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Saturday, September 12, 2026

As histórias que Nova Iorque ainda conta 25 anos depois

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Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Esta é a história do dia de fim de semana da Rádio Observador. As histórias que Nova York ainda conta, 25 anos depois.

Pick up, sweetie. Okay, well, I just wanted to tell you I love you. We're having a little problem on the plane. I'm totally fine. I just love you more than anything, just know that.

Quem já visitou o Museu do 11 de Setembro em Nova York sabe que uma das experiências mais impressionantes é pegar num dos telefones que ali estão à disposição dos visitantes e ouvir.

Honestly, I just want you to know I love you, and I'm such a mess building in New York.

Do outro lado, estão algumas das chamadas feitas por pessoas que perceberam que provavelmente iriam morrer. Mensagens para maridos e mulheres, para pais e para filhos, para dizer o quanto gostavam deles.

Jules, this is Ryan. We're on an airplane that's been hijacked. If things don't go well, and it's not looking good, I just want you to know I absolutely love you. I want you to do good, go have a good time.

E esta memória é difícil de ouvir, mas ajuda a preservar a humanidade, a dar rosto e a dar voz a números, que por serem números, são abstratos, embora impressionantes: 2977 mortos. Esta sexta-feira, Nova York voltou a parar para recordar o dia em que a América foi atacada. E foi lá que esteve o Ricardo Conceição, subdiretor do Observador, a conduzir uma emissão especial com a Judite França. Eu vou conversar com o Ricardo sobre aquilo que viram e ouviram, sobre a forma como Nova York ainda vive com a memória do 11 de setembro e sobre as histórias que continuam a ser contadas 25 anos depois. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de fim de semana de 12 e 13 de setembro. Olá, Ricardo, bem-vindo.

Olá, Pedro.

Isto é uma estreia e não é uma estreia, no sentido em que é uma estreia a nossa conversa. Não é uma estreia pra ti, porque tu conduzias este podcast antes de eu chegar e, portanto, já fazias muito bem e já deixaste aqui um legado. E, por outro lado, é a tua primeira vez a falar numa história do dia de fim de semana, que é uma inovação que temos.

É isso, exatamente.

Tens a honra de ser o segundo convidado. Ricardo, vamos começar precisamente pelo local onde estás. Onde é que tu estás agora, neste momento? É sexta-feira à noite, acabaste de conduzir uma emissão bastante longa na Rádio Observador. Onde é que estás agora?

Pedro, estou a olhar para o memorial do 11 de setembro, que é feito naquela pedra escura, pedra negra, e onde estão inscritos os nomes das mais de 2700 vítimas, pessoas que morreram aqui neste local, onde estamos agora em Nova York, no World Trade Center, quando os aviões derrubaram as duas torres gêmeas. E este memorial tem sido palco aqui em Nova York das homenagens mais formais, mais sentidas, e é, sobretudo, um local de silêncio, em que ouvimos a água cair para um buraco, é um gigantesco buraco quadrado, e está hoje repleto de flores, coroas de flores, bandeiras. Foi aqui que as vítimas foram hoje homenageadas nesta sexta-feira, sobretudo com um ponto curioso, Pedro. É que foram homenageadas, sobretudo, com silêncio. Foram lidos os nomes de todos eles, mas depois o silêncio, porque neste local, neste memorial, está vedado a discursos políticos, o que não deixa de ser interessante e também motivou aqui alguns dissabores, nomeadamente ao presidente Trump.

Donald Trump queria ter estado aí a discursar e não pôde fazê-lo e, portanto, nem sequer apareceu nessa homenagem.

Não, a Casa Branca foi representada por J.D. Vance. Estiveram cá os antigos presidentes, Bill Clinton, Joe Biden, Barack Obama. A Casa Branca depois veio dizer que não é bem assim, que o presidente queria estar nos vários locais alternadamente onde se registraram os atentados e por isso está no Pentágono, que também foi alvo de um ataque. Mas o que é certo é que Trump aqui não poderia discursar e o New York Times chegou a avançar, citando várias fontes, que isso desagradou e muito ao presidente, daí ter mudado a rota. Ele, que é um nova-iorquino, ter ido para o Pentágono, ter optado por discursar no Pentágono e não vir aqui a Nova York.

Não nos podemos esquecer que Donald Trump, embora não tenha o nome na lista de candidatos, vai estar em campanha eleitoral para novembro, numa eleição que é decisiva também pro mandato dele.

Exatamente.

