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Tuesday, October 6, 2026

Francisco de Assis, o santo que morreu há 800 anos

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E o resto é história. É a pera espremida. Do incêndio em Pedra, ainda na zona das Chiares. E faz um filho. Falo por gosto. É que é pai. Vinho vermelho. Troco de nome. Pouco de amor. Quer transformar este país numa ditadura. Atento! Atento! Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de: E o Resto é História, com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Por este programa não costumam passar muitos santos, infelizmente. E penso que é mesmo a primeira vez que dedicamos um programa inteiro a um deles. Mas se há santo que merece, é mesmo este e merece muito. Estamos a falar de Giovanni di Pietro di Bernardone, que o mundo conhece por um outro nome, São Francisco de Assis. São Francisco nasceu na cidade italiana de Assis por volta de 1181 ou 1182, não se sabe ao certo, mas sabe-se ao certo o dia em que morreu, 3 de outubro de 1226. Faz agora uns redondíssimos 800 anos. E se trazemos hoje São Francisco para aqui, não é porque o resto da história se tenha transformado num programa de catequese, mas porque São Francisco de Assis e a Ordem dos Franciscanos mudou profundamente a igreja e, nesse sentido, marcou profundamente uma parte significativa do mundo a partir do século XIII. Rui, como é que um jovem italiano, que ainda ensaiou uma vida militar, que se converteu à vida religiosa tardiamente, que mergulhou na pobreza e fundou uma ordem mendicante, que morreu com apenas 45 anos, como é que este homem conseguiu ainda assim marcar tão profundamente a igreja e o mundo em que viveu, ao ponto de ser elevado a santo apenas dois anos após a sua morte? Portanto, quem foi Francisco de Assis? Porque é que, já agora, estamos a falar dele aqui hoje num programa que não é de teologia nem de religião, mas de história.

São Francisco de Assis, santo da Igreja Católica, mas além disso, uma figura sem a qual não percebemos uma parte da história da Europa desde o século XIII.

Foi assim tão importante?

É. É o fundador da Ordem dos Frades Menores, que nós conhecemos como franciscanos, mas ele é muito mais do que isso. É também a referência principal de um movimento, um movimento de espiritualidade que vai marcar profundamente, não apenas a religião cristã, mas a cultura secular europeia. Aliás, na medida em que essa cultura secular europeia também deve imenso à religião cristã.

Certo.

Só vou dar um exemplo que vou retomar no fim. Um grande historiador português do século XX, Jaime Cortesão, um dos grandes especialistas de história dos descobrimentos. Ele achava que a expansão portuguesa do século XV, isto é, os descobrimentos, tinha sido determinada, em termos de mentalidade, pelo impulso místico do franciscanismo. Isto é, que não era possível compreender as navegações e os descobrimentos portugueses sem ter presente a herança de São Francisco de Assis. Ele acha que tinha sido em parte essa herança que tinha definido a atitude com que os portugueses tinham-se descoberto e relacionado com as outras populações do mundo. Jaime Cortesão, que não é um crente católico, era um republicano, mas teve esta tese, uma tese historicamente discutida até hoje, da ideia de que os descobrimentos portugueses são o resultado do franciscanismo, de um movimento franciscano.

E tu compras essa tese?

Até certo ponto, vamos falar no fim. Mas penso que talvez, que essa tese, eu também a estive a expor aqui de uma maneira muito simples e muito grosseira, por assim dizer, penso que essa tese tem alguma coisa, é importante de alguma maneira, mas falaremos disso. Bem, o franciscanismo é, de facto, fundamental na história portuguesa e na história europeia. O movimento é iniciado em Itália, tem um impacto muito grande, imediato também na Europa e em Portugal, na Idade Média. Basta lembrar que o grande santo português, Santo António de Lisboa, é um dos primeiros companheiros de São Francisco de Assis em Itália, em 1221.

Estivemos lá representados.

Pronto. Portanto, o Santo António de Lisboa é um franciscano, quer dizer, isto dá ideia desse impacto. E por isso mesmo, os historiadores, mesmo os que não se dedicam à história religiosa, interessam-se por São Francisco, interessam-se pelos franciscanos. E há ótimos livros de história sobre São Francisco de Assis e vou já citar dois. O livro de Jacques Le Goff, um dos grandes historiadores franceses do século XX. É um livro publicado em 1999 e o de uma historiadora italiana, Chiara Frugoni. Os dois livros chamam-se "São Francisco de Assis", um em francês e outro em italiano, e estão ambos disponíveis e aliás, usei-os aqui para preparar.

Em português?

Não, em português.

Nas suas línguas originais.

Nas suas línguas originais e o de Chiara Frugoni também traduzido em francês. E usei-os aqui na preparação deste programa. São dois grandes livros, o de Jacques Le Goff e o de Chiara Frugoni. São dois grandes livros, livros pequenos, mas muito interessantes. As fontes são muitas.

Sobre São Francisco?

Sobre São Francisco. Há os escritos dele, de São Francisco de Assis, em latim, italiano, sermões, cartas, poemas, cânticos. Há depois muitas biografias de São Francisco de Assis escritas por companheiros dele, por gente que o conheceu.

Ou seja, seu impacto foi tão grande, que permite a preservação das fontes.

