tempo em casa. Se calhar também é uma diferença.

Porque eu vou te dizer, eu cresci nos anos 80 e 90, portanto, eu não tive telemóveis. Isso é muito aquela coisa que nós dizemos hoje, que eu não sei se é uma falsa ideia ou se é um estereótipo, que é: os putos estão todos agarrados ao telemóvel e que já não brincam uns com os outros. Eu passava muito tempo na rua. Eu brincava muito tempo na rua, a andar de bicicleta, a andar de skate, jogar à escondida, jogar à bola, isto tudo. Tu tinhas isto?

Eu acho que essa geração que se nota mesmo que está tudo agarrado ao telemóvel, eu sinto que já vem um bocadinho depois da minha, porque eu lembro-me que eu estava na escola, passava bué tempo a jogar à bola com os meus amigos. Agora, eu lembro-me depois, passado alguns anos, já se calhar quando eu estava no final do terceiro ciclo, aí nono ano, uma coisa assim, passávamos pelos corredores dos putos mais novos, quinto ano, e via-se mesmo muitos miúdos sentados no corredor em vez de estarem lá fora, só no telemóvel. E depois até houve ali uma altura que eu lembro que começou a ser proibido terem os telemóveis e estarem lá no corredor a jogar. Eu acho que continua a haver os dois tipos, que é a malta que vai lá para fora e a malta que fica no telemóvel.

Porque na realidade, se calhar os teus pais não se lembram, mas se calhar a malta da minha geração lembra-se. Eu lembro-me muito disto, que é: nós brincávamos muito. Eu também cresci na altura que começou a aparecer o Game Boy.

Pois, exato.

E a Game Gear, que era da Sega, e as maquinetas do Tetris, que tu ainda vês à venda nos chineses. Isso era um vício. Tu não estás bem a ver. Nós passávamos, às vezes, o intervalo todo agarrados àquilo. E se não estávamos a jogar, estávamos a ver alguém a jogar, a bater recordes.

É o equivalente aos telemóveis.

Se tu fores ver, de alguma maneira, acabava por ser a mesma coisa, embora eu diria que era mais controlado, porque era um objeto que tu usavas ali e colocavas de parte. E o telemóvel é uma coisa que agora está sempre presente.

Eu acredito é que se calhar também podia ser um pouco menos estimulante, porque agora os telemóveis têm mais a cena do TikTok, etc. Que isso aí não dá para comparar em termos de estimulação, se calhar com um Game Boy ou uma coisa assim. Mas eu acredito que a malta que na tua altura ficava agarrada ao Game Boy, é equiparável à malta que vive agarrada ao telemóvel nos intervalos hoje em dia.

Sim, isso é muito curioso. Estava-me a lembrar disso que estavas a dizer dos desenhos animados. É engraçado, porque as memórias que eu tenho da primeira PlayStation, por exemplo. A primeira PlayStation foi em 98, acho eu.

Eu ainda cheguei a jogar PSP.

Sim, a portátil.

Sim.

Já não me lembro quando é que foi a primeira PlayStation, mas eu lembro-me de vibrar com os jogos e ter memórias incríveis. Mas eu hoje vou ver os gráficos e digo: "Grande merda!"

Exato.

Como é que era possível eu achar que isto era real. É muito engraçado as memórias que tu crias em torno disso. Agora, tu achas, por exemplo, que hoje em dia, e eu acredito que tenhas amigos, és um puto social ou não?

Já fui menos, agora sou mais. Eu sinto que também quando entrei pra faculdade.

Tu estás a tirar Psicologia, não é?

Sim, vou passar agora para o terceiro ano. E eu sinto que a faculdade foi mesmo aquele shift. Dizer: "Ok, eu estou num ambiente novo", porque eu passei muito tempo na mesma escola.

Fizeste do quinto ao décimo segundo na mesma escola.

No caso, do sexto ao décimo segundo. Mas quando se está no mesmo ambiente, é um bocado aquela cena: "Vou ficar mais na minha zona de conforto". Não há tanto aquele impacto que é tudo malta nova. E eu sinto que quando entrei pra universidade, foi mesmo aquele shift: "Ok, isto é um ambiente diferente, por que não tentar explorar aqui?"

Sentiste-te ansiedade ou não?

Muita, sim. Mas sempre foi uma coisa que me acompanhou, a ansiedade. Sempre fui um miúdo muito nervoso com tudo. Isto é uma cena que eu vou dizer a parte, mas cada vez que eu ia levar vacinas ou uma cena assim, eu não conseguia, por exemplo, almoçar. Se aquilo fosse depois do almoço, eu não conseguia almoçar.

Achavas que te ias vomitar todo.

Eu nunca fui muito de vomitar, mas eu tinha ali uma cena que era: "Eu estou bué nervoso, não consigo sequer comer", naquela cena de antecipação. Que aquilo é a vacina, depois tu vais a ver e nem é grande coisa. Mas eu ficava de tal modo sobrevoado pela ansiedade. Sempre fui uma pessoa muito ansiosa. Mas eu sinto que também essa componente social que eu agora já com a universidade ganhei mais, acho que também acaba por ajudar nessa parte da ansiedade, porque tu ganhas outras coisas com que preocupar-se. Se tu tiveres menos pessoas à tua volta, vais ficar, pelo menos aquilo que eu sentia, ficava mais para dentro, tinha mais oportunidade para explorar os pensamentos mais ansiosos. E a partir do momento em que eu comecei a dar-me com mais pessoas, etc, acabas por não conseguir ir tanto por esse lado.

E acabas por exteriorizar também mais.

Sim, e tens outros estímulos à tua volta, outras pessoas com quem podes conectar.

Ou seja, foi porreiro.

Sim.

E tu, na tua infância E também, até antes da faculdade, o que era o teu dia a dia? Tu saías à noite, brincavas com os amigos, estavas com os amigos ou era muito casa, escola?

Eu sempre fui muito de escola, casa. Porque eu sempre fui muito também, não sei se tem a ver também com a questão da POC, porque eu também partilho essa tua luta, que eu também tenho POC. E eu, na altura, não sabia. E eu não sei se esteve também ligado a isso ou não, mas eu sempre fui muito obstinado com os estudos.

O medo de falhar.

Excelência é a única cena que existe em termos de notas. Para mim, abaixo disso, na altura, eu batia mal.

E como é que aprendeste a lidar com isso?

É um processo. Ainda hoje estou a aprender a lidar.

Pois, porque percebes que é uma ilusão.

Ya. É muito isso.

