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Saturday, October 31, 2026

O pensamento “MacGyver” que reforçou um Podcast Plus

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Nada é impossível. E, às vezes, é só mesmo preciso conseguir olhar para as coisas de forma diferente.

Não sei quantos dos que estão a ler esta newsletter se lembram do MacGyver. Espero que sejam ainda alguns. O MacGyver era o meu herói de infância. Numa altura em que só existiam dois canais de televisão, lembro-me de estar ansiosamente à espera dos finais de tarde de domingo para ver um novo episódio da série.

Ele era uma espécie de herói improvável. Um agente secreto enviado para várias partes do mundo para resolver situações complicadas, mas que tinha aversão a armas. A grande “arma” dele era um canivete suíço, que levava sempre no bolso. E, normalmente, conseguia safar-se das situações mais difíceis com engenhocas que inventava a partir do que tinha mais à mão. Podia ser uma pilha, um arame ou um cordel. Uma vez usou mesmo uma pastilha elástica para desativar uma bomba.

Para fazer o novo Podcast Plus do Observador, “As Sombras de Duarte Lima”, nós contámos com o nosso próprio MacGyver para sair de uma situação complicada.

O Carlos Diogo Santos, autor do podcast, tinha várias entrevistas gravadas em 2015 com muitas pessoas importantes para a história: o assassinato de Rosalina Ribeiro no Brasil, em dezembro de 2009. Rosalina era herdeira do milionário Lúcio Tomé Feteira e o único acusado pelo homicídio é o homem que se apresentava como advogado dela: Duarte Lima, um ex-político poderoso do PSD, entretanto caído em desgraça.

Os testemunhos registados na altura eram muito valiosos. Algumas das pessoas entrevistadas já faleceram entretanto. E as entrevistas nunca tinham sido publicadas em áudio (o Carlos usou-as para o livro que escreveu sobre este caso, “Rio Derradeiro”, em conjunto com Aurílio Nascimento, comissário da polícia brasileira que investigou o crime). Problema: foram gravadas num iPhone 4, um modelo muito antigo.

Havia um ponto positivo: os áudios ainda estavam intactos. Se ligássemos uns auriculares ao aparelho conseguíamos ouvi-los. Mas as boas notícias paravam por aí. O sistema operativo estava totalmente desatualizado, e quanto a isso já não havia nada a fazer. Era impossível reencaminhar os ficheiros por email. O telefone nem sequer permitia abrir outras aplicações. Por outras palavras, os ficheiros das entrevistas estavam selados numa espécie de “sarcófago digital” impossível de abrir.

Chegámos a contactar especialistas para tentar resolver o problema. Aparentemente, era possível tentar fazer um backup. Mas não era garantido, e havia um risco enorme: a possibilidade de se perder tudo.

Quando pensávamos que já não havia solução possível, um dos nossos “MacGyvers” (sim, temos mais do que um) entrou em cena. A Mariana Sousa Aguiar, uma das nossas sonoplastas, lembrou-se de uma ideia engenhosa (aqui vai entrar alguma linguagem técnica, desculpem): pegou num adaptador de linha, que habitualmente é usado nos “Quantum” (os aparelhos que os nossos repórteres usam para entrar em direto na Rádio Observador) e ligou-o à saída dos auscultadores do velhinho iPhone. Depois, teve de usar um conversor para que a entrada da ligação fosse compatível com um gravador. No final, funcionou mesmo: com essa engenhoca era possível ligar os dois aparelhos, reproduzir a entrevista no telefone antigo e registá-la no gravador. Os ficheiros estavam salvos.

Como esse processo tinha de ser feito em tempo real, e as entrevistas duravam várias horas, nos dias seguintes o Carlos foi avistado várias vezes na redação de auscultadores na cabeça e junto à engenhoca com o iPhone antigo ligado ao gravador. Entre essas conversas estavam os testemunhos de Rosemary Spínola e da fadista Maria Alcina, amigas de Rosalina Ribeiro, que pode ouvir logo no primeiro episódio do podcast. Mas também de Olímpia Feteira, filha do milionário Tomé Feteira, que chegou a disputar a herança com a vítima, e que pode ouvir no segundo episódio. (De recordar ainda que os assinantes standard e premium do Observador já têm acesso antecipado a todos os episódios).

As entrevistas resgatadas são apenas uma parte de todo o acervo documental que sustenta o novo Podcast Plus do Observador, “As Sombras de Duarte Lima”. Durante os últimos meses, o jornalista Carlos Diogo Santos — que investigou este crime desde o primeiro momento — voltou a mergulhar no caso: centenas de páginas do processo e de notícias da época, fotografias, áudios e vídeos. E até bilhetes com ameaças deixados à vítima pouco tempo antes de morrer.

Dezassete anos depois do crime, o julgamento de Duarte Lima, acusado do homicídio de Rosalina Ribeiro, está agendado para arrancar no Tribunal de Sintra na próxima semana, no dia 5 de novembro. Quem ouvir o novo Podcast Plus do Observador, narrado pelo ator João Reis e com banda sonora original de Filipe Raposo, vai ficar a saber tudo sobre este caso.

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