Sim, porque ele morre em 1226 e em 1228 é santo. Quer dizer, de repente é um santo, um santo que muita gente conheceu, com quem muita gente esteve. Essas pessoas querem deixar testemunhos. Aliás, a própria ordem franciscana Pede esses testemunhos. Não é fácil interpretar, porque há várias correntes mesmo dentro da ordem franciscana e no meio desses conflitos entre interpretações do que São Francisco de Assis cria, por vezes perdem-se determinadas fontes. Por exemplo, mais tarde, a ordem manda destruir uma grande parte das fontes, porque já não corresponde à visão oficial que então havia, mas algumas são recuperadas pelos historiadores no século XIX e no século XX, quando volta a haver um grande interesse pela história de São Francisco. São Francisco nasce no norte da Itália, no fim do século XII. E aqui acho que temos que começar pelo contexto. Não podemos começar pela pessoa, mas acho que temos que começar pelo contexto, porque isso ajuda muito, porque nós temos uma ideia errada do contexto. Nós estamos habituados a imaginar a Idade Média, uma época de trevas, obscurantismo, pobreza, por oposição à época do Renascimento do século XV, em que tudo parece luz, riqueza, grandes construções. Bem, isto é uma ideia que um historiador americano, Charles Homer Haskins, começou a contrariar em 1927 com um livro de título muito provocador, que se chama "O Renascimento do Século XII". Portanto, ao Renascimento do século XV, ele aqui diz que é o renascimento do século XII. É um livro ótimo, aliás, ele escrevia muito bem, é um professor da Universidade de Harvard. Ele hoje já não está sozinho entre os historiadores. Nós hoje sabemos que os séculos XII e o século XIII são séculos na Europa Ocidental, de crescimento da população, de inovação tecnológica na agricultura. Por exemplo, a divulgação do arado de rodas puxado por cavalos acontece nesta altura, o que aumenta, obviamente, a capacidade de lavrar as terras e a produtividade, de expansão da área cultivada. Portanto, está-se a cultivar mais terras na Europa, do aumento da população nas cidades. As cidades mudam, o Jacques Le Goff chama a atenção para isso, até para explicar São Francisco de Assis. Por exemplo, a maior parte daquilo que nós chamamos cidades na Europa, na antiguidade, eram, sobretudo, centros militares e administrativos do Império Romano. Verdadeiramente as cidades europeias como centros econômicos, aglomerações de comerciantes, de artífices, centros industriais, nascem nestes séculos XII e XIII. É então que se formam as cidades europeias com o aspecto que têm hoje e começam a atrair muitos imigrantes do campo. Isto é, pessoas que vêm do campo para as cidades. Há uma primeira vaga limitada em relação àquilo que vai acontecer séculos depois, mas uma primeira vaga de urbanização. Isto é uma Europa que está a enriquecer, o que se reflete em muitas iniciativas. É quando começam a ser construídas as grandes catedrais europeias, século XII, XIII, aquelas grandes catedrais góticas é desta época. Fundam-se as universidades. A maior parte das grandes universidades históricas europeias datam desta época: a Universidade de Coimbra, a Universidade de Oxford, a Universidade de Cambridge, a Universidade de Paris, são desta época. Portanto, é uma Europa com mais recursos e também, isto é o mais interessante, com mais interesses, interesses espirituais e interesses intelectuais. E, portanto, há discussões. Tenta-se disciplinar a discussão sobre essas questões nas universidades, através do recurso à razão, à dialética, como eles chamam. Quer dizer, que eles aprenderam dos gregos. Portanto, em vez de se basearem simplesmente na citação dos textos sagrados, começam a introduzir a argumentação, o sentido que a argumentação faz em termos racionais. Obviamente, para eles, a fé e a razão não estão em contradição, estão em harmonia. Portanto, não é uma heresia recorrer à razão. É então que aparece aquilo que se chama a escolástica, quer dizer, precisamente o uso da dialética para discutir questões que anteriormente teriam sido resolvidas pura e simplesmente recorrendo à autoridade dos textos sagrados. Agora, há discussão. E há um ambiente de expansão, que se nota logo nas expedições militares europeias, quer à Palestina, quer ao Egito, as Cruzadas, quer na reconquista cristã da Península Ibérica. É no século XIII que Córdoba, que tinha sido a capital do califado na Península Ibérica, cai nas mãos dos cristãos em 1238, Sevilha cai em 1248, o Algarve cai em 1249. Portanto, a expansão da Europa cristã, essa Europa que durante séculos tinha sido mais pobre, menos povoada do que este mundo mediterrâneo dominado pelo Islão e que agora está suficientemente dotada para lançar-se à conquista desse mundo mediterrâneo. E o norte de Itália, onde São Francisco nasce, é uma das zonas mais prósperas da Europa no princípio do século XIII. Isto é importante ter isto presente. Costuma ajudar ao pensamento. Por quê? Sim, também costuma ajudar. Exato. Mas também por isto: esta prosperidade vai criar uma grande agitação intelectual e espiritual, que é também uma espécie de resultado de uma expectativa de renovação criada pela própria prosperidade. Isto é, a prosperidade cria esta ideia de um novo mundo. a entrar numa nova época. E quem está a protagonizar esse espírito de renovação é a própria Igreja, são as próprias autoridades eclesiásticas que estão a promover isso. Jacques Le Goff chama a atenção para isso. Há dois papas decisivos nesta época, no fim do século XII, Gregório VII, no princípio do século XIII, Inocêncio III. Estes papas reúnem concílios gerais, que era uma coisa que tinha sido abandonada quase desde a antiguidade. Voltam os concílios gerais e eles tentam uma renovação da Igreja, tentam mudar a Igreja, tentam descolar o clero do mundo dos guerreiros feudais, separar o clero, nomeadamente através do celibato eclesiástico, isto é, separar a classe eclesiástica da classe dos guerreiros, precisamente através dessa opção pelo celibato. Afirmar a independência da Igreja perante o imperador, o sucessor do imperador romano, o imperador do Sacro Império Romano-Germânico, que é na prática, um príncipe alemão. Lançam, estes papas, o tema que vai depois ser adotado por muitos leigos à procura de uma renovação espiritual, o tema do regresso ao princípio, do regresso aos tempos evangélicos. Do regresso à forma primitiva, é assim que eles dizem. À vida apostólica. E este projeto, lançado pelos próprios papas, suscita muitas interrogações, muitas dúvidas nalguns, mas muita especulação e muita expectativa. E portanto, surgem de repente muitos movimentos, alguns que mais tarde virão a ser condenados pelos próprios papas como heréticos, mas muitos movimentos que tentam corresponder a esta ideia. É preciso renovar.