É uma ilusão e vou-te já dizer uma coisa. Não sei se os teus pais já te disseram alguma vez ou não, mas vou-te dizer que mesmo que fosses bom em tudo, não quer dizer que fosse servir de alguma coisa no teu futuro, porque tu não sabes para onde é que vai o teu futuro. É o que eu digo às minhas filhas: a escola é importante e claro que eu quero que tirem boas notas, mas que as boas notas sejam o resultado do seu esforço e do seu trabalho, não uma necessidade imperativa, não uma obrigação. Mas também a verdade é o facto que se tu estudares muito e trabalhares, também não te garanto que vais ter uma boa nota, porque depende de vários fatores. E a tua vida futura, tu não sabes que voltas é que a tua vida vai dar. Claro que tens que dar sempre o teu melhor, mas não sabes o que é que vai acontecer. Tu não sabes por onde é que vais.

Aprender a lidar com essa volatilidade daquilo que pode vir a acontecer, depois em termos de notas ou o que quer que seja, independentemente daquilo que eu estudo, é mesmo daquelas coisas que eu ainda hoje tenho assim um bocado de dificuldade.

Mas isto tem a ver também com a perturbação obsessivo-compulsiva, porque é muito a dúvida.

É o medo da dúvida.

E a incapacidade de controle. Mas sabes que a minha faculdade foi igual. Eu não me diverti nada na faculdade. Eu era casa, escola. E foi lá que eu conheci a Catarina, a minha mulher. E passávamos muito tempo também a estudar, mas eu não andava em tunas, nem em grupos de teatros, nem merdas nenhumas. Eu era: "Eu tenho que estudar". O meu objetivo era acabar. Eu tenho que acabar isto. E naquele tempo.

Eu sinto que eu passei mais por isso que tu estás a dizer até ali ao 12º, e incluindo o 12º. Agora com a faculdade, eu sinto que já estou a dar também, com a ajuda daquela parte social, que eu comecei a ter cada vez mais, a conhecer pessoas novas. Eu sinto que a faculdade está-me a ajudar um bocado a mudar aquele chip de: "Ok, isto não pode ser só estudar, dormir, comer". Não. Porque não tem graça se for assim, sequer.

Sim, e o que tu levas?

Exato.

O que tu levas?

Eu sinto que eu podia ter, depois um gajo fica naquela: "Eu já devia ter descoberto esta cena há mais cedo".

Gajas.

Não, mas, ou seja, descobrir este lado que dá para conjugar outras coisas para além de só estudar e casa. Porque eu sinto que podia ter feito, se calhar, muitas mais memórias e criado muitos mais momentos.

Sim, mas eu acho também não podes ter isso como ressentimento.

Ya, mas isso é daquelas coisas que é...

Eu sinto isso, por exemplo. Olha, o que a ansiedade, é uma coisa que eu já falei muitas vezes aqui. Eu não gosto de usar esta expressão, mas será a que melhor ilustra. O que a ansiedade e a perturbação obsessivo-compulsiva me tiraram na minha infância e adolescência, foi uma coisa que eu gostava muito, que era o desporto.

Ok.

Sempre gostei muito de desporto, mas o medo de falhar, o medo de não conseguir, de ser pior que os outros, isso tudo, fez com que eu nunca explorasse verdadeiramente o meu potencial. Eu sou um gajo alto, era bom a jogar vôlei, gostava imenso de jogar vôlei, era bom no basquete, sempre gostei de artes marciais. E eu hoje sinto-me a correr atrás do prejuízo. E muitas vezes tenho esse pensamento de: "Fogo, mas por que eu me deixei levar por isso?". Só que não vale a pena. Não vale a pena eu ter esse ressentimento, porque senão também não estou a aproveitar aquilo que estou a fazer agora. Isto há que ser pragmático. Eu já não vou conseguir voltar atrás. Portanto, eu tenho que aproveitar aquilo que eu estou a fazer agora. E acho que é um bocadinho isso, ainda por cima tu ainda és muito novo. Mesmo que tenhas esse ressentimento, é algo que tu tens que perceber que o importante é o que está pra frente, não é o que ficou pra trás. A tua questão da POC, não sei se podes partilhar ou não, é relacionada com o quê?

É de tudo um bocadinho.

E é desde puto?

Eu acredito que sim. Por exemplo, uma das coisas que mesmo os meus avós se lembram muito bem de quando eu era mais pequeno, eles comentavam muito: "Tu quando eras mais pequenino, o teu brincar com aqueles brinquedos, tu punhas aquilo tudo em filinhas e organizavas aquilo muito bem". E eles acham muita piada a isso. Só que eu depois ouço eles a falarem disso e penso assim: "Mas isto, se calhar, parece um bocado isto agora que eu estou a viver hoje em dia da POC".

Sim.

Então eu acho que provavelmente já tinha que haver ali sinais. Mesmo que eu não tenha notado, certeza que já estava lá.

Eu, por acaso, cenas de organização nunca tive muito. Ainda é muito medos de contaminação?

Por acaso isso é uma cena que eu acho que não me afeta muito.

Mas agora vai começar a afetar. Eu estou a brincar, malta. Já me aconteceu esta cena dos triggers, mas é raro. A minha são muitas cenas da contaminação, de quem é que tocou aqui, este talher não parece que esteja limpo, isso está sujo. Cenas de contaminação e muito mental também.

Eu tenho muito essa componente mental.

Ruminação mental de reviver situações.

Sim, estar a rever várias vezes.

Eu não sei se viste o podcast com o Gerinhas que eu tive aqui.

Vi. Esse também foi um dos que na altura me ajudou a perceber também isto que eu tinha. Porque a POC, a malta fala muito que é lavar as mãos muitas vezes.

É o estereótipo.

Exato. E eu olhava para isso quando ouvia falar de POC e ficava: "Ok, eu não tenho essa componente, eu tenho outras, mas só falam mais é desta. Então se calhar não é isso que eu tenho." Era uma das minhas dúvidas na altura: será que é mesmo isto ou não? Porque eu não me lembro qual é que era o nome da convidada que tu trouxeste ao Somos Todos Malucos, mas era uma senhora que também tinha POC. E que acho que falava muito também de uma cena com interruptores.

Sim, a Joana. Era a Joana.

É capaz. E essa foi uma altura que eu olhei para aquilo e fui assim: isto efetivamente não é só lavar as mãos e cenas de contaminação.

Sim.

Afinal, se calhar eu encaixo-me mais aqui.

Na realidade, quando as pessoas têm essa dúvida, aquilo que eu costumo dizer é que não interessa o pensamento, não interessa a mania, interessa é o processo.

Exato.

