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Saturday, September 26, 2026

De cópia a referência mundial: o carro chinês virou o padrão

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RESUMO | O hotel The 13 Palace, em Macau, trocou recentemente sua frota de Rolls-Royce por 13 sedãs chineses Maextro S800, avaliados em cerca de R$ 1 milhão cada. A mudança reflete a ascensão da indústria automotiva chinesa, que exportou 8,3 milhões de veículos em 2025 e ampliou sua influência global em inovação, tecnologia e luxo.

Recentemente, aconteceu algo que me deixou bastante surpreso: o hotel The 13 Palace em Macau trocou a sua famosa frota de Rolls-Royce por 13 unidades do sedã de ultraluxo da marca chinesa Maextro S800, fruto da parceria entre a Huawei e a JAC. Cada unidade custa 1,388 milhão de iuanes, o equivalente a cerca de R$ 1 milhão.

O hotel havia encomendado, em 2014, 30 Rolls-Royce Phantom por US$ 20 milhões (o maior pedido individual da história da marca britânica). Acredito que, mesmo que a troca seja pequena em número de carros, ela simboliza um movimento poderoso, que ninguém imaginava que chegaria tão rápido.

Penso que hoje o setor automotivo é o que mais simboliza para o mundo o novo papel que a China ocupa no cenário econômico global. Em 2025, o país exportou 8,3 milhões de veículos, com uma alta de 30% sobre 2024. Estamos falando de mais que o dobro dos cerca de 4 milhões embarcados pelo Japão, líder incontestável do ranking global de exportações por décadas.

No mesmo ano de 2025 a produção chinesa somou 34,5 milhões de unidades. Já este ano, segundo dados da China Association of Automobile Manufacturers, só no primeiro semestre, as exportações já somavam 5,096 milhões de veículos, com uma alta de 65,3% sobre o mesmo período de 2025.

A inversão da dependência tecnológica

Estamos assistindo a uma verdadeira inversão na relação de dependência tecnológica entre Ocidente e Oriente. Se, a partir dos anos 1980, foram joint ventures como a Shanghai Volkswagen que trouxeram capital e know-how estrangeiros para os chineses, hoje estamos assistindo a montadoras tradicionais que buscam know-how na China, como a General Motors, que acabou de estender sua joint venture com a SAIC até 2047. A Honda também renovou seu acordo com a GAC até 2038, enquanto a Volkswagen prolongou o seu com a SAIC até 2040.

A China hoje tem uma clara ambição de moldar a inovação do setor. Em abril de 2026, a BYD tornou-se a primeira montadora chinesa a liderar o ranking global de inovação da consultoria alemã Center of Automotive Management, com 157 pontos, superando Volkswagen e Mercedes-Benz.

A fábrica em Beijing da Xiaomi produz em média um carro a cada 76 segundos, enquanto a da NIO, em Hefei, opera com mais de 700 robôs e automação de 97,5%. As marcas chinesas estão conseguindo fazer o que a Apple realizou no segmento de celulares na primeira década dos anos 2000 com o lançamento do iPhone: transformar o carro em uma plataforma de software.

Empresas como a Leapmotor verticalizam até 65% da produção de seus componentes, do motor a sistemas de entretenimento, o que ajuda a reduzir o ciclo de lançamento de um modelo de cerca de cinco anos para menos de dois. A China também concentra mais de 50% das patentes mundiais de baterias para veículos elétricos, o que sustenta soluções como o sistema Reev (Range Extended Electric Vehicle), útil em mercados com infraestrutura de recarga ainda incipiente, caso do Brasil.

O resultado de tudo isso? As marcas chinesas se tornaram a nova referência em termos de inovação, qualidade e rapidez de resposta às dinâmicas do mercado. Elas entendem a importância de implementar uma mentalidade orientada à velocidade e à experiência de marca.

É importante lembrar que, hoje, a economia e a vida chinesa dependem totalmente do universo digital. Dessa forma, as marcas chinesas conseguiram alcançar áreas rurais antes isoladas do progresso econômico das grandes metrópoles do país. A aposta da China está cada vez mais em novos modelos de negócio definidos por uma jornada do cliente multicanal, na qual a evolução está sempre poderosamente ativa.

Liderança inspiradora e projeção internacional

O desenvolvimento econômico da China criou empreendedores de sucesso que têm a ambição de mudar o mundo e beneficiar a sociedade. Isso resultou em muitas empresas chinesas com líderes que levam missões inspiradoras ao mercado, o que acabou atraindo a atenção de institutos de investimento e permitiu a contratação de talentos internacionais, o estabelecimento de centros de P&D na Europa e a contratação das mais famosas empresas internacionais de marketing e branding.