É neste ambiente fervilhante que aparece Francisco.

Que aparece Francisco. Francisco não é um clérigo, é um leigo. É muito importante notar isso. Ele nunca foi um padre, é um leigo. Num primeiro momento, ele é o filho de uma família de comerciantes ricos desta Itália central, da Úmbria. Aspira a ser um guerreiro, portanto, na prática, embora seja filho de uns comerciantes, provavelmente aspira à vida de um aristocrata militar, muito influenciado pela cultura da cavalaria. Aliás, o seu nome, como disseste, não é Francisco, é João. Francisco quer dizer literalmente francês. O nome quer dizer francês. E será um cognome derivado da sua preferência pela língua da poesia dos trovadores, provavelmente também pelo fato do pai fazer negócios em França. O pai é um comerciante de sedas, faz muito negócio em França, mas basicamente o nome dele é o francês, é o cognome, é o francês. Francisco é o francês. Tornou-se um nome próprio, muito popular por causa dele, não existia antes. É um cognome dele, é o francês.

São Francisco de Assis, também originou a era dos franciscos?

Também originou a era dos franciscos. Ele tem esta preferência pela França, pela língua da poesia dos trovadores, que teve um grande impacto na cultura da aristocracia italiana. É essa carreira que ele quer seguir. Ele envolve-se em guerras, guerras civis dentro da cidade de Assis, e depois na guerra entre a cidade de Assis e a cidade de Perugia, em 1202. Nessa altura, ele é feito prisioneiro, tem 20 anos, fica um ano preso em Perugia, depois volta, participa em outras expedições militares e é numa dessas expedições militares, é assim que a história é contada, em 1205, que ele vai, encontra um pobre que lhe pede uma esmola e ele não dá apenas uma esmola, dá tudo ao pobre. Depois, quando chega a casa, vende as mercadorias do pai para dar dinheiro a um padre para reconstruir a igreja, acaba por renunciar a todos os seus bens. O pai não acha graça nenhuma a isto. E ele diz: "Sim, senhor, deixo tudo". Despe-se completamente, fica nu, entrega tudo ao pai, para começar uma nova vida. Há toda aqui uma série de atos quando ele muda, há uma série de atos que mostram a ultrapassagem de si próprio. A mais conhecida é o famoso beijo ao leproso, 1205. Francisco, como um cavalheiro rico, aspirando à fidalguia, tem obviamente um nojo enorme dos leprosos que proliferam nas ruas a pedir esmola nesta altura. E aquilo que lhe acontece em 1205, quando vê um leproso, é levado a beijar o leproso e o testemunho dele é que isso libertou-o completamente. Isto é, ele ultrapassou a sua maior repugnância, o beijo ao leproso, e é também vencer o seu próprio ego, os seus preconceitos, as suas resistências à realidade. Ele vence isso completamente e é a partir desta altura que ele se torna o Poverello, o pobrezinho, e percebe que sua missão é pregar. Ele tem, nesta altura, 26, 27 anos, que sua missão é pregar, isto é, anunciar ao mundo essa revelação, ou esse impacto grande que ele teve dessa sua experiência.

Certo. E estes impactos vão regressar após um breve intervalo. Até já. Olá, seja bem-vindo de volta a esta segunda parte de "E o Resto é História". Nós estamos a falar de São Francisco de Assis e dos 800 anos da sua morte E estamos aqui a explicar como é que um santo conseguiu marcar profundamente, não só a história do seu tempo, mas também dos séculos que se seguiram. Portanto, ele acabou de beijar um leproso, ficou conhecido como o pobrezinho, mas não ficou sozinho, não é?