E o processo é sempre o mesmo, que é partir dessa pergunta mágica de merda, que é: e se? Que serve para isso ou para as minhas cenas. E se eu tocar aqui, e se alguém tocou aqui, está sujo, e se isto é sangue e eu tenho uma ferida, whatever. Ou e se eu tocar quatro vezes neste interruptor e se alguém morrer por eu não tocar quatro vezes no interruptor. Sei lá. Portanto, a premissa é sempre essa. E os mentais também. Aquilo que falávamos muito no Gerinhas, ainda me acontece, infelizmente, de querer voltar atrás quando vou conduzir por achar: e se bati em alguém e não reparei? Que é uma cena muito estúpida. É muito curioso, que é uma cena completamente idiota, que eu sei que não faz sentido, pelas provas todas que existem e ainda assim, um gajo tem muita dificuldade em aceitar.

Eu acho que as piores, pelo menos para mim, compulsões é mesmo as mentais. Porque são aquelas que é mais difícil, pelo menos que eu sinto, de sair. Porque às vezes também tenho coisas físicas do gênero, volta e meia estou eu a abrir e a fechar a porta muitas vezes. Dá a ideia que não é uma coisa que esteja sempre aqui.

Pois, porque aí é físico, é visual e tu consegues parar.

É exteriorizar.

Sim.

É lixado na mesma, mas acaba por não ser tão esgotante, eu acho. Mas quando é mental é mesmo daquelas que é tipo: "Ok, eu vou ficar aqui sentado meia hora só a pensar nisto e quando eu acabar, pronto, vou-me embora."

Tu fazes terapia, ou não?

Faço. Já desde o meu décimo ano, acho eu, não sei. Portanto, já há algum tempo.

E foi isso que te levou para psicologia também ou não?

Eu na altura, quando fui para a terapia, se calhar fui um bocado também empurrado pelos meus pais. Eles viam que eu demorava muito tempo a fazer certas coisas, que não era normal. Normal entre aspas. E eles pensaram assim: "Nós não estamos a conseguir ajudá-lo com isto." Eles não sabiam o que se passava. Eu também não sabia na altura o que era POC. Então eles pensaram assim: "Ok, vamos experimentar se ele quiser" e lá está. Eu não fui propriamente empurrado para ali. Porque eu também queria sair daquilo.

Sim.

Eles apresentaram essa oportunidade e eu comecei a terapia aí. Só que era numa ótica de, como eu também não sabia muito bem o que se estava a passar comigo, dessas ruminações, etc, eu acho que só comecei mesmo a tocar nos pontos certos dessas ruminações mais para frente.

É um processo de descoberta, na realidade.

Porque eu na altura sinto que as consultas, eu levava aquilo muito para a cena do: "Mas eu demoro bué a fazer isto" e depois a gente falava de estratégia de gestão de tempo, mas aquilo que eu precisava estava por baixo dessa camada toda.

Mudaste de psicólogo ou não?

Não, foi sempre a mesma. Os temas que eu trouxe e que eu trago é que mudaram.

Sim. Interessante.

É um processo que é longo. Eu mesmo agora estando a estudar psicologia, eu estimo-te aquela cena que é tipo, esse processo da psicoterapia muitas vezes não é um processo que dá para acabar, sequer.

Não, é quase um coach.

Sim, aquilo é uma coisa que te acompanha a vida.

É uma aprendizagem que tu estás a fazer.

No fundo, a malta precisa andar lá a vida toda porque há sempre coisas novas para explorar. Agora já não sei onde é que eu ia com isso.

Não, é isso que tu estás a dizer, é um processo contínuo. Essa descoberta. E é também, para quem nos está a ouvir, e ainda há pouco tempo partilhamos sobre isto, às vezes um gajo volta atrás e cai nos mesmos erros e nas mesmas ruminações e nas mesmas coisas e é aquele processo de bora lá outra vez. Olha, podia ser diabetes. Podia ser diabetes, podia ser outra coisa. Mas agora que temos o teu background, o que é mais difícil pra ti, pra um puto de 19 anos, um jovem de 19 anos, o que é mais difícil pra ti em nível profissional e pessoal? Neste mundo que nós estamos hoje em dia.

Ok. O inevitável é falar que agora, em termos de arranjar casa e essas incertezas todas que vêm com o tempo que nós estamos a viver agora, acabam por ser aquilo que eu acho que preocupa a maioria das pessoas da minha idade hoje. Mas eu sinto que ainda tenho que lidar com umas coisas antes.

Lidar umas coisas antes, o quê? Pessoais?

Sim, eu, por exemplo, agora mesmo em terapia, sinto que estou a descobrir coisas agora mesmo de mim próprio, que acabam por ocupar muito mais daquilo que é a minha cabeça do que propriamente essas coisas.

Do que o mundo em si.

Que ainda não é aquilo que eu tenho que lidar agora. Eu ainda tenho uma licenciatura e um mestrado pra fazer, pra acabar, e se for preciso ainda uma especialização onde quer que seja. Mas isso é uma pergunta um bocado complicada.

Mas, por exemplo, tu e os teus amigos e os teus colegas, vocês falam sobre o futuro?

Em que vertente?

Não sei, do que querem fazer, pra onde é que querem ir.

Eu acho que uma das inquietações também acaba por ser o que nós vamos fazer em termos mesmo profissionais.

Quando acabar o curso.

O que vamos seguir. Porque há muita malta, eu vou passar pro terceiro ano da licenciatura, e há muita malta ainda que não faz mesmo ideia do que é que vai pegar dali do curso e fazer com aquilo profissionalmente. Essa incerteza também acaba por ser assim um bocado...

Tu sentes que a tua geração anda um bocado à deriva?

Eu acho que não é uma coisa geracional. As circunstâncias à volta da geração, se calhar, são diferentes com o passar dos anos, mas eu acho que essa deriva é comum a todas as gerações.

Sim, ok.

A visão que eu tenho é que todas devem ter andado à deriva nesta altura. Por exemplo, tu quando eras da minha idade, se calhar, também andaste à deriva.

Sim, só que eu acho que havia outra perspectiva. Ainda há pouco estava a falar isso com um amigo meu que tem uma posição de chefia numa empresa e portanto trabalha com muita malta que está a sair da faculdade, e malta nova. E ele diz que aquilo que sente é que a malta nova é muito chapa ganha, chapa gasta. Ou seja, o dinheiro que ganha é pra fazer as cenas que quer fazer, tipo viajar, festas, estar com os amigos. E eu acho que nossa perspectiva, no meu tempo, da nossa geração, era uma perspectiva mais familiar.

Ok.

Estás a ver? Constituir família, ter uma casa. Era tudo mais certinho. É nesse sentido que eu estou a falar à deriva. Nós tínhamos sempre o objetivo de, embora pudesse haver essa deriva que estás a dizer da escola, sim, ok, o que eu vou fazer a seguir, mas havia sempre uma perspectiva de estabilidade. E eu acho que parece que essa estabilidade não existe.

