Canetas emagrecedoras podem agir no cérebro? GLP-1 são testados contra vício e depressão
Compostos que atuam sobre o GLP-1, como medicamentos usados contra obesidade e diabetes, estão sendo investigados para tratar dependência química, depressão e outras condições que afetam o cérebro. Entre os tratamentos mais conhecidos que atuam nessa via estão Ozempic e Mounjaro.
Segundo informações da revista científica Nature, empresas farmacêuticas como Eli Lilly, Kariya Pharmaceuticals e Baseline Therapeutics estão desenvolvendo medicamentos voltados a transtornos neurológicos e psiquiátricos. Entre as condições investigadas estão transtornos por uso de álcool, tabaco e opioides, além de depressão, esquizofrenia, transtorno bipolar e doença de Parkinson.
O interesse da indústria ocorre após anos de pesquisas acadêmicas sobre o potencial dos medicamentos GLP-1 para condições que afetam o cérebro.
Semaglutida reduz desejo por álcool?
O interesse pelos possíveis efeitos desses medicamentos sobre a dependência aumentou após pacientes relatarem menor vontade de consumir álcool ou fumar durante o tratamento.
Em 2025, um ensaio clínico conduzido por Christian Hendershot, pesquisador da Universidade do Sul da Califórnia, avaliou a semaglutida em pessoas com transtorno por uso de álcool.
Os resultados mostraram redução do desejo por álcool e dos episódios de consumo excessivo ao longo do tempo. Os participantes também beberam menos durante um teste realizado em laboratório.
Desde então, outras duas pesquisas clínicas conduzidas por pesquisadores acadêmicos encontraram resultados semelhantes. Segundo Hendershot, os estudos realizados até agora mostram benefícios que parecem superar os observados com medicamentos atualmente aprovados para o transtorno por uso de álcool.
Novo GLP-1 pode agir por mais tempo
Uma das substâncias investigadas é a brenipatida, desenvolvida pela farmacêutica Eli Lilly. O composto é um análogo de GLP-1 e GIP, os mesmos hormônios imitados pela tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro.
Dados apresentados em setembro durante um congresso de psiquiatria em Nova Orleans, nos Estados Unidos, e citados na revista, mostraram que a brenipatida permanece ativa por mais tempo no organismo. A substância apresentou meia-vida de nove a 12 dias, em comparação com cinco a sete dias para outros medicamentos GLP-1 aprovados.
Segundo Robert Nicholson, responsável pelos assuntos médicos de psiquiatria e transtornos por uso de substâncias da Eli Lilly, a duração maior pode tornar o medicamento especialmente adequado para pessoas com essas condições. Entretanto, Randy Seeley, pesquisador da Universidade de Michigan, afirma que ainda não está claro se existem outras diferenças importantes entre a brenipatida e os medicamentos atualmente disponíveis.
Além do transtorno por uso de álcool, o composto está sendo testado para transtornos por uso de tabaco e opioides, depressão, esquizofrenia e transtorno bipolar.
A Baseline Therapeutics também desenvolve o BT-001, um análogo do GLP-1 destinado ao transtorno por uso de álcool. A empresa planeja iniciar um ensaio clínico de fase 3 no início de 2027.
Como remédios para obesidade podem agir no cérebro?
Alguns dos medicamentos utilizados contra obesidade, como a semaglutida, imitam a ação do GLP-1, hormônio intestinal envolvido na regulação dos níveis de açúcar no sangue, entre outras funções. A tirzepatida também imita outro hormônio intestinal, o GIP.
Ainda não está claro como esses medicamentos poderiam reduzir a dependência. Uma das hipóteses é que os compostos atuem sobre o sistema de recompensa do cérebro, relacionado à busca por sensações de prazer associadas a comportamentos como comer, beber, fumar ou consumir outras drogas.
A explicação, porém, pode ser mais complexa. Segundo Seeley, outras atividades consideradas gratificantes não parecem ser afetadas da mesma maneira pelos medicamentos. Estudos de neuroimagem podem ajudar a esclarecer como essas substâncias modificam a atividade cerebral.
Uma pesquisa liderada por Lorenzo Leggio, dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH), analisa o cérebro de participantes que receberam um medicamento GLP-1 ou placebo enquanto observavam imagens de bebidas alcoólicas. Os resultados são esperados para 2027.
Medicamento é testado contra Parkinson
O potencial dos medicamentos GLP-1 também está sendo investigado contra a doença de Parkinson. Tentativas anteriores de tratar a condição com substâncias dessa classe não tiveram sucesso.
Uma das possíveis explicações é a dificuldade de algumas moléculas atravessarem a barreira hematoencefálica, estrutura que controla a passagem de substâncias do sangue para o cérebro.
Segundo pesquisadores citados pela Nature, uma hipótese é que as moléculas dos medicamentos GLP-1 aprovados sejam grandes demais para atravessar essa barreira em quantidades suficientes. Nesse contexto, a Kariya Pharmaceuticals desenvolveu o KP405, composto projetado para atingir o cérebro.
Resultados clínicos preliminares apresentados em outubro no Congresso Internacional sobre Doença de Parkinson e Distúrbios do Movimento, em Seul, identificaram biomarcadores no sangue que sugerem que o composto chegou ao cérebro.
O uso de medicamentos GLP-1 contra dependência também levanta uma preocupação: a possibilidade de perda excessiva de peso involuntária. Até agora, a maioria dos estudos para essas indicações foi realizada em pessoas com obesidade ou sobrepeso.
A Eli Lilly, porém, incluiu em seus estudos participantes com IMC de até 22, considerado saudável. Segundo Nicholson, até o momento nenhum participante precisou abandonar o estudo devido à perda excessiva de peso.
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