China destoa de outros países e vê ações caírem apesar do boom da IA
Segundo a Moonshot AI, uma das principais empresas de inteligência artificial de Pequim, "O que realmente importa está além do alcance da visão humana".
Essa é uma das razões pelas quais seu nome em chinês pode ser traduzido como "Lado Escuro da Lua". (Outra talvez seja o amor do fundador por Pink Floyd.)
A startup, que espera abrir capital em Hong Kong no próximo ano, ilustra muitos dos pontos fortes da China em IA. Seus fundadores são talentosos e dedicados. Seu modelo Kimi K3, que acaba de ser atualizado, é enxuto e poderoso.
O país está determinado a aproveitar ao máximo a nova tecnologia. Sua economia, assim como as dos Estados Unidos, de Taiwan e da Coreia do Sul, está firmemente inserida na órbita do boom da IA. Mas, ao contrário do que ocorre nesses lugares, onde o otimismo cresce e diminui, o mercado de ações chinês permanece pessimista.
O pessimismo é mais evidente nos índices do mercado acionário voltados à tecnologia, como o ChiNext, de Shenzhen. Ele perdeu cerca de 40% em quatro meses. O sentimento baixista se espalhou para índices mais amplos, como o CSI 300, que acompanha empresas de grande capitalização listadas em Xangai e Shenzhen.
Em outubro, esse índice passou a se enquadrar na definição convencional de um mercado em baixa, após recuar 20% em relação ao pico de junho.
Há cerca de uma década, os órgãos reguladores da China vêm tentando fomentar um "mercado de alta gradual", que melhore a confiança dos consumidores e capte recursos para novas empresas sem sair do controle. No primeiro semestre de 2026, eles pareciam estar conseguindo o que queriam.
O CSI 300 avançou lentamente. A fabricante de chips CXMT abriu capital em Xangai em julho, captando 66,6 bilhões de yuans (um número de sorte, equivalente a quase US$ 10 bilhões). A "equipe nacional" —instituições financeiras estatais que sustentam o mercado quando necessário— ficou confiante o bastante para se desfazer de algumas das ações compradas em crises anteriores.
As coisas mudaram por volta da metade do ano. Entre os culpados estão o ceticismo em relação à IA e a cautela fiscal doméstica. As dúvidas sobre a demanda dos usuários finais por IA têm ainda mais peso na China. As empresas do continente são notoriamente relutantes em pagar por software. E a concorrência para conquistá-las é acirrada. O sucesso do Kimi, por exemplo, representa uma ameaça para rivais de capital aberto, como a MiniMax.
As ações chinesas também têm sofrido com a contenção orçamentária do governo. Muitos investidores esperavam neste ano um esforço coordenado para impulsionar a economia por meio de investimentos em infraestrutura e repasses às famílias.
Mas o governo tem dependido mais da demanda externa para sustentar o crescimento. O boom das exportações neste ano permitiu que as autoridades voltassem as atenções para o ajuste fiscal, e não para a expansão fiscal.
China, terra do meio
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A ironia é que grande parte desse boom esteve relacionado à IA. O valor das exportações chinesas de semicondutores, por exemplo, mais do que dobrou nos primeiros nove meses do ano. Os gastos globais com IA sustentaram o crescimento chinês, eliminando a necessidade de estímulos fiscais.
Essa austeridade inesperada pesou sobre a demanda interna, deprimindo o mercado de ações. Os deuses da IA dão; mas também tiram.
Ultimamente, a equipe nacional parece ter voltado à ativa, estabelecendo um piso para o mercado. Os fundos negociados em Bolsa mantidos pela Central Huijin, parte do fundo soberano da China, registraram fortes entradas de recursos, observa Larry Hu, do banco Macquarie.
O governo também está mobilizando investimentos para o que chama de "seis redes". Elas incluem os sistemas de energia, computação e comunicações de que uma economia impulsionada pela IA precisará.
O crescimento econômico ganhou força, e o CSI 300 voltou a superar, por enquanto, a marca simbólica de 4.000 pontos.
Ao contrário do que se costuma acreditar, o lado "escuro" da Lua recebe duas semanas de luz solar por mês, assim como o lado visível. Os mercados chineses esperam que seu momento ao sol chegue em breve.
Texto de The Economist, traduzido por Helena Schuster e publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com
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