Essa mentalidade de reinvenção constante se transferiu para a reputação das marcas chinesas, cada vez mais associadas a atributos como inventividade, capacidade de resposta, adaptabilidade e proximidade. A China vive atualmente uma onda de orgulho nacional. Existe uma nova mistura de design visionário e referências culturais chinesas. Essa é a tendência Guochao, que se manifesta ao incorporar traços da tradição do design e da arte chinesa na proposta de valor das marcas locais.

O Guochao possibilitou que as marcas chinesas se conectassem com novas gerações de chineses, que cresceram enquanto a economia e a riqueza do país se expandiam. O povo chinês, especialmente os jovens, recebe bem o retorno e a ascensão da cultura chinesa. Essa mesma lógica que fez um hotel de luxo em Macau trocar Rolls-Royce por um sedã chinês vem se repetindo, em escala maior, dentro e fora do automóvel.

A Huawei, em parceria com a JAC, já viu o Maextro S800 superar rivais como Porsche, BMW e Maybach nas vendas do segmento de sedãs de ultraluxo na China, tornando-se o sedã de luxo mais vendido do país em janeiro de 2026. A BYD, por sua vez, prepara a chegada de sua marca de luxo Yangwang à Europa em 2026, seguindo os passos da Denza, depois de já vender modelos como o SUV U8L, de mais de 1.100 cv, e o supercarro U9.

O movimento não se limita a carros. Kweichow Moutai, fabricante da bebida destilada mais valiosa do mundo, chegou a superar a LVMH em valor de mercado em determinados períodos, enquanto a Li-Ning, marca esportiva fundada por um ex-ginasta olímpico, evoluiu para ícone de streetwear de luxo com coleções na Semana de Moda de Nova York.

É a mesma confiança tecnológica e o mesmo orgulho cultural que impulsionam o automóvel chinês que agora movem o luxo chinês como um todo: a geração mais jovem do país, cada vez mais digital e cada vez menos convencida de que importado é melhor, tornou-se o motor de uma indústria que deixou de importar status e passou a exportá-lo.

*Nascido e criado na Itália, Filippo Vidal construiu uma extensa carreira internacional, vivendo em países como África do Sul, China, Espanha e atualmente no Brasil. Chegou na FutureBrand São Paulo em 2018, trazendo um olhar estratégico para projetos locais e internacionais. Em 2022 foi convidado a se tornar sócio da FutureBrand, sendo responsável por aprimorar a conexão da consultoria com os outros escritórios do ecossistema global da FutureBrand e liderando o processo de internacionalização de diversas marcas nacionais e estrangeiras.  

Por que o The 13 Palace trocou os Rolls-Royce por carros chineses?

O hotel The 13 Palace, em Macau, substituiu sua famosa frota de Rolls-Royce por 13 unidades do Maextro S800, sedã de ultraluxo criado pela Huawei em parceria com a JAC. Cada veículo custa 1,388 milhão de iuanes, cerca de R$ 1 milhão.

Quantos veículos a China exportou em 2025?

A China exportou 8,3 milhões de veículos em 2025, alta de 30% sobre 2024. O volume superou o dobro dos cerca de 4 milhões de unidades embarcadas pelo Japão no mesmo período.

Quantos carros a China produziu em 2025?

A produção chinesa alcançou 34,5 milhões de veículos em 2025. No primeiro semestre de 2026, as exportações somaram 5,096 milhões de unidades, avanço de 65,3% ante o mesmo período de 2025, segundo a China Association of Automobile Manufacturers.

Por que as montadoras chinesas conseguem lançar carros mais rapidamente?

Empresas como a Leapmotor concentram até 65% da produção de componentes, do motor aos sistemas de entretenimento. Essa verticalização ajuda a reduzir o ciclo de lançamento de um modelo de cerca de cinco anos para menos de dois.

Qual foi o desempenho do Maextro S800 no mercado chinês?

O Maextro S800 superou rivais como Porsche, BMW e Maybach no segmento de sedãs de ultraluxo na China. Em janeiro de 2026, o modelo tornou-se o sedã de luxo mais vendido do país.

O que é a tendência Guochao?

Guochao é uma tendência que incorpora referências da tradição, do design e da arte chinesa à proposta de valor das marcas locais. O movimento fortaleceu a conexão dessas empresas com jovens chineses que acompanharam a expansão econômica e passaram a valorizar mais a cultura nacional.

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