Há coisas que pesam mais para determinados políticos. Mas, Ricardo, eu começava esta nossa conversa dizendo que tu tinhas estado a fazer aí uma emissão especial. Portanto, a Rádio Observador montou aí uma emissão especial para acompanhar estas cerimônias dos 25 anos do 11 de setembro. Conta-me lá como é que foi pôr de pé esta emissão. E eu faço esta pergunta porque eu conheço a Rádio Observador e sei como é que se trabalha, e sei que não é uma rádio americana, com aqueles meios incríveis que os americanos têm.

Não. E depois de acabar e para dizer uma palavra que se calhar ainda podemos dizer na rádio, deixa-me só dizer-te Safa que já acabou. Muitas das coisas que podiam correr mal é que correram. Foi uma loucura, nós felizmente temos também esta característica, esta vontade de querer fazer coisas e coisas diferentes. E no início desta semana lembrámo-nos: "E porque não ir a Nova Iorque fazer uma emissão especial do 11 de setembro?" E porque não? E viemos. Mas vim eu e a Judite França, trouxemos algum equipamento. Apesar de tudo, fazer rádio é mais leve do que televisão, muito mais leve, mas implica algum equipamento. Deixa-me dizer-te que o equipamento quase todo falhou. Nenhum funcionou como devia.

Um clássico de estúdios.

Sim, felizmente, como também já levo uns anos disto, tínhamos um plano C e D, e foi através de dois telemóveis, o meu e o da Judite em Newark, que conseguimos manter a emissão no ar e fizemos três horas de emissão. E ainda bem que viemos.

Vocês estiveram, tu no ground zero, digamos assim, no local das cerimónias, e a Judite esteve em Newark, imagino que junto da comunidade portuguesa.

Exatamente. Esteve no Iron Bound, no coração da comunidade portuguesa. Montámos arraiais numa pastelaria onde esta manhã bebemos uma bica e comemos um pão com manteiga e um pão com queijo. E foi aí que assentámos arraiais e foi por aí que, com a ajuda preciosa do Henrique Mani e do Ricky Durães, que são os jornalistas que vivem aqui em Nova Iorque, eles foram essenciais para conseguirmos isto e tenho que lhes agradecer publicamente. Fomos conseguindo reunir várias pessoas, vários portugueses que viveram diretamente este dia e que tivemos o grato privilégio de poder ouvir as histórias deles. E são pessoas que não falam muito, que não aceitam muito falar, porque isto é muito traumático. Foi um dia terrível para a cidade. E ouvimos, por exemplo, o relato de Joe Saldanha, que é uma pessoa que não fala muito, que saiu daqui, ajudou uma pessoa, conseguiu retirar uma pessoa daqui da zona do World Trade Center. Não conseguia sair, não conseguia ir para casa. Atravessou a ponte de Brooklyn a pé e acreditem que em Nova Iorque é tudo mesmo muito longe. Nós estamos habituados a uma escala mais pequena. Conseguiu atravessar a ponte de Brooklyn a pé, esteve mais de 24 horas sem conseguir comunicar com a família, sem conseguir ir para casa e voltou a pé para Newark. É mesmo muito longe. E lá conseguiu apanhar uma boleia no meio disto tudo. E ouvimos esses relatos e ouvimos os relatos dos portugueses que também, nos Estados Unidos chamam-se os first responders, portanto, as pessoas que ocorrem, o primeiro socorro a chegar, e houve portugueses nesses. E também há nove portugueses entre os mortos. Ou seja, a comunidade portuguesa foi muito afetada por isto e também teve uma intervenção grande na cidade e na tentativa de recuperar os feridos e de reconstruir a cidade. E foi muito interessante poder ouvir esses relatos e ouvi-los aqui, olhos nos olhos.

Ricardo, já voltamos a conversar, vamos só fazer um pequeno intervalo e já nos vais contar mais histórias desta operação em Nova Iorque no 11 de setembro. E já estamos de regresso à conversa com o Ricardo Conceição, que é presença habitual aos microfones da Rádio Observador e que esta sexta-feira voltou a fazê-lo, mas numa emissão especial do 11 de setembro, a partir de Nova Iorque. Ricardo, ouvindo os relatos que tu fazias, sobretudo dessas pessoas que estiveram e que viveram em primeira mão aquilo que aconteceu há 25 anos, é de facto impressionante. Eu imagino que a Judite tenha ouvido mais relatos desses. Tu, no local onde estás, tu viste homenagens, houve espaço para isso ou hoje esse espaço estava muito condicionado precisamente por causa das elites que aí estavam para fazer as homenagens?