Não ficou sozinho. Por volta de 1206, 1207, 1208, várias pessoas vão se juntar. Provavelmente rapazes como ele, até talvez com as mesmas origens, querem imitá-lo. Eles vão fundar um ermitério, uma espécie de cabana, num sítio chamado Portiúncula, próximo de Assis, e vão se dedicar a esta vida de pobreza, de despojamento total. E o ponto é que ele não é o único. Há muitos leigos na Itália, na Alemanha, na França, no fim do século XII e princípio do século XIII, a fazer a mesma coisa, isto é, a despojarem-se de todas as suas relações com o mundo profano, sobretudo as riquezas, e a passarem a uma vida de piedade, de oração, de trabalho, às vezes, manual, em comunidade. Por exemplo, em Lyon, na França, em 1173, portanto, umas décadas anteriores, um comerciante rico, Pierre Valdo, tinha renunciado também a todos os seus bens e tinha criado um movimento chamado Os Pobres de Lyon, que são os Valdenses, que é um movimento, aliás, que ainda existe, que vem até hoje. Isto está a acontecer em vários locais ao mesmo tempo, pessoas a terem esta ideia. O que eles querem atingir com esse despojamento? O que eles querem atingir é o mote que os papas também tinham dado, que era o regresso a Cristo, o regresso à vida apostólica, o regresso à vida que eles liam nos evangelhos. Aliás, não é por acaso que em Assis, no ermitério, a história diz que São Francisco e os companheiros são 12. Claro, é um número significativo, porque é os 12 apóstolos. Mas a grande ideia de São Francisco, que é a grande ideia de várias outras figuras ao mesmo tempo, é esta: regressar a Cristo, às origens do evangelho, e viver como Cristo. Isto é, viver como ele viveu. Aliás, essa é uma ideia forte que vai inspirar o cristianismo durante muito tempo, até Kierkegaard, no princípio do século XIX, quando Kierkegaard diz: "Reparem, Cristo não ensinou a doutrina, ele não era um doutor, não veio ensinar a doutrina. O que Cristo disse às pessoas foi: 'Segue-me'". Isto é, ele deu um exemplo, não ensinou. Desculpem este salto de séculos, mas às vezes permite-se perceber melhor. Para Kierkegaard, o cristão não é aquele que sabe a catequese, nem é aquele que sabe a doutrina da igreja. O cristão é aquele que vive como Cristo. Esse é que é o cristão. Porque como Cristo disse: "Segue-me". Isto é, faz como eu. Aquilo que Kierkegaard pensa que os cristãos iam fazer, é aquilo que São Francisco também pensava, provavelmente, que os cristãos deviam fazer no princípio do século XIII, que é viver como Cristo e adotar duas das características dessa vida cristã original. Primeiro, a pobreza, o despojamento, até o trabalho manual. E segundo, a pregação, a evangelização, converter os outros, falar com os outros.

Esses todos é mesmo toda a gente.

É toda a gente. Esta é uma pregação que se dirige a todos, aos fiéis e aos infiéis. Não é aquilo que os padres na igreja fazem, a missa para os fiéis. Não, isto é uma pregação fora da igreja, nas ruas, nos campos, para toda a gente. Como diz: "Deus é o teu vizinho, Deus está em todos os homens". Dirige-se a toda a gente. E tem como base esta pregação para todos, a ideia muito sublinhada por São Francisco, da irmandade de todas as criaturas, até das inanimadas, como no seu Cântico do Irmão Sol, de 1224, que é o irmão sol, a irmã lua, o irmão vento, até a irmã morte, também é uma irmã. Todos devemos estar abertos a tudo. É louvar Deus em tudo o que existe. Tudo foi criado por Deus, portanto tudo deve ser estimado. Está a ideia hoje em dia, até a igreja católica contribui para isso, com a ideia de São Francisco, o primeiro ecologista, isto é, ver na natureza, Deus. Ele tem cenas famosas da lenda de São Francisco, uma pregação aos pássaros, depois o Santo Antônio vai pregar aos peixes. Isto não é apenas a ideia de, às vezes, o Antônio Vieira interpreta a pregação aos peixes: "Os homens não me ouviram, vou pregar aos peixes". Aqui não é isso. Aqui é mesmo: "Vou falar com todos e com tudo".

Porque tudo foi criado por Deus.

E Deus criou o mundo, como ele diz, no amor e na alegria, e é isso que tem que se descobrir na criação. E depois, por exemplo, aquela famosa história do lobo de Gúbio, que é uma cidade italiana, que aparentemente, por volta de 1220, haveria um lobo ferozíssimo, enorme e feroz, que andava à volta da cidade e comia toda a gente que se atrevia a sair da cidade. Os habitantes estão todos horrorizados, e é São Francisco que vai falar com o lobo. Isso é depois representado muitas vezes na pintura. São Francisco vai falar com o lobo e diz: "Olhe, não faças mal a toda a gente, nós somos todos iguais, também tu, irmão lobo". Ele vai falar com o irmão lobo. Irmão lobo, se não nos comeres, é até um pecado, porque os homens foram criados à imagem de Deus, portanto estás a comer homens, não é uma boa ideia. E se não comeres, nós alimentamos. E o lobo acha: "Excelente ideia". Dá-lhe a pata e a partir daí, o lobo começa a ser alimentado pela cidade e deixa de comer as pessoas. Isto era uma daquelas histórias que se contam todas de São Francisco, que ele vai ser representado na pintura com este lobo.

Como a grande inspiração do movimento ecológico.

Sim. Há muita outra coisa que nós devemos a São Francisco, por exemplo, o presépio. O presépio com animais é São Francisco de Assis que populariza esse gênero de representação, quando ele faz em 1223, em Greccio, outra cidade italiana, ele faz um grande presépio, que representa muita coisa, além de ter os animais, que é uma coisa que ele É ele que tem essa ideia de pôr lá os animais também. Com as pessoas estão também os animais. Aquela ideia de que se pode adorar Deus. Deus não nasceu apenas na Palestina, mas está em todo lado, o Natal é em todo lado. E depois, claro, a adoração do menino Jesus, Cristo como menino, como a figura mais inocente de todas, o começo de tudo, a criança. Adorar Deus dessa forma, o Santo Antônio, o franciscano, vai ser sempre representado com o menino Jesus, com a visão de Deus como uma criança.

A representação de Jesus e Deus como uma criança também é a partir de São Francisco de Assis?

