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Thursday, September 24, 2026

Por que 24 de setembro de 1991 foi o melhor dia de todos para a música

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Há 35 anos, nesta data, foram lançados álbuns clássicos do Nirvana, A Tribe Called Quest, Red Hot Chili Peppers e Pixies

Rob Sheffield

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Nesta mesma semana de 1991 — há 35 anos —, o mundo vivia um daqueles momentos que mudariam a história da música. Em 24 de setembro, quatro álbuns clássicos foram lançados no mesmo dia: Nevermind, do Nirvana; Blood Sugar Sex Magik, do Red Hot Chili Peppers; The Low End Theory, do A Tribe Called Quest; e Trompe Le Monde, dos Pixies. Todos os quatro se tornaram sucessos imediatos, surpreendendo a indústria e transformando a sonoridade da década seguinte. A revolução aconteceu rapidamente: agosto de 1991 representava uma era, mas, já em outubro, o cenário era completamente outro.

Se você busca razões simbólicas que mostrem por que a música precisava urgentemente de uma revolução, basta olhar para o maior grupo pop daquele ano: o C&C Music Factory. Poucas semanas antes, em 23 de agosto, o Factory fazia um show em Tucson, no Arizona, como parte da turnê Club MTV. Outras atrações incluíam Color Me Badd, Gerardo (famoso pelo hit “Rico Suave“) e Bell Biv DeVoe. No entanto, o rapper do C&C, Freedom Williams, desmaiou no palco, caindo de cara no chão diante de toda a plateia. A explicação oficial foi a de sempre: “desidratação” e “exaustão”.

O curioso, porém, é que, enquanto Williams estava ali inconsciente, sua voz continuava ecoando pelos alto-falantes. Ops! Era o pior pesadelo de qualquer artista que recorria ao playback. Mas aquilo também marcou o fim de uma era de glamour pop artificial. A “fábrica de música” que tornava as rádios dos anos 80 tão divertidas — com todo o seu hype, brilho, laquê e artifícios descarados — havia finalmente perdido o fôlego. Estava oficializado: nem mesmo o cara do C&C Music Factory conseguia ficar acordado durante seus próprios sucessos. Como o próprio Williams diria, era apenas uma daquelas coisas que fazem a gente parar e pensar: “Hmmmmm”.

De repente, para os fãs, tudo aquilo já não bastava. A resposta do público foi clara e direta: “Aqui estamos nós. Nos entretenham”.

Mudanças estavam no ar. E foi por isso que o mundo estava tão pronto para esses álbuns assim que foram lançados, isolando com fita de sinalização amarela tudo o que era seguro, previsível e monótono. Nenhum desses rebeldes deveria ter feito tanto sucesso — se você estivesse apostando nos álbuns lançados em 24 de setembro, a aposta segura seria em Bryan Adams, que lançou Waking Up the Neighbours, trazendo o maior sucesso daquele verão: “(Everything I Do) I Do It For You“. Um disco bem legal do Bryan A, convenhamos. Mas não é exatamente o tipo de coisa que desperta os feromônios 35 anos (ou mesmo semanas) depois.

O outono de 1991 foi um momento fantástico para a música, pois as mudanças aconteciam muito rápido, de uma semana para a outra. A era SoundScan estava apenas começando, forçando as paradas de sucesso a refletir o que as pessoas realmente compravam; assim, álbuns de country, rap e metal estreavam no Top 10 pela primeira vez. (Até o Rush estreou em terceiro lugar naquele mês de setembro, com Roll the Bones.) Perry Farrell criou o Lollapalooza naquele verão, provando que havia um público jovem e ávido — uma galera alternativa faminta por bandas emergentes como Nine Inch Nails, Rage Against the Machine e a própria banda de Perry, Jane’s Addiction.

Setembro de 1991 também marcou uma das melhores edições do MTV Video Music Awards na história — o ano em que o R.E.M. levou tudo com “Losing My Religion“, simbolizando uma passagem de bastão entre gerações. Prince arrasou com suas calças de couro sem a parte de trás durante a performance ao vivo de “Gett Off“. Mas quem roubou a cena foi a atração de abertura surpresa: Pee-wee Herman, apenas algumas semanas depois de ter sido flagrado em um cinema pornô. Pee-wee começou o show perguntando: “Ouviram alguma piada boa ultimamente?” Após uma ovação de pé estrondosa e carinhosa, ele respondeu: “Tão engraçada que esqueci de rir!”

O Nirvana surgiu naquele momento como maná caindo no deserto — aqueles três moleques de Seattle eram tudo o que a nova geração dos anos 90 desejava. “Smells Like Teen Spirit” estourou nas rádios e na MTV, com os gritos viscerais de Kurt Cobain e aquele riff de guitarra imaginária, tão tolo quanto contagiante. E, graças ao sistema SoundScan, ninguém conseguia ignorar a quantidade de jovens frequentadores de shopping que estavam comprando o disco.

