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Wednesday, October 14, 2026

Do TikTok ao Congresso: conheça o movimento que impulsionou o fim da escala 6x1 no Brasil

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Um celular, um vídeo publicado no TikTok e a indignação de um trabalhador que tinha apenas um dia de descanso por semana. Foi assim que começou, em setembro de 2023, o movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que ganhou projeção nacional ao defender o fim da escala 6x1 (modelo em que o funcionário trabalha seis dias e descansa apenas um).

Por trás da mobilização está Rick Azevedo, ex-balconista de farmácia que, aos 30 anos, decidiu compartilhar nas redes sociais a insatisfação com a própria rotina de trabalho. O que deveria ser apenas um desabafo acabou mobilizando milhares de brasileiros que enfrentavam condições semelhantes.

“A minha revolta com a escala 6x1 era para ser apenas um desabafo na rede social, mas tomou uma proporção surreal. Hoje tenho uma missão: defender por mais vida além do trabalho”, afirma Azevedo, fundador do movimento VAT.

A repercussão ultrapassou as redes sociais, ganhou as ruas e chegou ao Congresso Nacional, onde a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) passou a defender uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para reduzir a jornada de trabalho.

Embora a discussão sobre a redução da jornada não seja algo novo no Brasil, o movimento criado por Azevedo deu novo impulso ao debate, especialmente entre trabalhadores do comércio e de serviços.

Tudo começou com um vídeo no TikTok

Nascido no Tocantins e morador do Rio de Janeiro há mais de uma década, Rick Azevedo trabalhava como balconista de farmácia quando decidiu compartilhar sua indignação com a escala 6x1.

Na época, conciliava o emprego com a produção de conteúdo no TikTok, onde costumava comentar notícias e acontecimentos do universo pop.

Até que, em 13 de setembro de 2023, resolveu falar sobre um assunto diferente: a própria rotina de trabalho. Segundo Azevedo, a insatisfação aumentou depois que recebeu uma ligação da coordenadora da farmácia pedindo que antecipasse seu horário de entrada no expediente seguinte.

“Era o único dia que eu tinha de descanso em uma semana. Era o único dia em que eu poderia marcar um médico, arrumar a casa ou ir à praia. Eu já estava inconformado com essa escala desumana de 6x1”, relembra.

O pedido para entrar mais cedo no trabalho significava perder também parte do período de descanso que teria na manhã seguinte.

“Costumava entrar às 14h30, ou seja, contava com o descanso da manhã seguinte, que me foi tirado também”, afirma.

Azevedo publicou o vídeo e seguiu para o trabalho. Como mantinha o celular desligado durante o expediente, só descobriu a dimensão da repercussão quando voltou a acessar as redes sociais.

“Vi notificações por todo o lado. Muita gente repercutindo e dizendo que a escala 6x1 é um absurdo, inclusive muitos advogados.”

A reação mostrou que a insatisfação não era individual. Trabalhadores de diferentes regiões do país passaram a compartilhar experiências semelhantes, relatando dificuldades para conciliar a vida profissional com compromissos pessoais, familiares e de saúde.

Veja aqui o vídeo de desabafo no Tik Tok que impulsionou a causa do fim da escala 6x1.

https://www.tiktok.com/@rickazzevedo/video/7278273865241988358

Como nasceu o movimento Vida Além do Trabalho?

A repercussão do vídeo levou Azevedo a organizar os primeiros grupos de apoiadores no WhatsApp.

A ideia inicial era reunir pessoas interessadas em discutir alternativas à escala 6x1 e transformar a indignação das redes sociais em ações concretas.

Em menos de uma semana, o primeiro grupo atingiu sua capacidade de aproximadamente 2 mil participantes.

“Foi aí que decidi fazer grupos por estado, para articular ações com pessoas de cada região”, afirma.

O nome Vida Além do Trabalho (VAT) surgiu a partir das sugestões dos próprios participantes.

“A mensagem que eu quero passar é que as pessoas precisam viver além do trabalho, e o nome chegou para identificar a causa.”

Com o movimento estruturado, Azevedo procurou orientação jurídica para entender como poderia transformar a reivindicação em uma proposta capaz de chegar às autoridades.

“Cheguei no meu amigo que é advogado e disse: precisamos retirar a escala 6x1 da CLT. Como posso notificar as autoridades?”

Foi então que João Victor Félix, advogado que passou a integrar a equipe jurídica do movimento, sugeriu a criação de um abaixo-assinado.

A resposta foi rápida. Na primeira semana, a petição reuniu cerca de 50 mil assinaturas. Em janeiro de 2024, já ultrapassava 550 mil apoiadores e, posteriormente, chegou à marca de 1,3 milhão de assinaturas, segundo os números apresentados pelo movimento à época.