Mas eu, por acaso, agora já percebo o que estás a dizer.

Sabes o que eu estou a dizer?

Sim. Mas eu acho que isso até é, na minha opinião, um bom avanço.

Sim, não estou a dizer que é mau.

Sim, mas essa visão da estabilidade acho que acaba por ser um bocado, se calhar, demasiado fechada.

Engraçado, sim.

Ok, se nós estamos aí no início e já sabemos que o objetivo é constituir família, ter uma casa e ter estabilidade no meu trabalho e pronto. Eu acho que, sendo da minha idade, se calhar tendo essa visão das coisas, ia ser um bocado do gênero: "Mas é só isto?" E eu acho que isso que tu estás a dizer que agora muda com a minha geração, acaba por ser algo que acho que até é enriquecedor.

Eu acho que sim. Esse meu amigo estava a dizer isso e eu não fiquei também com essa ideia que é necessariamente mau. Desde que tu mantenhas as tuas responsabilidades para com os outros, não sejas um baldas no trabalho, mas mantenhas as tuas responsabilidades, não tens que ter essa visão tão redutora, que eu também tento não ter. Eu acho que pior do que isso eram os nossos pais. Eu sou da família clássica e a malta da minha idade é muito daquele registro clássico de o homem trabalhava pra garantir o sustento, a mulher cuidava da família. E a preocupação era: arranja um trabalho, junta dinheirinho. Eu comecei a explorar outros sítios, que não o sítio onde eu vivia, eu cresci nos Olivais, em Lisboa, tipo aos 19 anos também, por aí, é que comecei a conhecer outros sítios, porque ia com os meus sogros, agora. Porque eles já tinham o hábito de ir almoçar ao fim de semana fora. Eu não, os meus pais não faziam nada dessa merda. Ou seja, era muito esta lógica de tudo certinho. Mas eu acho isso uma boa perspectiva, na realidade. Conhecer o mundo, viver as cenas. Que é algo que é importante tu fazeres.

Sim.

Tu disseste que não tens ainda bem a perspectiva também do que é que queres fazer. Mas eu acho que a instabilidade do mundo também origina que vocês pensem mais assim.

Sim.

Porque nós vivíamos num mundo onde era mais fácil saíres de casa, onde as coisas eram mais baratas. Portanto, eu acho que a instabilidade do mundo também leva a malta a ter essa perspectiva.

É possível. Agora uma pergunta.

Sim.

Na tua altura, vá, com a minha idade.

No século passado, sim.

Eu não me lembro, por exemplo, como é que era a situação geopolítica das coisas.

Se tu reparares, não a minha geração, mas dos nossos avós e malta que está na casa dos 80, 90 anos, viveu guerras como o caraças. Eu já nasci em 80, portanto não apanhei o 25 de abril, mas apanhei situações pesadas como o desastre de Chernobyl. Eu lembro-me dessa merda. Chernobyl, primeira invasão ao Iraque, que foi a primeira guerra mediatizada em 91, acho eu. A guerra na Jugoslávia. Apanhei a questão da troika, já mais recentemente.

Sim, isso eu já me lembro de ver nas notícias.

Ou seja, apanhámos algumas situações. As Torres Gémeas, a história das Torres Gémeas. Não sei se era o facto de nós não termos tanto essa noção, mas tu hoje tens muito a sensação de que parece que isto vai acabar.

Pois, exato.

Eu acho que é uma sensação que nós não tínhamos. Malta que está a ver o podcast, pensem nisto e digam nos comentários também, seja aqui no YouTube ou no Spotify. Eu acho que nós, no nosso tempo, não tínhamos esta ideia de finitude.

Mas porque é que tu achas que isso era assim?

Pois, não sei.

É muito estranho.

Não te consigo dizer. Eu acho que não sei se era por serem novidade, porque as guerras hoje, infelizmente, já não são novidade. Não é que naquele tempo eram novidade também, ou melhor, não eram novidade. Parece que é uma sensação que me dá é que a humanidade está farta, e parece que já está num extremo tal que já não há muito mais para além disto. Eu acho que é um bocadinho essa a ideia. Tanto a guerra do Iraque, os confrontos na Jugoslávia, eram guerras que tu as vivias com maior distanciamento. Eu acho que os media cada vez mais trouxeram essa proximidade e as redes sociais, isso tudo.

Se calhar também é isso, que se calhar a vocês na altura não dava essa sensação de finitude das coisas. Por nós agora, se for preciso-

Sim, é verdade, é capaz de ser isso

...se calhar abro o Insta e tenho lá a informação mais recente.

E além das fake news, de tudo e mais alguma coisa.

Sim. Se calhar é capaz de ser por aí.

Sim, é um bom ponto, tens razão. É capaz de ser isso também, que era, nós como não tínhamos as redes sociais, a informação que tu tinhas era nos telejornais. As guerras continuavam a ser distantes, longe, e tu desligavas das coisas.

Sim, e agora se for preciso teres broadcast 24/7 do que está a acontecer lá na Ucrânia.

Pois é. Vocês pensam nisso? Não, acho que vocês já nem pensam nisso, também. Já é tipo supernatural.

É sim.

Infelizmente.

Também, de acordo, por exemplo, o caso da Ucrânia já é uma coisa que já está a acontecer há, já nem sei quando é que aquilo começou.

Há três ou quatro anos.

Exato, também acho que é daquelas coisas que já nem se fala propriamente. Na altura era só notícias, era todos os telejornais com aquilo. E hoje já nem se fala propriamente daquilo que está a acontecer.

Banalizou-se, normalizou-se.

Sim. Mas eu acho que agora, por exemplo, a malta fala muito é da questão lá da Palestina com Israel.

Tu e os teus amigos discutem estes temas ou não?

Sim, por acaso, eu agora na faculdade, consegui encontrar um grupo, pelo menos há ali dois ou três que gostam muito de discutir estes temas. Eu também acho piada, mas aquilo que eu sinto é que eu muitas vezes acabo por não ter informação suficiente bem estruturada para estar a discutir esses temas. Não é que haja falta de informação, mas eu sinto que se também estivesse sempre enfiado a ver esse tipo de coisa, eu vou dar em maluco também.

Mas isso é uma questão interessante, porque no meu tempo ninguém falava, por exemplo, nós estamos aqui a falar do facto de tu ires ao psicólogo e de lidares com as tuas cenas, de uma maneira natural. No meu tempo ninguém falava disso. Eu nunca tive uma perturbação obsessivo-compulsiva, segundo os meus pais, eu era só esquisito. Era o esquisito, era o nojentinho, era o deixa dessas coisas.