De repente, 1991 tornou-se a era do grunge, impulsionada por três lançamentos de peso que chegaram ao mercado com poucas semanas de intervalo: Ten, do Pearl Jam, em 27 de agosto; Badmotorfinger, do Soundgarden, em 8 de outubro; e o Nirvana, entre os dois. Como o Sonic Youth proclamou de forma célebre, aquele foi o ano em que o punk estourou (The Year Punk Broke).

Nevermind teve uma estreia modesta nas paradas naquela semana, alcançando a 144ª posição — apenas quatro degraus atrás de Cherry Pie, do Warrant, um álbum já com um ano de estrada; a prova de que os deuses da ironia do rock & roll têm um senso de humor doentio. Aquela foi a última semana na história em que mais consumidores optaram pelo Warrant do que pelo Nirvana. Todos aqueles clones do hair metal foram varridos do mapa da noite para o dia.

Naquela primeira semana, Nevermind estava cercado por sucessos típicos das paradas de 1991, como os de The Judds, Phil Collins, Ziggy Marley, Sting e a trilha sonora de Uma Linda Mulher (1990). Mas, algumas semanas depois, Nevermind estava em primeiro lugar. Isso não deveria ter acontecido. De alguma forma — como um grande filósofo chamado Vanilla Ice estava prestes a dizer em seu clássico cinematográfico de outubro, Na Onda do Rap (1991) — o público decidiu largar o “zero” e ficar com o herói.

O dia 24 de setembro chegou apenas uma semana depois que o Guns N’ Roses lançou dois álbuns na mesma noite: Use Your Illusion I e II. Esses álbuns foram lançados à meia-noite de 17 de setembro — e, como tantos amigos meus, fiquei na fila em frente à loja Plan 9 Records para comprá-los à meia-noite, em vinil. O anúncio de página inteira na Billboard proclamava: “O Guns N’ Roses não lançará nenhum álbum antes da hora certa. A hora chegou”. Ambos os llusions foram uma experiência incrível, especialmente o Lado B do primeiro disco de Illusion II, com “Get in the Ring“, “Shotgun Blues” e a subestimada “Breakdown” — aquilo sim era um lado de vinil impecável.

Os Chili Peppers eram vistos amplamente como apenas um fenômeno local de Los Angeles até Blood Sugar Sex Magik; com “Give It Away” e “Under the Bridge“, eles provaram que estavam apenas começando a aprender a compor músicas, com a ajuda do novo prodígio da guitarra, John Frusciante. Trompe Le Monde, dos Pixies, representou um tipo diferente de declaração no rock, já que a banda já era um nome consagrado (e uma das favoritas de Cobain, tendo ajudado a inspirar Nevermind). Mas, após o acabamento mais polido de Doolittle (1989) e Bossanova (1990), o álbum soava abrasivo, inovador e pop ao mesmo tempo, com a energia de faixas como “U-Mass” e “Subbacultcha“, feitas apenas pela diversão.

The Low End Theory foi uma incursão extremamente inovadora pelos caminhos rítmicos entre o jazz e o hip-hop, com o A Tribe Called Quest atualizando a estética do coletivo Native Tongues em faixas como “Check the Rhime“. O álbum comprovou a diversidade criativa do hip-hop, após um ano em que alguns achavam que o gangsta rap era a única vertente que importava. (Especialmente com as desastrosas repressões legais contra o uso de samples que atingiram o De La Soul e o Biz Markie.)

Uma semana depois, o Public Enemy chegou com tudo com Apocalypse ’91… The Enemy Strikes Black, juntando-se a Michael Jordan e Spike Lee em um dos melhores episódios de todos os tempos do Saturday Night Live. Na Costa Oeste, o Cypress Hill impressionava a todos com a “Latin Lingo” de seu álbum de estreia, lançado em agosto. O KMD criou a joia experimental do underground, Mr. Hood — a primeira vez que muitos aficionados ouviram a genialidade de MF Doom.

O espírito de inovação estava por toda parte, presente nas sonoridades dance do Reino Unido com Screamadelica do Primal Scream, o álbum de estreia homônimo do Orbital e Blue Lines do Massive Attack (lançado em abril, mas que só então chegava aos EUA). O outono de 1991 também trouxe o lendário episódio sobre raves de Barrados no Baile, exibido em 14 de novembro — sim, aquele em que a turma vai a uma festa ilegal em um galpão onde é preciso levar um ovo para entrar.