“Pensei que conseguiria umas 100 mil assinaturas, mas novamente a proporção foi muito maior e isso mostra que realmente há muitas pessoas sofrendo com esse regime.”

Das redes sociais às ruas e ao Congresso

O crescimento do movimento também trouxe mudanças para a vida profissional de seu fundador.

Com a repercussão das manifestações e o apoio de figuras políticas, como o deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ), Azevedo afirma que passou a enfrentar pressões no ambiente de trabalho.

Fora da farmácia, passou a dedicar mais tempo à mobilização.

Além das campanhas digitais, o VAT começou a organizar ações de panfletagem em regiões de grande circulação de trabalhadores, como a Praça da Sé, em São Paulo, e a Central do Brasil, no Rio de Janeiro.

O movimento também passou por universidades, entre elas a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Universidade Federal do Ceará (UFC).

A mobilização encontrou apoio político na deputada federal Erika Hilton, que levou a discussão sobre a redução da jornada de trabalho à Câmara dos Deputados por meio de uma proposta de alteração constitucional.

A iniciativa passou a defender uma jornada de quatro dias de trabalho e três de descanso, em substituição ao modelo tradicional de seis dias trabalhados para um de folga.

Para Azevedo, a mudança não representa uma tentativa de diminuir a importância do trabalho, mas de permitir que os profissionais tenham mais tempo para viver.

“Não é que a gente não quer trabalhar, a gente só quer ter uma vida além do trabalho.”

A trajetória de Rick Azevedo ganhou novos capítulos desde que publicou, em 2023, o vídeo no TikTok, levando o ex-balconista de farmácia à carreira política.

Em 2024, ele foi eleito vereador do Rio de Janeiro pelo PSOL, com quase 30 mil votos. Dois anos depois, em 2026, conquistou uma vaga na Câmara dos Deputados, com 191.371 votos, tornando-se o segundo candidato mais votado do estado. Em 2027, um novo desafio: Rick assumirá o mandato de deputado federal em 1º de fevereiro de 2027, levando ao Congresso Nacional a pauta que começou com um desabafo nas redes sociais.

O fim da escala 6x1 é viável para as empresas?

A proposta também abriu uma discussão sobre os impactos econômicos de uma eventual redução da jornada.

De um lado, defensores da mudança argumentam que períodos maiores de descanso podem melhorar a saúde mental, a satisfação e a produtividade dos funcionários.

Do outro, representantes empresariais demonstram preocupação com o aumento dos custos operacionais, especialmente em setores que precisam funcionar durante todos os dias da semana, como comércio, farmácias, supermercados e serviços.

Para Roberta Rosenburg, CEO e cofundadora da consultoria F.Lead, uma transição para a escala 5x2, com cinco dias de trabalho e dois de descanso, seria uma alternativa mais viável no curto prazo.

“Felizmente, hoje, falamos muito sobre sanidade mental no trabalho, uma escala 5x2 seria a melhor opção e mais fácil de ser absorvida, do que a escala 4x3, por exemplo”, afirma.

Já Roberto Mateus Ordine, então presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), argumentou que uma redução mais acentuada da jornada poderia elevar os custos das empresas brasileiras.

"Evidentemente que, para um futuro, o número de horas trabalhadas será menor, mas essa proposta atual para o nosso sistema ainda é muito difícil. Por isso acredito que no momento esse tipo de proposta poderia ser usada para um estudo e não em um movimento", afirma Ordine.

O advogado trabalhista Rodrigo Chagas Soares, sócio do escritório Granadeiro Guimarães Advogados, também aponta que empresas poderiam precisar contratar mais funcionários para manter suas operações, o que elevaria as despesas com pessoal.

O impacto, porém, dependeria do formato da redução da jornada, da produtividade e das características de cada setor.

Para Andrea Deis, especialista em carreira e neurociência, essas mobilizações têm em comum o questionamento de modelos tradicionais de trabalho.

“O impacto da pandemia trouxe a reorganização e o reposicionamento de valores individuais e sociais no mercado de trabalho, afinal mostrou a fragilidade da vida e trouxe para muitos a reflexão e a necessidade de ter mais tempo para viver, além de trabalhar”, afirma.

Como está a votação para o fim da escala de trabalho 6x1?

A proposta que prevê o fim da escala 6x1 pode ser votada nos dois turnos pelo Senado nesta quarta-feira, 14. A PEC 221/2019 reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, estabelece dois dias de descanso por semana e proíbe a redução salarial.

A mudança seria gradual, com a jornada de 42 horas entrando em vigor dois meses após a publicação da emenda e o limite de 40 horas após um ano e dois meses.

Veja também: Votação do fim da escala 6x1: o que falta para a aprovação?

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