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Monday, November 2, 2026

Seinfeld, os fãs, "cansaço da política" e "o homem e a obra"

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Corre-se o risco de ceder a uma atitude intolerante, com afinidades ao “totalitarismo”, completa outra espectadora, ensanduíchada por duas filhas gémeas de 18 anos. Mafalda concorda com Herman José, que também constou da programação do festival e confessou à SIC Notícias ser “ferozmente democrático” e respeitador “de todas as opiniões”, numa entrevista que deu ao canal na sexta-feira. Como a mãe antes delas, as gémeas Maria Ana e Madalena são devoradoras de sitcoms e programas de comédia. Além de Seinfeld, já acabaram Friends, The Office, How I Met Your Mother (Foi Assim Que Aconteceu, na versão portuguesa) e Brooklyn 99.

As filas que se multiplicam nos vários acessos da MEO Arena vão aumentando em comprimento, sob o olhar vigilante de dois amigos de longa data, que contemplam a cena a alguns metros de distância. Ambos chamam-se Nuno e ambos seguram cervejas. “Recebemos a informação de que, durante o espetáculo, os bares iam estar todos fechados”, explicam — o que não se confirma, quando entram no recinto. O par costuma assistir a espectáculos juntos: “O último [solo de stand-up] que fomos ver foi o do Ricky Gervais”, explicam, demonstrando interesse pelo próximo espectáculo do humorista britânico, que vai acontecer naquele sítio no próximo dia 19 de março.

A proibição de usar telemóveis durante o evento não é totalmente estranha a um dos Nunos, que já foi impossibilitado de aceder ao seu smartphone durante um concerto da banda Placebo, sob pena de ser expulso. “Lá dava para entrar com o telemóvel, mas avisaram que, se alguém filmasse, ia para a rua“, explica. Ao contrário daquilo que acontece este domingo, e que se junta a um conjunto de procedimentos que retardam o andamento das filas, o concerto dos Placebo não disponibilizava bolsas Yondr — que são trancadas antes de se entrar no edifício e reabertas à saída. Sobre o confronto de opiniões a respeito do caso Israel vs. Palestina, o duo limita-se a dizer: “Eu também sou do Sporting e ele é do Benfica.”

Sandra, Ricardo e Alexandre também são frequentadores assíduos da MEO Arena. Nos últimos meses foram ver Robbie Williams e The Weeknd, e regressam ao recinto já na terça-feira para o concerto dos Duran Duran. Contudo, nunca viram um aparato como aquele que está montado neste domingo. As regras apertadas do evento atrasam o fluxo de espectadores, que além de terem de entregar os “telemóveis, smart watches, óculos inteligentes, câmaras ou quaisquer outros dispositivos de gravação”, devem submeter as suas malas a uma inspeção efetuada pelos seguranças no local. Ficam para trás as garrafas de água — com ou sem tampa — e há relatos de tubos de batom retidos, depois depositados pelos proprietários no bengaleiro.

O casal de 46 e 48 anos vem acompanhado pelo filho Alexandre, de 14, e leva os bilhetes impressos — uma advertência que constava na informação veiculada pelo MEO Commedia A La Carte Fest. “Deixámos os telemóveis em casa“, explicam, mas começam a sentir os efeitos de uma síndrome de abstinência. “Estamos muito habituados [aos aparelhos]”, diz Sandra, acrescentando que o filho “já meteu a mão à mala não sei quantas vezes”, num gesto reflexo. Sem possibilidade de ver as horas — o relógio de pulso é smart e também ficou em casa — “fui perguntar as horas agora ao segurança”, continua.

“Caríssimos” é a avaliação que a família faz dos preços para ingressar no espectáculo. Maria da Luz — já aqui referida — diz mesmo que “a cultura está caríssima, cada vez mais inacessível”. Os acessos ao espectáculo a solo de Seinfeld variam entre os 60 e 220 euros (sem incluir a comissão cobrada pelas bilheteiras online), valor que os dois amigos chamados Nuno consideram “um bocado puxado”, mas justificável — “tendo em conta que o Seinfeld só vem à Europa para fazer este espectáculo e nunca cá veio antes”. Débora e Diogo vão mais longe: “Não achei exorbitante, é mais ou menos aquilo que esperávamos”, admitem.

“Tem a versão física do bilhete?”, pergunta uma funcionária da arena a todos os grupos de espectadores que compõem as filas. A pergunta denuncia uma solução alternativa para quem se esqueceu de trazer um formato analógico dos ingressos — que, explica a funcionária, “convinha”, mas pode ser “resolvido com estes papéis”. Na mão traz uma resma de cartões quadrados, onde são inseridos os dados contidos nos bilhetes, depois de serem validados pelos assistentes de sala.

“Reviver o passado”

Ultrapassadas as várias etapas de inspeção de bilhetes, da mala e dos aparelhos eletrónicos, depositados numa bolsa que pode ser pendurada ao pescoço — finalmente é possível entrar no recinto, que oferece quase tantas diversões como a sessão de stand-up comedy agendada para esta noite. Atividades lúdicas organizadas por diferentes empresas, stands que vendem comida e bebida, e particularmente os cestos de pipocas, que abundam em qualquer direção que se olhe, tentam aqueles que circulam pelo longo corredor.

Uma assistente de sala explica que o espectáculo está francamente atrasado, uma vez que um grupo considerável de pessoas “continua lá fora”, esperando terminar os trabalhos hercúleos que são necessários para entrar. O seu relógio de ponteiros indica 21h45 — o evento começava às 21h — quando as luzes apagam e o Theme of New York, New York, de Frank Sinatra, dá lugar ao silêncio. A sala está longe de ter a lotação completa e o balcão dois continua vazio, à medida que as pessoas que compraram os respetivos bilhetes são reencaminhadas para o balcão imediatamente abaixo.

No seu ritmo frenético, Ryan Hamilton foi o primeiro em palco, antes da quase hora e meia de material de Seinfeld que os espectadores de sábado — quando Jerry Seinfeld and His Best Friends se estreou no Coliseu dos Recreios — já tinham ouvido. Para gáudio geral, a maioria do público de domingo não é repetente, e abandona a MEO Arena com um sorriso entre os lábios e uma sensação de missão cumprida. Para Sânia, a noite deste domingo “foi uma experiência sem idade“, importante porque foi acompanhada pelo filho, Gonçalo, mas também pela “nostalgia” e saudade que deixou. “Pude reviver o passado”, diz a mãe sobre uma experiência que o jovem rotula como “diferente”. “Nunca tinha experimentado ver stand-up ao vivo, foi uma boa primeira vez, com um comediante de que gosto.”

Os portugueses estão em maioria entre o público, mas não são os únicos. Miguel e Anette vieram de Madrid de propósito para estar neste sítio. “O meu marido viu que ia acontecer e disse: temos de ir, dê por onde der”, recorda a espectadora de origem alemã. “Foi bom, o Seinfeld falou sobre a vida quotidiana, o casamento, os filhos.” Perante temas tão inofensivos e a satisfação generalizada entre os espectadores, não houve espaço para afirmações políticas, apenas para recordar os tempos em que “aquele senhor” não estava na MEO Arena, mas sim na televisão.

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