Agora somos esquisitos e com pó.

Exato. Somos esquisitos específicos. Tu dizes que foram os teus pais que te levaram ao psicólogo, portanto de alguma maneira já é interessante haver essa abertura. Mas, por exemplo, saúde mental, vocês falam?

Eu com os meus pais.

Com os teus pais e com os familiares, com amigos. Não podes incluir os da faculdade, porque eles são nem psicologia.

Eu tenho essa que é do género. Isso é um tema que para nós é muito fácil de falar na faculdade, porque é a malta que está muito dentro do assunto da saúde mental Bastantes psicólogos.

Mas há uma coisa interessante: falam sobre as vossas emoções? Uma coisa é falar sobre as emoções dos outros.

Lá está. Eu sinto que, pelo menos no meu círculo, há muito essa abertura, pelo menos em questão de amigos da faculdade, etc. No caso dos meus pais, eu sinto que, por exemplo, mais a minha mãe do que o meu pai, são mais abertos nesse sentido, porque a minha mãe também começou a fazer psicoterapia ainda antes de mim. Portanto, como teve essa componente, eu acho que ela expandiu se calhar um bocado mais esses horizontes. Ou seja, já entra ali a tentar perceber esse tipo de coisas de outra maneira. Enquanto que o meu pai, por exemplo, sempre viveu também num ambiente onde não existia também, se calhar, a questão da saúde mental. O meu pai, por exemplo, não está tão dentro desses temas. Mas eu sinto que se calhar a geração dele já é onde começa a haver ali um pequeno ponto de viragem, que é tipo: "Ok, há aqui uma coisa que não era falada e que agora, se calhar, existe e afeta todos de certa forma."

Mas tu tens facilidade em falar com os teus amigos ou sentes que os teus amigos têm facilidade em falar sobre as emoções, em dizer: "Estou a ter um dia de merda, estou só a pensar em porcarias" ou "estou chateado com isto ou com aquilo"? Ou é algo que ainda é muito fechado?

Comparado, se calhar, com a geração dos meus pais ou mesmo a tua geração, eu acredito que seja algo de que eles falam mais abertamente.

Sim.

Eu, por exemplo, sempre conheci o meu pai como uma pessoa que é muito para dentro, em termos de emoções. E isso, se calhar, comparado com malta da minha idade, não tem nada a ver.

Sim.

E eu acho que é mesmo uma questão geracional. Se calhar, se eu for olhar para a altura do meu pai quando ele tinha a minha idade, é tipo: "Ok, se calhar ele tinha coisas mais importantes, entre aspas, que impactavam no dia a dia dele." Se calhar, seja mesmo em termos financeiros, etc., que se calhar como acabavam por ser mais impactantes no dia a dia, não se ia tanto à questão da saúde mental.

Quando há aquela malta que diz: "Os meus avós não tinham problemas de saúde mental." É mentira.

Exato, é isso. Eles tinham era outros problemas.

Só que as depressões estavam muitas vezes mascaradas.

Sim.

E não tratadas, porque estavam mascaradas numa questão de sobrevivência. Aliás, uma vez eu vi, e isso também vai levar aqui a outra questão, o Mike Billions da Prozis, que estavam a abordar lá no podcast dele, estavam a falar sobre depressão e ele veio com um chavão de que não existe depressão na África, porque em África estão a lutar pela sobrevivência. E eu: "Espera aí". PubMed, estudos sobre saúde mental em África, e acabei por descobrir que não é verdade, como é óbvio. Aliás, países de África têm uma grande incidência em depressão, suicídio e questões de ansiedade, exatamente pela luta pela sobrevivência. Ou seja, potencia estes estados. O problema: as pessoas não as tratam. Não as tratam porque estão a tentar sobreviver, mas isso não quer dizer que não-

Não quer dizer que não exista.

Não quer dizer que não estejam lá. E eu acho que essa é a grande diferença, é nós termos essa possibilidade de hoje em dia podermos falar das coisas. E isto leva-me a essa questão, que é: ao mesmo tempo que parece que nós hoje podemos falar mais sobre estes temas, tu nas redes sociais também vês um crescente, não sei se é crescente ou se é uma ideia só, de malta, sobretudo homens e mulheres, mas mais gajos, a vender a ideia do homem forte e de os numeiros da vida. Vender esta ideia do gajo forte, que o homem não chora, o homem tem é que garantir. Isto achas que tem mesmo influência no vosso círculo ou é algo que está muito estereotipado e não é bem assim?

Eu acho que não.

Daquilo que tu vês quando sais à noite, apesar de não saíres muito à noite, já sei. Mas quando estás com os teus amigos, o que tu percebes disto?

Eu acho que não há como isso não ter um impacto nas pessoas. Agora, lá está, pelo menos eu considero que malta um pouco mais nova que eu, acaba por ser ainda mais afetada por esse tipo de conteúdo. Porque nós só ganhamos mesmo aquela cena do pensamento crítico e ir ver as coisas a fundo, se calhar, mais à frente. E se calhar, adolescentes no auge dos seus 15 anos, se calhar vão consumir essa informação e vão ficar do género: "Não, se isto faz buéda sentido." E depois transformam um bocado ali a sua personalidade à volta disso. Eu não tenho dúvidas que isso é uma cena que acontece de certeza cada vez mais em malta dessa idade e mesmo, se calhar, até mais novos. E a cena é que é preocupante. Porque, por um lado, lá está, temos mais acesso à informação sobre saúde mental e essas coisas todas, mas depois temos esse crescente que parece que embate nessa...

É muito vender outra vez aquela ideia de responsabilizares, é muito vender a ideia de não olhar para dentro De procurar respostas cá fora e cá fora é no ter, no parecer, no ostentar e depois não se resolve nada lá dentro. E depois a gente sabe que isso não dá resultado.

Eu às vezes vejo coisas que eu até fico chocado, de clipes dessa malta. Quando eu tinha 13, 12 anos.

Estavas já a assistir quando tinhas-

Sim, eu apanhei aquela vaga toda do YouTube, eu consumia o Wuant, Dark Frame. Eu lembro-me de ver essa malta ir ao "Banheira das Vaidades". Eu quando vi esse crossover, fiquei tipo: "YouTubers que eu vejo com o Ramin, isso é muito fixe."

O Wuant e o Dark Frame, sim. É verdade.

Mas lá está.

Esses eram inócuos.

E hoje continuam a ser, eu acho. Eu lembro-me depois aparece também o No Meio, num formato completamente diferente daquilo que é hoje, que ele fazia, não sei se tens a noção, mas ele fazia partidas à malta na rua.

Sim.

