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Wednesday, October 14, 2026

Louise estreia com ‘Notívaga’ após anos cantando ideias alheias

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Cantora pernambucana fala sobre a epifania na pandemia, as madrugadas de composição e a volta ao Recife que inspiraram seu primeiro EP

Kadu Soares (@kadusoares__)

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Louise
Louise lança ‘Notívaga’, EP de estreia que tem quatro faixas e marca a busca por uma identidade própria após anos em projetos de outros artistas (Foto: Beatriz Didier)

Sempre houve uma expectativa em torno de Louise. Filha de Chico Science, líder da Nação Zumbi e figura central do manguebeat, a cantora e compositora pernambucana conviveu durante anos com a cobrança de quem conhece, admira ou idolatra a obra do pai. Ninguém precisava dizer nada, mas isso sempre rondou sua vida. “Talvez não fosse uma coisa muito direta, mas era algo que eu sentia no ar”, resume a cantora, em entrevista nos estúdios da Rolling Stone Brasil.

Em 2020, esse peso ganhou outra dimensão. Era o primeiro ano da pandemia, as mortes se acumulavam e Louise completava 30 anos — a mesma idade que Chico tinha quando morreu, em 1997. “Meu pai morreu com 30 anos, já com um legado gigantesco. E eu me vi sem o mínimo da minha essência naquilo que eu queria fazer, que é cantar”, lembra. A reflexão a levou a uma decisão: “Sei lá se amanhã eu vou tá viva. Eu preciso fazer alguma coisa por mim”.

Ela descreve aquele momento como um clique. Passou a escrever e compor mais e, pela primeira vez, começou a gostar do resultado. Até então, costumava descartar o que colocava no papel. “Antes eu escrevia algumas coisas e odiava as minhas composições”, diz.

A música, porém, não era novidade. Louise começou aos 12 anos, cantando ocasionalmente na banda de forró que a mãe mantinha com o padrasto. Depois, parou por completo e só voltou em 2012, quando foi chamada para integrar o Afrobombas. A partir dali, emprestou a voz a uma série de projetos de outros artistas, sempre com a mesma sensação. “Eu participava me encaixando no formato que outras cabeças estavam pensando. Sentia que não tava sendo 100% eu mesma”, afirma.

Para sair desse lugar, foi preciso deixar de ouvir o que vinha de fora — um processo que ela define como longo. “Eu simplesmente liguei o botão do f*da-se mesmo, porque isso só tava me atrapalhando”, conta. Sem essa mudança, avalia, talvez sua estreia ainda não tivesse acontecido.

As canções de Notívaga começaram a surgir de fato em 2023. Louise acabara de passar por uma ruptura afetiva e vivia uma fase de novas pessoas e lugares. Libriana e romântica irremediável, como se define, queria falar de amor: o triste, o apaixonado e o próprio. A escrita acontecia de madrugada, hábito que surgiu durante os nove anos em que morou em São Paulo. No silêncio, enquanto todos dormiam, ela conseguia organizar o que havia vivido ao longo do dia. Os picos de criatividade chegavam por volta das duas da manhã e não respeitavam o sono. “Às vezes eu resolvia me obrigar a dormir e aí vinha aquela enxurrada de palavras e coisas na cabeça, e eu tinha que acordar de novo para escrever”, relata.

O título só surgiu quando as músicas já estavam prontas e Louise percebeu nas letras uma atmosfera noturna e misteriosa. A palavra rondava o imaginário da cantora havia muitos anos e acabou vencendo uma lista de outras ideias anotadas pelo caminho.

O EP foi gravado em 2025, no Estúdio Zelo, no Recife, com produção de Barro e Guilherme Assis. Parte do repertório foi composta por ela sozinha; outra parte, em encontros com a dupla. Quase nada ficou pelo caminho. “O que eu levava para o estúdio já era o que ia ficar mesmo”, diz.

São apenas quatro faixas, com duração total de 11 minutos, que passam por R&B, trip-hop, rock, flamenco e drum’n’bass. Louise admite que não conseguiria escolher um único caminho para o primeiro trabalho e preferiu reunir vários gêneros. “Eu tinha medo de ficar um negócio meio embolado, mas deu bastante certo”, afirma. Cada música traz a influência de uma artista dos anos 1990 que ela admira: Selena na primeira, PJ Harvey na segunda, Beth Gibbons na terceira e Björk na última, de tom mais eletrônico. Fora da música, cita Pedro Almodóvar, Fernando Pessoa e a cultura popular pernambucana, do coco de roda ao maracatu.

A ordem das faixas surgiu por intuição; só depois Louise percebeu o arco que elas formavam. “Desperdício” trata de uma ruptura amorosa; “Casual” fala de relações sem promessas ou amarras; “Insônia” registra a ansiedade de estar apaixonada e longe; e “Tô Ligada” encerra o EP com a clareza de quem se volta para dentro e entende o que quer — e o que não quer.

O Recife atravessa o projeto inteiro. Longe de casa, Louise se sentia presa e saudosa, até perceber que precisava fazer o caminho de volta. “Parece que quando você tá mais longe do seu lugar, você sente mais vontade de ouvir as músicas de lá, de tá lá, de tá com as pessoas de lá”, diz. Ela acredita que conseguiria fazer o EP em outra cidade, “mas talvez não saísse tão bom”.

Notívaga foi lançado em julho. Três meses depois, a cantora diz estar satisfeita com o resultado artístico e com os elogios de quem ouviu. Ela resume em uma palavra a sensação de lançar algo próprio: “Libertador”.

O próximo passo é um álbum, ainda em fase de pesquisa e concepção. O plano inicial era lançá-lo no segundo semestre de 2027, mas Louise já duvida do prazo. “Um álbum é algo bem mais trabalhado, bem mais minucioso”, diz. Por enquanto, o disco não tem data.

Quanto à expectativa que sentia no ar, ela acredita ter conseguido deixá-la para trás. Antes, opiniões externas e “críticas levemente destrutivas” a afetavam muito. “Hoje em dia eu nem ligo”, afirma. “Eu sou eu, meu pai é meu pai”, finaliza.

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Kadu Soares (@kadusoares__)

Kadu Soares é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, possui um perfil no TikTok e um blog no Substack, onde faz reviews de projetos musicais.

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