Socialistas made in USA

O Folha de S. Paulo designa-o efeito Mamdani. Beneficiando da popularidade e da personalidade cativante do mayor de Nova York, foram sete os eleitos para o Congresso em 2027 pertencentes à fação Democratic Socialists of America (DSA). Conjugando a Nova e a Velha Esquerda, esta frente do Partido Democrata (PD) está a ganhar relevo no panorama político norte-americano. Após a intentona de Bernie Sanders (radical que não pertence ao grupo, mas que contou enormemente com o seu apoio em 2016), o fenómeno ganhou vida própria a partir do momento da eleição do ugandês. Na convenção de Chicago de 2025, o Comité Político Nacional aprovou o comité responsável para redigir um programa político que, no ano seguinte, se intitularia Workers Deserve More! Antes de analisar o conteúdo do documento e o âmbito dos resultados dos socialistas nas eleições intercalares, importa clarificar alguns pontos.
A eleição de Obama significou um ponto de viragem na política norte-americana. Acusado de socialista de um lado e de capitalista do outro, a realidade é que o cenário em Washington D.C. mudou de cariz. Para lá dos epifenómenos da cor da pele, o ex-presidente deu início a uma polarização ideológica marcante: os republicanos que o acusavam de ser socialista, criaram o Tea Party; os radicais democratas, principalmente em virtude do resgaste do setor bancário e financeiro, viram essa medida pró-capital como ensejo para se demarcarem – Obama is no socialista, but we are, como se podia ler num cartaz por essas alturas conturbadas da crise económica de 2007/8. Aliás, o movimento Occupy, serviu precisamente para que se diferenciassem na forma e no conteúdo do establishment do PD.
Temos assim que o Nobel da Paz foi o motor da radicalização ideológica que ainda hoje se vive nos EUA. Do lado esquerdo do espectro político, numa via inaugurada por Eugene V. Debs, os novos socialistas imaginam um país (e um mundo) livre do capitalismo. O capitalismo é um sistema criado pela classe dominante para explorar o resto de nós em busca de lucro, conforme a sua página online. A Day Without Capitalism é o primeiro capítulo do programa referido: o leitor é convidado a fazer uma experiência mental em que imagina um dia de descanso num qualquer lugar em plena sociedade socialista. Neste mundo sem sofrimento, sem contas para pagar, sem preocupações financeiras, tais como a faculdade dos filhos ou a medicina, a renda ou a comida, claramente um mundo perfeito ou, pelo menos, o melhor dos mundos possíveis, cada um trabalha com prazer e apenas o que considera estar ao seu alcance físico e mental. Basicamente, os socialistas querem todos os dividendos e todas as vantagens do capitalismo sem o capitalismo. Todavia, o panfleto tem os seus melhores momentos quando aborda outros pontos. No seu ideário consta algo tão extremo como desmilitarizar a polícia e enfraquecer os seus sindicatos, via para uma abolição definitiva dos mesmos; um processo semelhante levaria à supressão do sistema prisional – este, aliás, apenas serve para os ricos encarcerarem os pobres.
Do restante manifesto constam as habituais medidas marxistas e woke. Acabar com o legado da escravatura e do colonialismo, incluindo reparações históricas e legalização imediata de todos os migrantes, amnistiando qualquer imigrante independentemente do seu status, o combate pelo fim da discriminação das mulheres e pessoas LGBT, pôr fim aos embargos impostos a países cujos governos agem de forma independente em relação aos EUA (Cuba, Venezuela, Irão), eliminar a máquina de guerra norte-americana e, obviamente, libertar a Palestina. Economicamente, são a favor do controlo público das grandes indústrias e empresas dos setores mais importantes e a tributar agressivamente os mais ricos. Ao nível do sistema político, é reivindicado que todos os residentes no território devem poder votar, que o bipartidarismo deve ser suprimido, bem como o Senado, entre outros requisitos.
É uma agenda revolucionária, destinada àquela que foi, provavelmente, a nação mais antissocialista de todas, pelo menos desde Reagan. A DSA considera que as eleições intercalares significaram uma vitória, ao verem os seus representantes quadruplicar no Congresso. Aos nomes de Alexandria Ocasio-Cortez e de Rashida Tlaib, juntam-se agora mais cinco elementos. Todos eles comungam do desejo de rejeitar o centro complacente e a direita fascista.
Além dos inimigos declarados republicanos, a DSA é encarada com bastante desconfiança pelos democratas moderados. A sua demanda por demolir de alto a baixo todo o sistema político americano causa transtorno. O desejo de uma nova constituição, o desejo de, no fundo, inaugurar um novo país, uma República Socialista Democrática, é percebida como uma afronta aos valores e à história dos EUA. Para já, constituem uma minoria no PD.
Recorrendo ao artigo de Patrícia Fernandes no Observador [O socialismo norte-americano (1)], a DSA combina, assim, as preocupações económicas e laborais da Old Left com as questões identitárias da New Left, mas não deve confundir-se com aquilo que, na Europa, chamamos social-democracia: a sua plataforma é explicitamente anticapitalista e as suas medidas visam, a longo prazo, construir uma sociedade verdadeiramente socialista (comunista, diríamos por cá).
As correntes europeias da extrema-esquerda ainda não olharam verdadeiramente para este fenómeno americano. Os preconceitos continuam profundamente arreigados nas mentes dos marxistas do velho mundo. Estes, mais lentos na perceção da realidade, acham que o bipartidarismo e as duas câmaras do ramo legislativo sempre impedirão a Revolução. A própria revolução ocorrida na antiga colónia britânica sempre lhes pareceu um simulacro. Demasiadamente cavalheiros, à semelhança de George Washington, sentenciam. Os radicais europeus permanecem leais à ideia de que nada de bom virá do outro lado do Atlântico Norte.
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