Eu ainda via essas cenas e aquilo era muito engraçado. E eu quando vejo malta tipo ele, e até mesmo se calhar um Window, que mudam completamente a partir de uma certa altura o formato do conteúdo, etc., para isso, que nós estamos a falar aqui, fico tipo: "Isto chegas era tão fixe na altura."

Por que achas que isso aconteceu?

Eu acho que dá para capitalizar bastante hoje em dia desse tipo de conteúdo.

Não ia te perguntar se tu tens putos, conheces putos que consomem isto? Da tua família, sei lá.

Pessoas mesmo chegadas a mim, não. Mas eu tenho plena noção que de certeza que há muita malta, muitos putos que consomem isso. Aliás, se tu mandares alguém se calhar ir a uma escola básica, toda a gente sabe quem é que são essas pessoas que nós estamos a falar aqui.

E qual é o perigo disto? Do ponto de vista daquilo que tu, como jovem e jovem estudante de Psicologia.

Eu acho que é mesmo a questão de formar a personalidade à volta deste tipo de atitudes que os putos veem essa malta a ter na internet. Que a adolescência é aquela altura onde estamos todos a tentar descobrir quem é que nós somos. E eu acho que estar a formar o nosso caráter e a nossa maneira de ser à volta de uma maneira de pensar que parece que veio do tempo dos nossos avós, é assustador.

Sim.

Eu acho que é mais isso que é preocupante, porque eu hoje, falando com a malta da minha idade, não vejo muita gente, pelo menos dentro do meu círculo, que venere esses gajos.

Achas que é mais adolescência?

Eu quero acreditar que para a maior parte das pessoas seja uma fase.

Sim, que aquilo não fique. Que ganhem esse sentido crítico mais tarde.

Porque eu agora não me estou a lembrar de quem, mas eu acho que já conheci malta que numa certa altura acreditam nesses ideais. Mas depois quando crescem começam a pensar: "Se calhar isto aqui há um outro lado, se calhar o que eles estão a mostrar não é assim tão macho." E acabam por ir por outro caminho. Eu quero acreditar que a maioria das pessoas vá fazer isso daqui para frente.

Eu também quero acreditar que seja só isso, que seja uma fase, espero eu. O problema é que estão sempre a surgir putos novos. Eles vivem naquela faixa. Eles vivem talvez naquela faixa ali dos 12, 16 anos, os No Meio's da vida vivem na faixa desses putos. Esses crescem, mas vêm outros com essa idade. Portanto, eles estão sempre ali naquela frame.

Eu acho que uma cena que não se deve fazer é estupidificar a malta que segue esse tipo de influencers.

Porque isso vai criar revolta, não é?

Aí estás a fazer exatamente aquilo que eles sentem que são, que é tipo estupidificados e que têm que ser muito machões e que o mundo é muito mau e que nós temos que ser muito fortes. Nós ao estarmos a falar dessa malta, tu vês esse gajo, tu és um grande estúpido. Acho que nisso aí estás a alimentar aquilo que ele se calhar sente, porque a maioria da malta que segue esses ideais é às tantas: "Ok, eu sinto-me inseguro se calhar em relação a X coisa."

Ao sexo oposto, ou à escola.

Sim, e eles vão buscar esse tipo de conteúdo força.

Sim.

E se nós estamos a tratar essa malta, a tocar na ferida do "eu não sou muito confiante", a malta vai muito mais chegar-se a esses No Meio's, etc, que é para curar essa ferida.

Tu o que achas que é preciso fazer?

Eu acho que é preciso deixá-los crescer e esperar que alguma coisa mude. Eu lembro-me, na altura, quando eu estava no secundário, falar com a malta que acreditava nesses ideais.

Sim.

Eu até estava mesmo a perceber: "O mundo não é assim tão negro para tu teres que estar assim com essa capa toda, de mauzão."

Sim.

Pelo menos na altura eu achava mesmo fixe perceber: "Mas por que tu pensas assim com essa malta?" Quem é que te fez mal?

Exato.

Depois traz toda uma componente da cena do ódio com o sexo oposto, etc., e malta que diz: "O feminismo é mau e não sei o quê." Porque depois há essa componente que vem toda agarrada a isso.

Sim, mas isso é aquilo que eu estava a dizer, é tu colocares a responsabilidade em tudo aquilo que está fora de ti. E quando muitas vezes é só malta que não sabe lidar com as suas emoções, medos e frustrações. Já foi há muito tempo, mas eu lembro-me da minha adolescência e lembro-me que é muita merda que passa pela cabeça. E tu não saberes bem o que se está a passar.

Sim, sem dúvida.

Eu lembro-me de ser miúdo e só querer desaparecer. Não era desaparecer literalmente, mas o meu sonho era sair do país e ir para um sítio onde ninguém me conhecesse e viver uma vida sozinho.

Eu acho que a maioria dos adolescentes passa por isso. Pelo menos eu também sentia isso. Lá está, eu nunca fui aquele gajo que se dá com toda a gente. Eu senti isso muitas vezes. Agora, eu acho que não se pode estupidificar a malta que segue esse caminho, porque esse é um caminho muito fácil de ir quando tu te sentes assim.

Claro.

Nessa altura. Porque no fundo, é uma coisa a que tu te agarras para te sentires mais forte e mais confiante.

Sim.

Lá está, não é o melhor caminho.

É estares a tentar compreender-te e compreenderes o que estás a passar. O que os adultos costumam dizer em relação a vocês, malta nova, que vos irrita mais?

Eu não gosto nada daquela conversa de dizer que a minha geração era muito boa e que a tua, puto mais novo, é uma grande porcaria.

É redutor também.

O que soa para mim é que parece que tu, pessoa mais velha, já não te lembras como é que eras quando tinhas a minha idade e os problemas que tinhas. Então parece que a geração era muito diferente. Não. Eu quero acreditar que é tudo muito idêntico, só que lá está, há certas circunstâncias.

Mas os enquadramentos são outros.

Exatamente. Mas a génese está lá em todas as gerações. Os problemas, as preocupações, acho que é tudo muito dentro do mesmo.

Quando a malta se põe a falar: "Os putos agora só..." Ainda há pouco tempo estava um amigo meu a dizer: "Os putos lá no bairro vão lá para o jardim e só andam a fumar merdas e não sei mais o quê." E eu penso: "Mas no meu tempo era a mesma coisa." A gente fazia a mesma coisa, havia malta que fazia a mesma coisa, que se punha a fumar ganzas ou que ia beber, pegava numa garrafa e ia, juntava-se. Nós fazíamos porcaria.

A única diferença é que agora é um vape e na altura era só uma garrafa.

Sim, na altura era tabaco e agora é vape.

Sim.