Não quer dizer que não existisse antes, mas é reforçada pelo movimento franciscano. Quer o presépio, também havia já ideias desse presépio, mas é a partir dali que se torna a maneira popular de viver o cristianismo. A mensagem franciscana também é uma mensagem de cruzada, não da cruzada militar, mas de uma cruzada de paz. É uma grande ideia de São Francisco de Assis, converter os muçulmanos. Ele tenta chegar a Marrocos em 1212, não consegue porque adoece, mas vai viajar até o Egito em 1219, no âmbito da Quinta Cruzada, que ataca o Egito, ele junta-se a essa cruzada. Mas para falar, não é para combater. Ele vai se encontrar com o sultão do Egito, que o recebe. O sultão do Egito recebe-o porque pensa que ele é um embaixador dos cruzados, que ele vem propor algum tratado ou uma coisa qualquer assim. Mas depois, no meio do contato, percebe que ele está a tentar convertê-lo. E então há, na corte, aparentemente, entre os muçulmanos, quem esteja a pensar: "Isto não é um embaixador, portanto, devemos mandar matar um tipo que tem a lata de vir aqui tentar converter o líder dos crentes". Mas o sultão, aparentemente, acha graça e acha que não, e deixa São Francisco voltar. Mas ele tem esta ideia, de falar com os muçulmanos, tentar convertê-los sem ser pela força. E os franciscanos vão estar associados depois à Terra Santa. São eles que hoje ainda têm a custódia da Terra Santa, também falámos aqui hoje nisso. Desde 1217, a Igreja encomendou aos franciscanos a guarda dos lugares santos na Palestina. Este movimento está também associado a uma expectativa enorme da conversão. É um ambiente um pouco apocalíptico, representado por um outro leigo que vai ter uma grande influência no cristianismo também, que é Joaquim de Fiore. Nasceu no sul da Itália, em 1135, morreu em 1202. Tal como São Francisco, é um leigo, um notário, mas ele tem uma visão por volta de 1159 e dedica-se depois à pregação também, tal como São Francisco de Assis. E Joaquim de Fiore traz a ideia, que é uma ideia que vai ter um impacto muito grande na Europa dos séculos 13, 14, 15, que é a ideia que o mundo está na véspera de entrar numa terceira idade. Tinha havido três idades do mundo, que são as idades que correspondem às pessoas da Santíssima Trindade, portanto, a idade do Pai, que é a idade do Velho Testamento, a idade do Filho, do Novo Testamento, e agora se ia centrar na idade do Espírito Santo. E a idade do Espírito Santo é a idade em que todos, fiéis e infiéis, se vão unir no amor de Cristo. Portanto, é uma idade de consenso. O movimento franciscano, embora Joaquim de Fiore seja anterior, vai ser muito marcado por esta ideia de uma nova idade que vai surgir, em que os franciscanos são a vanguarda dessa idade, uma idade de conversão do mundo e de amor, até mesmo quase do fim da Igreja e dos pastos, porque toda a gente se torna Igreja, toda a gente está em sintonia. É importante sempre notar isto: São Francisco não é um padre. É um leigo que começou a pregar.

Convém explicar às pessoas a diferença entre um padre e um monge. O padre tem a possibilidade de administrar sacramentos, coisa que o monge não tem.

Exato. E São Francisco, antes de ser monge, já tinha começado a pregar. Antes de ser monge, de se tornar o frade de uma ordem religiosa reconhecida pelo papa, ele já tinha começado essa sua pregação. Nós não sabemos exatamente o que ele está inicialmente a pensar fazer. Pode estar a reunir apenas um grupo de leigos dedicados a esta vida religiosa de pobreza, pregação, cuidar de leprosos, cuidar dos pobres. Sabemos que ele, por volta de 1209, terá escrito uma regra de vida, as regras para a vida em comum dos seus companheiros, a imitar aquilo que São Bento, o pai da vida monástica europeia ocidental, talvez tenha feito. Com os beneditinos. Aquilo que ele vai acabar por fundar é, de facto, aquilo que nós chamamos uma ordem religiosa integrada na Igreja, a que se deu o nome de Ordem dos Frades Menores. Frades Menores são os irmãos mais pobrezinhos, em secundários. É essa a ideia de humildade que ele quis. Nós somos apenas os mais pobres de todos, que vai ser aprovada pelo Papa Inocêncio III, em 1210. Uma grande parte do sucesso de São Francisco de Assis vem também do apoio que lhe dá o Papa Inocêncio III.

Que ele é acolhido muito rapidamente pela Igreja.

