As Testemunhas

‘Estamos aqui, Sara,’ declaram todos os dias os jornalistas. Quando se pergunta ‘Aqui, onde?’, usamos o nome do sítio onde estamos, a que também chamamos temporariamente ‘aqui’ (ao mudar de sítio, ‘aqui’ passa a corresponder a outro nome). Ninguém se engana nessas coisas: quem está em Vouzela sabe geralmente que não está em Vizela; mas mesmo que não saiba, ou mesmo que não esteja, estará no sítio a que chama nesse momento ‘aqui.’ Nunca nos enganamos sobre ‘aqui:’ de facto, não nos podemos enganar: ‘aqui’ designa sempre o sítio onde eu estou.
‘Olha, o pôr-do-sol’, observam alguns jornalistas sem surpresa. Quando se lhes pergunta porque falam desse modo, dirão que, estando num sítio a que com razão chamam ‘aqui,’ viram o sol a pôr-se (como um ovo posto por uma galinha). O professor de astronomia corrigi-los-á mentalmente: não estão a ver o pôr-do-sol mas a terra a rodar de modo quase perceptível. A correcção é pernóstica, mas a frase ‘Olha, o pôr-do-sol’ não é exacta. Os jornalistas estão decerto ali a ver qualquer coisa, mas não aquilo que disseram que estavam a ver. Enganaram-se.
‘Olha, o pôr do sol,’ observaram outros jornalistas quando alguém que lhes disse que acabara de ver o pôr-do-sol. Como quase todos nós, este seu novo conhecimento também se enganou na astronomia. Não é um engano importante ou característico de jornalistas: a nossa maneira de falar de avistamentos solares não pressupõe compromissos com a astronomia. Mas deu-se uma confusão séria: os jornalistas transformaram a frase ‘Olha, o pôr-do-sol’ dita pelo seu conhecido na frase ‘Olha, o pôr do sol’ dita por si próprios. Em vez de dizerem “Alguém acabou de me dizer ‘Olha, o pôr do sol’” disseram ‘Olha, o pôr-do-sol.’ Terá sido engano?
Estes jornalistas confundiram as palavras que outros disseram com palavras que eles estão a dizer; e levaram quem lhe prestou atenção a achar que queriam dizer aquilo que outros tinham querido dizer. O erro astronómico da pessoa que ouviram falar transformou-se no erro astronómico de quem não distinguiu as opiniões daquela pessoa das suas próprias opiniões. É verdade que as opiniões sobre pôr-do-sóis não indignam quase ninguém. Os jornalistas no entanto cometeram um erro de astronomia sem necessidade, porque não se conseguiram distinguir de quem cometeu um erro de astronomia.
Enganos destes são sérios quando as opiniões expressas não são triviais. ‘Ai que lindo pôr-do-sol’, declarou não trivialmente a um jornalista um outro seu conhecimento recente. Ouvida a declaração, o jornalista declarou logo a seguir ‘Ai que lindo pôr-do-sol, Sara,’ fazendo suas todas as palavras do conhecimento recente. Ao proceder assim, o jornalista fez coincidir as opiniões da sua testemunha com a sua declaração; disse que avistou um lindo pôr do sol, mas a única coisa que avistou foram as opiniões da sua testemunha. Possivelmente a sua vontade de ser testemunha era grande, e esqueceu-se daquilo que tinha testemunhado.
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