Agora é erva, na altura era chamú, que era bem pior. Ou seja, tu também experimentavas coisas. Eu lembro das bebedeiras que apanhava quando era adolescente e que se calhar podia ter vivido situações de risco e não vivi por mera sorte. Por isso é que eu também desconfio muito quando a malta diz: "Não, no meu tempo não era assim." Eu vou lembrar da minha adolescência e penso: "A gente também fez muita porcaria." Eu acho que é isso, é só diferente. Mas tu achas que, por exemplo, os adultos, não sei se os teus pais ou malta mais velha, ou professores, por exemplo. Uma cena que me irritava quando eu era novo era tratarem-me como se eu fosse um puto, como se eu não tivesse opinião.

Sim, isso também acho que é algo que hoje há malta da minha geração que também sentiram, de certeza, ao longo do seu crescimento. E de certa forma também acho que é uma fase que depois acaba por nos dar força, que é do gênero: "Ok."

Mas tu sentes-te menosprezado nas tuas opiniões?

Hoje já não, mas se calhar quando era adolescente é sempre aquela cena: "O que é que tu sabes da vida? Tu no auge dos teus 15 anos." E é verdade, mas é do gênero. Eu no auge dos meus 15 anos também acabo por saber coisas que os meus pais, nos seus 50, não estão a par.

Eu acho que é tudo sabedoria.

Sim, e portanto acaba por ser muito redutora essa visão do: "O que é que tu sabes?" Eu acho que todas as idades podem trazer coisas diferentes à mesa. Lá está, e novas.

Eu concordo com isso. Por isso é que, às vezes, mesmo a minha filha mais nova, quando começa com grandes conversas e eu estou sem paciência para ouvir, eu faço um esforço, porque pode ser que ela diga alguma coisa de útil. Às vezes, grande parte das vezes não diz. Estou a brincar, coitadinha. Por acaso, às vezes, diz cenas que um gajo fica mesmo tipo: "Nha." Naquela inocência de criança, dá ali inputs engraçados. Mas sim, eu acho que é um bocadinho essa ideia. Mas vou-te já dizer uma coisa Que os teus pais estão a dizer coisas hoje em dia que tu, se algum dia fores pai, sobretudo, e que agora dizes assim: "Ya, ya." Se algum dia fores pai, vais dizer: "Eles tinham razão."

E é bom sinal que seja assim. Não, efetivamente, é bom sinal que seja assim.

Há muita coisa que a minha mãe dizia, aquele clássico: "Quando fores pai, vais ver." Este clássico era: "Quando tu fores pai, logo vais ver o que custa." Ou: "Quando os teus filhos começarem a dizer não sei o quê, é que tu vais perceber." E eu ficava: "Ya, ya, está bem." E eu hoje, às vezes, as minhas filhas dizem-me coisas ou eu passo por situações e eu lembro da minha rica mãezinha.

E também já dizes essa frase do: "Quando fores pai, vais ver."

Ainda não, porque ainda são novas, mas eu lembro muitas vezes disto com a Catarina, com a minha mulher, falando muitas vezes disso assim: "Lembro tantas vezes da minha mãe", sobretudo na adolescência. Porque a adolescência não é um período fácil. Tu foste um puto chato, tens noção disso ou não?

Eu acredito. Pelo menos os meus pais diziam que sim.

Mas é normal, é perfeitamente normal a adolescência.

Porque é aquela altura do encontrar aquilo que nós estamos a tentar encontrar, aquilo que nós somos.

Sim.

E isso gera tumulto, tanto cá dentro como para fora. Então é normal, os pais têm que levar com isso.

Sabes que tive aqui um psiquiatra, o Gustavo Jesus, que aborda uma questão física nisso.

Sim.

E neurológica, que é do desenvolvimento do córtex pré-frontal.

Sim.

Que não é feito à mesma velocidade das emoções e por isso é que sai tudo disparado feito à maluca e não são reguladas as emoções. Portanto, é mesmo uma coisa física, não é mania, não é um puto que está só a ser estúpido porque é estúpido. Não é, infelizmente, não consegue controlar. E todos os adolescentes vão passar por isso, ou quase todos. E eu, como tenho já duas na adolescência, penso muitas vezes assim: "O que eu terei feito?" E não me lembro. A merda que eu fiz e que não me lembro. Porque de certeza que fiz. Daquelas coisas muito do não mandas em mim, quer lá saber, e sair de casa à bruta, sair disparado e voltar às tantas.

E agora está a sentir que é tipo carma, a voltar.

Ya.

Está tudo a voltar.

Ya, e é gerir. Basicamente, é gerir. Aceitei as regras do jogo, na realidade. Qual é que é a tua maior esperança para os teus próximos 10 anos?

Isso também é daquelas perguntas profundas.

Sim.

Eu gostava de não estar a ver tanta confusão, se calhar, como vejo hoje na televisão cada vez que a ligo.

Sim.

E acho que isso acaba por ser um bocado a cena principal, mas eu não sei se tenho isso muito presente na minha cabeça, qual é que é a esperança.

Mas quando tu pensas no futuro, pensas no quê? Lá está, a malta de agora não pensa no futuro.

Quer é curtir o agora. Espero já estar formado, já estar com a escola toda feita. E se calhar que os preços das casas também não estejam tão altos como agora. E pronto.

E qual é o teu maior medo?

O meu maior medo. É se calhar ainda não estar mesmo fixe das cenas da POC, porque isso é uma coisa que é daquelas que é chateia, no dia a dia.

Mas se pensares bem, isso também é POC.

Pois é.

E se eu não me curo? Eu não penso na cura. Aliás, porque a POC, grande parte da especialidade diz que a POC não tem cura. Eu acho que é controlável, há alturas que são mais fortes do que outras, mas eu já tive mais esse medo: "E se eu nunca ficar bom?" E agora, whatever, não quer saber, é aprender a lidar. Mas sim, percebo-te.

É um processo, é ver o que acontece.

E com que idade é que esperas ganhar a tua independência? Eu vou te dizer. Sabes com que idade é que eu saí de casa?

Diz. Para mandar para o ar. 25?

23.

23, ok. Estava perto. Se tivesse dito o preço certo já dava direito a prémio.

Já. 23. Já ninguém sai de casa aos 23. Se tu tivesses essa possibilidade, não saías de casa aos 23?

Eu acho que ainda ia-

Já estivesses formado

...eu acho que ainda ia ser uma altura da minha vida que eu ia estar muito pouco maduro ainda.

A sério?

Eu acho que sim.

Por quê?

Não sei, eu mesmo, em termos de responsabilidades, de cenas de cuidar da casa, esse tipo de coisas, eu senti que ainda tenho muito para crescer.

Mas isso é porque és filho único.