Muito rapidamente em Roma, Assis é relativamente perto de Roma. E Inocêncio III podia tê-lo visto como um herege, mas viu-o como alguém que corresponde um pouco à ideia de renovação que o próprio Inocêncio III tem da Igreja. E é então que aparece o frade franciscano com a sua túnica castanha ou cinzenta, com o capuz, sandálias, eles não andam calçados, andam com sandálias e com uma corda à cintura. Repito, não é o único. Há quem esteja a fundar o mesmo tipo de ordem, onde é também excluída a propriedade e os rendimentos, como por exemplo, São Domingos de Gusmão, um cónego castelhano, que é ativo no sul de França e que em 1216, na mesma época, vai fundar a Ordem dos Pregadores, os dominicanos. Os franciscanos não são só a ordem dos frades menores. Em Assis, São Francisco vai estabelecer contatos e colaboração com a filha do Conde de Sasso-Rosso, Clara Offreduccio, que aos 18 anos vai optar também por se tornar uma seguidora de São Francisco. Isso também é história conhecida. A família quer ela casar, ela não quer casar. Tentam obrigá-la, até o momento em que ela tira o véu e a família vê que ela tinha cortado o cabelo, que era o sinal de despojamento, de rutura com a vida profana, e então percebem que tinham-na perdido e deixam. São Francisco vai colocar Clara Offreduccio num mosteiro beneditino, mas depois ela vai fundar uma outra ordem, que é a Ordem das Senhoras Pobres, mais tarde chamada Ordem de Santa Clara, as Clarissas, que é uma espécie de ordem feminina dos franciscanos, que tem esta diferença dos franciscanos. Eles não fazem pregação e vivem nos conventos, em clausura. Era diferente. E depois existe também, desde 1221, desde cedo, uma ordem terceira, que é uma ordem para leigos que não possam fazer votos religiosos ou não queiram fazer votos religiosos, ou acham que não estão em condições de fazer votos religiosos, como por exemplo, pessoas casadas, e que podem fazer parte desta ordem terceira de São Francisco, que também se torna extraordinariamente popular em toda a Europa e também em Portugal. O que é que distingue estas ordens religiosas dos beneditinos e das ordens religiosas anteriores? Os frades, como estes frades franciscanos, não são monges de mosteiros, não vivem nos mosteiros dedicados ao estudo, ao canto, como por exemplo, os monges da Ordem de Cister, as missas, é isso que eles se dedicam ao canto. Isto são pregadores, pobres, nômades, ordem mendicantes. Não podem ter propriedades, ao contrário dos mosteiros. Não podem ter rendimentos, sequer. Eles devem viver na pobreza, devem chegar às cidades e dizer: "Vêm pregar", e devem viver daquilo que as pessoas lhes dão ali. Não devem ter mais nada. E como é que eles falam às pessoas? Isto também é importante, de acordo com São Francisco. Eles vão falar aos que acreditam e aos que não acreditam, a toda a gente. E o estilo não é doutrinário, não é o catequista. É um estilo poético. Eles querem suscitar, sobretudo, o encantamento, o êxtase, o entretenimento, até. E é por isso que São Francisco é comparado a um jogral. A um cantor, a um entertainer, a um comediante. É o jogral de Deus. É como ele diz: é o jogral de Deus. É alguém que vem dar alegria às pessoas, trazê-las para a fé através do êxtase de um espetáculo. Eles vão apurar muito, os franciscanos e depois também os dominicanos, o lado teatral da pregação, o lado do espetáculo. Aliás, o jogral de Deus é o título do filme do Roberto Rossellini, de 1950, "Francisco, jogral de Deus". Em 1950, Roberto Rossellini faz a adaptação cinematográfica sem ironias, de uma maneira extraordinariamente séria, da lenda de São Francisco, dos vários momentos da lenda de São Francisco. E aquilo é filmado com uma pureza total. Aliás, o filme tem um impacto enorme no cinema italiano e europeu. François Truffaut achava que era o mais belo filme alguma vez feito. Ele tenta filmar as coisas como eram vistas, com São Francisco e os seus companheiros, aquela simplicidade, aquela coisa toda, e sem ironias modernas de maneira nenhuma. É o cinema a tentar ter os olhos do século XIII. É uma experiência a preto e branco, uma coisa extraordinariamente bonita de ver. Os franciscanos são também uma ordem urbana, do novo mundo das cidades em expansão. Francisco era, aliás, originário deste novo mundo, era o filho do negociante, e o Papa Inocêncio III acolhe imenso esta ordem, tal como a ordem dos dominicanos, dos pregadores. O Vaticano, nesta altura, está numa época que eles percebem, os papas, que é uma época de indisciplina, de heterodoxia, inovação. Por exemplo, os valdenses vão ser declarados heréticos em 1215.

Sim.

Mas os franciscanos, não. E isto apesar de São Francisco ter chegado A exprimir-se de maneira que podia autorizar essa visão um pouco mais severa da parte do clero, porque São Francisco, em determinado momento, ele e os seus seguidores, dizem que São Francisco tinha recebido os estigmas de Cristo, isto é, as feridas de Cristo. Isso acontece por volta de 1224, 1225. São Francisco de repente tem nas mãos e nos pés as feridas que Cristo teria tido quando está pregado na cruz. Nesse momento, há uma identificação do seu próprio corpo com o corpo de Cristo na cruz.

Isso podia criar mal-entendidos.

Mas não é em grande medida, porque os franciscanos aceitam, não põem em causa a hierarquia eclesiástica, aceitam os sacramentos, ao contrário dos valdenses. Os valdenses contestam a autoridade dos bispos, começam a ter ideias sobre o papel do clero. Nós não sabemos exatamente o que é que os valdenses nesta altura pensavam, porque só conhecemos aquilo que eles pensavam através de fontes inquisitoriais, portanto, é o adversário a atribuir-lhes ideias, não sabemos exatamente. Mas é claro que os franciscanos estão disciplinados, estão integrados numa igreja de uma maneira que os outros não estão. Agora, a partir do século XIX, um pouco antes, talvez. Os valdenses, aqueles homens pobres de Lyon, do século XII, são hoje vistos quase como um movimento protoprotestante.

Ok.