Sim, muito condicionado o acesso aqui. Eu agora já consigo estar aqui, porque entretanto o perímetro foi levantado, o perímetro de segurança, mas era um perímetro de segurança muito robusto, com centenas de polícias, também presença de forças militares. Havia unidades antidrone, ou seja, a operação de segurança que foi montada para este 11 de setembro foi mesmo muito robusta. E as pessoas, tal como eu fiz, tentaram aproximar-se o mais possível da zona e muitas delas em grupo, umas usando T-shirts, também muitos bombeiros reformados, devidamente fardados, que faziam questão de ir falando com as pessoas e contando aquilo que viveram nesse dia. E acho que isso é importante, porque passaram 25 anos, para nós parece que tudo isso foi muito rápido, mas passaram 25 anos e basta pensar que quem nasceu em 2001 é hoje um adulto com 25 anos e se calhar não percebeu bem como é que isto tudo mudou as nossas vidas, e esses relatos foram importantes. E as pessoas estão preocupadas com isso. E isso nota-se na rua, nas conversas que vão tendo. E estas micro homenagens, se quiseres, multiplicam-se pela cidade e em cada esquina percebe-se que há alguém a fazer também a sua homenagem ao que aqui aconteceu há 25 anos.

E é impressionante a forma também como essa cidade Se levantou dos escombros, literalmente, e essa é a zona onde te encontras. Está praticamente irreconhecível quando olhamos para aquelas imagens. É curioso isso que falas da passagem da memória. Quem viveu isso, quem foi diretamente afetado, estava 25 anos depois ainda com gosto, com vontade e com esta missão de passar o testemunho daquilo que viveu.

Sim, sem dúvida. Isso nota-se, as pessoas já com alguma idade, obviamente, passaram 25 anos, mas impecavelmente fardados. Nós estamos habituados também a ver essas fardas nos filmes, mas impecavelmente fardados, a conversar com as pessoas, a abordar as pessoas que estão na rua para contar essa história, e também do outro lado, porque estamos nos Estados Unidos, em Nova York, e não deixa de ser curioso, Pedro, as pessoas das teorias da conspiração, que estão com os seus cartazes e com os seus megafones também a gritar que a culpa é desta ou daquele ou do outro.

Sim, essas teorias da conspiração, que foram muitas, que surgiram nos momentos e que, pelos vistos, continuam vivas, tal como a memória deste 11 de setembro. Já agora, deixa-me partilhar também aqui uma história, porque esta questão da memória é interessante. As minhas filhas, nenhuma delas tinha nascido quando foi o 11 de setembro, mas nós em abril deste ano fomos a Nova York e fizemos questão de as levar ao Museu do 11 de Setembro. É curioso, recordo muito a forma como elas estavam espantadas. Não é que não soubessem que tinha existido, mas ali, nesse museu que está muito bem construído e nessa zona onde tu te encontras, a emoção e a humanidade disso tudo que aconteceu está muito bem.

Pedro, porque no fundo, e nós que vivemos isso enquanto jornalistas e percebemos naquela altura e percebemos agora, sempre que infelizmente há um atentado, felizmente não tão grave quanto este, mas que são tentativas de ataque à nossa forma de viver.

Exatamente.

Ao nosso modo de vida, ao nosso modo de estar na vida. E isso toca-nos e deve tocar-nos, porque são ataques à nossa liberdade e à nossa felicidade, se quiseres, enquanto cidadãos desse mundo. E é importante também que as novas gerações percebam bem o que aqui aconteceu e que esta memória não se perca.

E que Nova York também se voltou a erguer, que também é importante, precisamente para reforçar este nosso modo de vida. Ricardo, obrigado, bom trabalho.

Olha, eu gostei disto.

Olha, eu também gostei.

Gostei de voltar à História do Dia.

Bem-vindo de regresso à História do Dia e boa viagem de regresso.

Um abraço, obrigado.

Um abraço. Eu conversei com o Ricardo Conceição, subdiretor do Observador e enviado especial às cerimônias dos 25 anos do 11 de setembro. Uma das histórias que acabou por ser contada por estes dias é a das vítimas que não morreram naquele dia, mas que o 11 de setembro continua a fazer, muito por culpa das autoridades que, a nível local, estadual e nacional, mentiram à população sobre a qualidade do ar. Desde então, muita gente morreu com doenças que terão surgido por consequência dessa decisão, incluindo de vários tipos de câncer. Só agora estes documentos foram tornados públicos, 25 anos depois. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Tomás Ferreira, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até segunda-feira.

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