É capaz, também é capaz. Mas muito por aí.

Achas que a malta é muito infantil? No sentido de independência, de ser proativo, de fazer as coisas, de desenrascar-se.

Depende muito. Se calhar, a malta da tua geração era mais desenrascada porque já estavam naquela de: "Ok, eu vou sair de casa mais cedo", se calhar, do que nós vamos.

Eu, aos 17, 18 anos, eu tinha uma casa no Alentejo, os meus pais faziam temporadas no Alentejo e eu ficava sozinho.

Ok.

A viver em casa. Era altamente, adorava.

Lá está, isso já é um bocadinho de independência que já te vai preparando para qualquer coisa. Se calhar a tua geração com a minha acaba por sair mais cedo de casa. Acaba por ter ganhar essa independência mais cedo, mesmo em termos de maturidade mental. Agora, eu acho que isso do ser infantil é um bocado uma coisa individual e não propriamente de uma geração. Mas quando é que eu vou ganhar a minha independência? Não sei. Vamos ver.

Isso é o que os teus pais dizem: "Quando é que vais ganhar a tua independência?" Sabes cozinhar?

Depende do que tu me pedires para cozinhar. Se for um bife com arroz, eu faço.

Claro.

Muito para além disso, não penses que já sei.

Tens que começar. É aí que tu começas a ganhar a tua independência na cozinha.

Se quiseres bife com massa, também sei fazer.

Há um pormenor que eu acho que pode ser interessante tu partilhares, porque tu tinhas essas questões todas da POC e sociais também, mas tu estás num projeto novo.

Sim.

Não sei se queres falar ou não.

Sim.

Que surgiu o convite que eu acredito que se calhar te tenha deixado ansioso na altura, ou não?

Bastante.

Então por que aceitaste?

Porque queria muito, também lá no fundo.

É engraçado, não deixa de ser engraçado essas coisas. Que projeto é esse?

Se eu puder dar aqui um background.

Claro.

Eu desde pequeno sempre gostei muito de música, muito influenciado também pelos meus pais. Eu quando era pequeno, nível de pré-escolar, estava a ouvir Iron Maiden, por influência do meu pai, e a cantar as músicas deles. Sempre foi uma cena que me acompanhou, sempre gostei muito de música mais antiga, mais para o rock, etc. E entretanto, há menos de um ano, tive a oportunidade de me juntar para tocar com um rapaz, toca guitarra, lá na minha zona, em Mafra. E criamos ali um projeto chamado Bucca.

Como?

Bucca.

Bucca?

Ya.

Quer dizer o quê?

Bucca significa cabeçada. E também é uma história muito gira, que é: ele tinha um anexo lá em casa, que era onde nós começamos a ensaiar. E aquilo tinha uma cena no teto, tipo um desnível. Então a gente cada vez que ia para lá para dentro, batíamos com as cabeças no teto. E eu pensei assim: "Não vou chamar a um projeto Cabeçada". Isso é feio.

Sim.

Então fui para o Pri Beran, pesquisar sinônimos de cabeçada. Bucca.

Olha, não conhecia.

Muito giro. E chamámos ao projeto Bucca. E agora já cresceu de uma cena a dois para banda.

Originais ou covers?

Eu quero acreditar que vamos conseguir elevar aquilo para originais, mas para já, como ainda é uma coisa muito inicial...

Já tocam em alguns sítios?

Sim, já fazemos bares. E até agora o feedback é muito positivo, porque pelo menos na minha zona e arredores, não há muita malta da nossa idade que, de repente, cria uma banda e vai tocar música que os nossos pais é que ouviam aquilo quando eram pequenos.

Sim, e teres malta nova a tocar Iron Maiden, Slayer também?

Slayer ainda não. Mas cenas tipo The Doors.

Sim, isso é giro.

A malta fica a olhar para aquilo e muito giro.

Tipo putos novos.

E foi uma coisa que também me ajudou muito na parte da ansiedade, etc. Porque eu, às vezes, quando era mais pequeno, eu sou vocalista da banda, punha-me a cantar em casa antes destas coisas todas e eu nem permitia aos meus pais que eles me ouvissem o mínimo que fosse daquilo que eu estava a cantar. Tal era o nível de vergonha. Houve uma altura que eu fui ter aulas de canto e eu até da minha professora, tinha vergonha de cantar para ela. Então é desse gênero. Quando tive a oportunidade de formar este projeto, eu pensei: "Ou é agora, ou não é".

Exato.

E hoje consigo interagir com a malta, é muito giro. Está a ser uma jornada fixe.

Têm página no Instagram?

Sim, é bucca.ofc, é isso. E no Facebook também, que a gente também tem que ir à geração dos nossos pais buscar fãs, não é?

Estão lá no Facebook.

Está lá, Bucca Música, chama-se assim. E é isso, é ver se um gajo dá para psicólogo ou para músico.

Ou as duas coisas.

Exatamente. Também pode dar para musicoterapia, que é uma coisa que existe.

Já cá tive. O Gustavo Gatino, musicoterapeuta.

Tenho que ir ver.

Mensagem final: gostavas de deixar alguma mensagem final para quem nos está a ver?

Sigam os Bucca. Não sei. Gostei muito de estar aqui contigo. Eu já te sigo há um bom tempo, já desde essas alturas da "Banheira das Vaidades". Eu sempre me perguntei se vocês estavam mesmo nus ou não.

Essa é a pergunta que toda a gente faz.

Exato.

Eu posso dizer que uma parte substancial estava.

Ok. Pronto.

Agora imagina as que quiseres.

Já responde parcialmente. Muito giro. Não pensas voltar?

Já encerrei esse capítulo na minha vida. Embora tenha muitas. Não sei.

Talvez um revival.

Exato.

Especial 10 anos de "Banheira das Vaidades".

Olha, quem sabe? Sim, boa ideia. Paulo, muito obrigado por teres vindo.

Obrigado eu.

Muito obrigado por esta conversa. Acho que foi divertida, foi diferente, acho que deu para pensarmos no nosso tempo, no tempo dos nossos filhos, da malta nova, de ficarmos com algumas ideias. Muito obrigado por estarem desse lado e já sabem, continuem a acompanhar o "Somos Todos Malucos" no YouTube, Spotify, iTunes. É um podcast muito ouvido no digital, ou seja, no Observador e nas plataformas de áudio. No YouTube tem geralmente poucas visualizações, mas no ranking dos podcasts eu acho que está para aí no número 70 ou 80 dos podcasts nacionais, e é para aí o primeiro ou segundo sobre a temática de saúde mental, o que é muito fixe. Muito obrigado por estarem desse lado e até para a semana. Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza que somos todos malucos.

View the original on Observador Desporto

KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.