E de facto, aquilo que resta dos valdenses no século XVI vão aderir ao calvinismo em França. Portanto, há uma ligação. Acho que não vale a pena estarmos aqui com questões de genealogia religiosa. Agora, podemos dizer o seguinte: se no século XII há um renascimento, como houve um renascimento no século XV, um renascimento nas artes, na literatura, etc. Também acho que podemos pensar que no século XIII houve uma reforma, como houve uma reforma no século XVI. E essa reforma é protagonizada por estes movimentos como os de São Francisco, de São Domingos. E São Francisco é um dos reformadores desta época. É uma reforma dele que não vai dividir a Igreja, é absorvida pelos papas, como Inocêncio III. Talvez porque esta reforma do século XIII não colocou questões doutrinais tão divisíveis como a reforma luterana do século XVI, a questão da salvação pela fé ou a questão da natureza dos sacramentos. Isto não foi levantado pelos franciscanos e por esta gente dedicada à pobreza, mas há o mesmo impacto e a mesma sensação, e isto é que é o mais importante, de que a Igreja tinha sido recriada naquele momento. E isso é muito claro, por exemplo, no princípio do século XIV, na "Divina Comédia", de Dante Alighieri. Dante vai dedicar a São Francisco de Assis um capítulo, um canto inteiro da terceira parte da "Divina Comédia", que é o paraíso. Portanto, ele dedica-lhe um canto inteiro a contar a história de São Francisco de Assis. Não faz isso com mais nenhuma personagem da "Divina Comédia". Ele conta a história de São Francisco de Assis. E diz aí em verso, uma coisa que se dizia na tradição franciscana, que era: "a pobreza esteve viúva durante 1100 anos até chegar São Francisco de Assis". A pobreza, isto é, a pobreza evangélica, imaginada como uma mulher que esteve viúva desde que Cristo morreu, durante 1100 anos, à espera do novo marido. E esse marido aparece, é São Francisco. Portanto, a ideia de São Francisco de Assis como um segundo Cristo, como um segundo momento da história do cristianismo, já é muito clara ali e vai ter um impacto grande, por exemplo, no século XIX, quando há uma parte dos intelectuais e das classes letradas europeias que se começam a afastar do cristianismo tal como ele é vivido nas igrejas, quer católicas, quer protestantes, mas que ainda querem manter ou acham que devem manter uma ligação ao cristianismo e é através de São Francisco de Assis que essa ligação se estabelece. Isto é, ele torna-se de repente uma figura de fascínio para leigos, para gente afastada da Igreja, mas que acha que há qualquer coisa no cristianismo que ainda é preciso manter. E é São Francisco que representa isso. Aliás, ele é um dos santos da Igreja que os luteranos, os anglicanos vão manter a veneração a este santo. E, por exemplo, um historiador da Idade Média como George Duby, quando ele, no "Tempo das Catedrais", que é um grande livro sobre a Idade Média, tem páginas extraordinárias sobre São Francisco de Assis. George Duby diz basicamente: São Francisco de Assis refundou o cristianismo no princípio do século XIII. E diz mais: a maneira como nós hoje olhamos para o cristianismo é, de facto, um produto de São Francisco de Assis.

A versão mais pura.

Aquilo que nos apela do cristianismo, a versão que mesmo um não cristão pode estimar, dizer: "Não, isso é muito bonito, isso é muito interessante. Sim, isso vale a pena manter. Isso não se pode perder. O resto não me interessa, mas isso não". Portanto, mesmo os não crentes O que São Francisco faz e aquilo que ele fica a representar no século XIX, quando há um afastamento da intelectualidade europeia em relação ao cristianismo, é aquela parte do cristianismo que lhes pareceu genuíno, puro, impressionante, que é este o despojamento, o beijo ao leproso, a humildade, a alegria, o amor de todas as criaturas, etc. É algo que mesmo estes não crentes não querem deixar. É uma espécie de: "Não, isto mesmo uma cultura secular precisa de manter".

E o apelo foi tão grande que ainda durante o tempo de vida de Francisco de Assis, os franciscanos espalham-se por todo o lado.