As paradas de sucesso estavam uma loucura naquele outono — uma explosão gloriosa de artistas de um sucesso só, casos de sorte, golpes, febres da música dance e canções engraçadinhas que surgiam do nada para invadir as rádios. Hits de rap como “O.P.P.”, do Naughty By Nature, e “Let’s Talk About Sex“, do Salt-N-Pepa, estavam estourando. O freestyle estava em alta, com clássicos de Lisette Melendez (“A Day in My Life Without You“) e Corina (“Temptation“). O Metallica emplacou um sucesso legítimo com “Enter Sandman” — tão bom que nem mesmo os puristas da banda conseguiram odiá-lo. Siouxsie também teve um grande sucesso com “Kiss Them for Me“, usando um sample de Schoolly D. Surgiram muitas boy bands de R&B suave e New Jack Swing — acenda uma vela para o Hi-Five, com sua magnífica balada romântica “I Can’t Wait Another Minute“, ou para o Mint Condition, com “Breakin’ My Heart (Pretty Young Eyes)“.

O sucesso número um daquela semana era “I Adore Mi Amor“, do Color Me Badd. Mas havia coisas boas surgindo no Top 10, como Boyz II Men (“Motownphilly”) ou Marky Mark and the Funky Bunch (“Good Vibrations” — música que defendo como sendo realmente boa). “Love … Thy Will Be Done”, de Martika, foi o melhor sucesso de Prince naquele semestre (ele próprio a compôs), até que o próprio “Purple One” retornou ao primeiro lugar com “Cream”. Mas ninguém conseguia superar a cafajestice do Natural Selection, uma dupla de sucesso efêmero que emplacou a imitação mais descarada e ridícula do estilo de Prince de todos os tempos: “Do Anything”. O Divinyls continuava tocando nas rádios com seu hino de autoerotismo e desejo tátil, “I Touch Myself”. “Mind Playing Tricks On Me”, do Geto Boys, começava a provocar pesadelos nas pessoas — bem a tempo para o Halloween.

As novas estrelas pop favoritas de todos naquele outono eram a dupla de Nova Jersey P.M. Dawn, que misturava rap no estilo Native Tongues, synth-pop e melodrama gótico em uma sonoridade peculiar, sampleando o Spandau Ballet no sucesso que chegou ao topo das paradas, “Set Adrift on Memory Bliss”. Eles estão estranhamente esquecidos hoje em dia, o que é uma pena: quando Prince Be morreu, há 10 anos, ele sequer apareceu na homenagem In Memoriam do Grammy. A dupla de rap do Meio-Oeste K.M.C. KRU emplacou um sucesso com “The Devil Came Up to Michigan”, atualizando um clássico da música country com a participação de Charlie Daniels. Foi um ano assim.

Na esteira de Nevermind, o punk rock deixou de ser um fenômeno de nicho para se tornar uma linguagem da juventude em massa — e o Nirvana foi apenas a porta de entrada. O “indie rock” — termo que surgira havia poucos anos — virou um clichê que se podia tanto ridicularizar quanto celebrar, como fez o Sebadoh em seu hilário single de verão “Gimme Indie Rock!” (Trecho da letra: “Explora esse som até o talo, despeja tudo / Logo ele vai mais longe do que você jamais imaginou / Quatro estrelas na Rolling Stone!”).

O Bikini Kill soou o alarme do movimento riot grrrl com a fita cassete Revolution Girl Style Now! (1991), obra de enorme influência que trazia hinos como “Feels Blind“. Aquele verão foi repleto de lançamentos indie geniais feitos na base do “faça você mesmo” (DIY): “Cool“, do Superchunk; “Cherry Cherry” e “Yes She Is My Skinhead Girl“, do Unrest; “Summer Babe” e o EP Perfect Sound Forever, do Pavement; “Canada“, do Silver Jews; Highlights, de Lois; Spiderland, do Slint; Smell the Magic, do L7; e Steady Diet of Nothing, do Fugazi.

No Noroeste Pacífico, a convenção International Pop Underground, organizada pela gravadora K Records em agosto, inspirou inúmeras bandas de cardigã. Logo após Nevermind, surgiram sucessos alternativos como Girlfriend, de Matthew Sweet; Raise, do Swervedriver; e Bandwagonesque, do Teenage Fanclub. E, bem a tempo para dezembro, o My Bloody Valentine lançou Loveless — um romance industrial capaz de fazer os ouvidos sangrarem e que deixou o mundo atordoado desde então.

O restante do ano foi recheado de grandes lançamentos voltados para as compras de Natal: Achtung Baby, do U2 (uma guinada artística inicialmente execrada como fracasso comercial); Dangerous, de Michael Jackson; Rush Street, de Richard Marx (seu álbum “ousado” — ou, como diziam os comerciais de TV, “o lado sombrio de Richard Marx“); e Death Certificate, de Ice Cube. Mas tudo estava diferente agora. O Genesis demorou um pouco demais para lançar We Can’t Dance, que saiu em novembro; o álbum teria soado muito menos covarde se tivesse sido lançado alguns meses antes. Após o lançamento desses discos em 24 de setembro, as expectativas subiram de repente, e as possibilidades se abriram amplamente. É por isso que, tantos anos depois, esses álbuns continuam desafiando todos os outros a se esforçarem mais.

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TAGS: a tribe called quest, Nirvana, Pixies, Red Hot Chili Peppers
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