Sim, vão espalhar-se por todo lado, vão chegar à Península Ibérica, 1212. Por volta de 1217, nós já sabemos que há franciscanos em Guimarães, em Coimbra, em Alenquer, e tem a ver com a história de Santo António. Santo António, Fernando Martins de Bulhões, nasceu em Lisboa em 1190. Ele era de uma ordem também. Não era um leigo, já era um membro de uma ordem, que é a Ordem dos Cônigos Regrantes de Santo Agostinho. Ele estava no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Esta ordem é uma ordem nova também, é uma ordem de estudiosos, de eruditos. Santo António é um estudioso da escolástica, da teologia. Ele tinha estudado no Mosteiro de São Vicente, fora em Lisboa, depois está no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. E é no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra que por volta de 1219, terá passado pelo hospital do mosteiro, que é uma espécie de hotel onde ficam pessoas que passam, um albergue, digamos assim, um grupo de cinco frades franciscanos que se dirigiam da Itália para Marrocos com a ideia de converter os mouros. Eles chegam a Marrocos, são assassinados, são todos mortos e ficam a ser os Santos Mártires de Marrocos. Os seus ossos são depois trazidos para Coimbra, onde ficam como relíquias. E a história, a experiência de ter visto estes apóstolos franciscanos, impressiona imenso o Fernando Martins. Fica tão entusiasmado que quer ser também um apóstolo. Pede logo a admissão, em 1220, na Ordem dos Frades Menores, para ir para Marrocos fazer aquilo que eles fizeram. Ele vai para Marrocos, vai adoecer. Aliás, São Francisco de Assis também tentou ir para Marrocos e também adoeceu e acabou por não ir para Marrocos. Portanto, de Santo António também conta-se a mesma história. Quer ir para Marrocos, adoece, tem de voltar de Marrocos, o barco no Mediterrâneo acaba por ser desviado para a Itália. Ele chega à Itália em 1221, desviado da sua expedição a Marrocos, mas a tempo de ver uma assembleia da Ordem dos Frades Menores, um capítulo da ordem reunida por São Francisco, e integra-se nessa assembleia. São Francisco pede para ele ensinar teologia aos frades. Isto é interessante porque alguns historiadores acham estranho, porque São Francisco aparentemente despreza a escolástica, o saber, mas talvez nesta altura tenha pensado que valesse a pena os frades aprenderem alguma coisa. E Santo António depois acaba também por pregar. Causa uma enorme sensação a sua pregação. Aliás, muitos dos seus sermões existem sob a forma de apontamentos, que vão ser impressos a partir do século XVI, com imensas edições por toda a Europa, em latim. Ele vai morrer em Pádua em 1231, cinco anos depois de São Francisco. Também é logo canonizado pelo Papa Gregório IX em 1232, um ano depois é canonizado. Ele morre em Pádua, fica sepultado em Pádua e os fiéis levantam-lhe uma enorme basílica à volta do seu túmulo, e daí ficar também conhecido por Santo António de Pádua. Embora seja Santo António de Lisboa. E em 1946, o Papa Pio XII vai proclamar Santo António um Doutor da Igreja, um dos Doutores da Igreja, um Doutor Evangélico. Isto é uma coisa curiosa, porque no século XIX e XX, uma parte da cultura intelectual portuguesa vive angustiada com o facto de Portugal estar à margem, no século XIX e XX, da grande cultura de vanguarda europeia. E curiosamente, na Idade Média, com Santo António, estava nitidamente na vanguarda dos movimentos de vanguarda intelectuais e espirituais da Europa. O franciscanismo tem um impacto grande em Portugal. Há grandes conventos, Lisboa, Porto. Os papas depois vão dispensar os franciscanos dos votos de pobreza para eles terem as propriedades e rendas necessárias a manter um convento. Isso vai dar um grande debate teológico, aliás, dentro da ordem, e uma separação entre os frades conventuais, mais dedicados à teologia, e os frades espirituais ou rigoristas, aqueles que querem manter supostamente aquilo que era a missão original. E isto é uma divisão que já existia no tempo de São Francisco, entre os frades espirituais e os frades conventuais, isto é, aqueles que vivem no mundo sem nada, absolutamente nada, andar terra em terra, nômades, a falar com as pessoas, e aqueles que vivem nos conventos já com Com propriedades, etc.

E depois aproveitaram a expansão para chegarem mais longe.

No século XVI, há conventos de franciscanos em todo o mundo onde os portugueses e também os castelhanos chegaram, nas ilhas do Atlântico, na Índia, no Brasil, em África. É aí que Jaime Cortesão, o historiador dos descobrimentos, vem com a sua tese de que as ideias de São Francisco, as ideias dos franciscanos, teriam dado a alguns dos promotores da expansão, esta ideia de que aquilo que se estava a fazer era não apenas estabelecer relações comerciais e outras com o resto do mundo, mas preparar o advento da nova idade do mundo, a cidade do Espírito Santo, isto é, a conversão do mundo. Portanto, que essa expansão seria também uma via para a redenção final da humanidade. E na expansão portuguesa, por exemplo, uma das coisas que às vezes é atribuída a esta tradição franciscana é o culto do Espírito Santo, que é muito popular em Portugal e que vem desta espiritualidade franciscana. É muito popular nas ilhas, é muito popular no Brasil e vem deste impacto franciscano. Sabemos também, por exemplo, que Cristóvão Colombo é muito influenciado por Joaquim de Fiore e pelas ideias franciscanas. O descobridor da América está muito com a ideia de que aquilo que ele está a fazer ao descobrir o novo continente é preparar uma nova idade do mundo. Isto dá-nos uma ideia, talvez curiosa, que é que estes navegadores do século XV eram um pouco como os empresários da inteligência artificial hoje. Isto é, estão convencidos não apenas que estão a trazer inovações técnicas e novas funcionalidades, novos instrumentos, mas estão a criar uma nova época para a humanidade. Isto é uma expectativa que, tendo animado os empresários da tecnologia hoje, animou provavelmente também os navegadores do século XV. É por esta via que eu penso que talvez Jaime Cortesão, aquilo que ele diz talvez valha a pena explorar essa via mística, a dimensão mística das inovações, por mais técnicas, por mais materiais que elas sejam, mas as pessoas não vivem só de pão, vivem também de mais do que isso e precisam sempre de pensar que aquilo que estão a fazer corresponde a uma transformação maior da humanidade. E São Francisco de Assis, a partir do século XIII, aquilo que ele representa é essa expectativa de uma transformação da humanidade em algo completamente diferente, mas que corresponde, em São Francisco, à alegria, ao amor com que Deus criou o mundo. Quer dizer, é o regresso ao princípio, depois daquelas várias fases, é um regresso ao princípio.

Achas que o espírito de São Francisco está à solta em Silicon Valley?

Não sei se é o espírito de São Francisco, porque há outras coisas, há outros espíritos. Mas o espírito de São Francisco é algo que, repito, 800 anos depois, é um santo influente e tivemos um papa há pouco tempo a adotar o nome de Francisco, precisamente com esta relação com esta tradição franciscana.

Muito bem. E assim termina esta edição de "E o Resto é História". Nós voltamos para a semana. Não prometemos trazer santos, mas estaremos cá nós os dois. Até lá.

E o resto é história. É a terra fumante. Do incêndio de Pedra, ainda na zona de

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