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Thursday, September 17, 2026

O cinema chegou a Viseu 2.ª parte (1912-1930)

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Olá, seja bem-vindo à História das Histórias. Eu sei que está com muita vontade de ouvir a segunda parte desta crônica do Jorge Adolfo Marques, historiador, professor, mestre em arqueologia, que hoje vai não recuar tanto no tempo, mas avançar. E vamos continuar a falar da chegada do cinema a Viseu. Desta vez, a segunda parte. Vamos já começar no século XX, em 1912. Olá, Jorge. Bem-vindo. Vamos a isso.

É verdade. Olá, Jorge. Ontem terminamos com a despedida das madmoizelles.

Exatamente.

Importa dizer que este cinema mudo era efetivamente mudo, mas dentro da sala havia muito barulho. E havia música, havia músicos que acompanhavam as cenas.

Ah, faz lembrar o António Lopes Ribeiro, que tinha o pianista, não é?

Exatamente, o António Lopes Ribeiro. Exatamente, acompanhavam as músicas. Como havia uma grande taxa de analfabetismo em Portugal e também aqui na cidade, era uma taxa esmagadora de analfabetismo, os intertextos, aquelas entre as cenas-

Os cartões com os textos escritos.

Exatamente, tipo legenda ou diálogo. Eram lidos por alguém que sabia ler e lia em voz alta. E ao estilo Vaudeville, havia também outros espetáculos, outras intervenções artísticas que decorriam entre ou no final ou no início da projeção dos filmes. Portanto, é engraçado as tais madmoizelles que vão dizer as boas noites.

Exatamente.

Ora, em 1912, vamos aqui avançar ainda pelo cinema mudo, até chegarmos um pouco mais à frente, aos anos 30, em que deixa de ser cinema mudo e vamos ter então o cinema sonoro. Foi em janeiro de 1912 que começaram as exibições regulares no Teatro Viriato. Portanto, o Teatro Viriato, como eu referi ontem, tinha cinema, mas não era regular. Então passou a ter cinema regular. E por quê? Porque passou a ter uma máquina de projetar fixa, que foi alugada à empresa cinematográfica portuguesa. Tal facto veio a concorrer para que a progressiva sedentarização do espetáculo cinematográfico neste local, bem identificável no tecido urbano visense, e continua a ser hoje uma referência, o Teatro Viriato.

Claro.

Num processo que foi muito semelhante em outras cidades, como Lisboa, que foi muito bem estudado por Margarida Aciauoli. Em todo caso, nas décadas de 20 e 30, continuou a ser exibido cinema em diversos pontos da cidade, nomeadamente ao ar livre, no Campo da Feira, durante as festas de Santo António, em associações recreativas e cívicas como o Grêmio de Viseu, em salões temporários como o Olímpia, durante a Feira Franca. Já fizemos aqui referência à Feira Franca, a Feira de São Mateus.

Exatamente.

Portanto, nesses espaços muito concorridos, montavam uma tenda e era projetado o cinema, porque as pessoas gostavam do cinema. E mesmo ao ar livre, que continua a ser uma tradição aqui na cidade de Viseu, nomeadamente pelo Cineclube de Viseu, que continua a projetar programas de cinema ao ar livre.

Ao ar livre, que girro.

Luciano Dias de Sousa, que foi um empresário importante ligado ao cinema e ao teatro em Viseu, também levava o espetáculo cinematográfico a casas particulares. O que é muito curioso. E a festas populares. Repare-se, o cinema era um espetáculo novo, era uma novidade, as imagens em movimento, cômicas, de sítios exóticos. Portanto, tudo isso era muito procurado. Eu diria que é um bocadinho como hoje a internet.

Exatamente.

Os TikToks são muito procurados.

Exato.

Era um negócio, também. No dia 16 de setembro de 1922, foi inaugurado em Viseu o cineteatro Avenida Teatro, situado na Avenida Emídio Navarro, com a representação da peça "A Ceia dos Cardeais", de Júlio Dantas, pela Companhia Nacional de Teatro. Portanto, a Companhia Nacional de Teatro vem a Viseu inaugurar esse cineteatro. E três semanas depois, a 8 de outubro, decorreu ali a primeira sessão de cinema, com a exibição do filme "Amor de Perdição", do realizador Jorge Paolu, numa adaptação do romance que todos conhecemos, de Camilo Castelo Branco. O novo cineteatro era a primeira casa de espetáculos construída de raiz em Viseu, depois do tal Teatro Boa União, que passou a Teatro Viriato.

Viriato, exatamente.

Que tinha sido inaugurado em 1883.

80 anos antes.

Repare-se há quanto tempo não se construía uma casa de espetáculos em Viseu. Importa referir que nos primeiros anos da década de 1910, o já nomeado doutor Casimiro de Vasconcelos, o tal radiologista, teve a intenção de construir também um salão de animatógraf e variedades numa outra rua da cidade, no bairro de Maçorim, mas não levou adiante esse projeto. Importa aqui fazer bem referência a este Avenida Teatro, porque já foi demolido nos anos 80. Mas este Avenida Teatro foi projetado pelo arquiteto portuense Eduardo Coutinho, que deixaria a sua assinatura noutras obras executadas na cidade de Viseu. Apresentava uma arquitetura de traço moderno Estamos em 1922, é importante. Sem marca relevante, fazendo lembrar outros edifícios e equipamentos construídos em Portugal nesses inícios do século XX. Como se percebe pela leitura da entrevista que ele concedeu ao jornal "O Comércio de Viseu", poucos dias antes da inauguração, esta casa de espetáculos impressionava, porque tinha lugar para 2 mil lugares. Permitia 2 mil lugares. Número que ultrapassava em mais do dobro a capacidade do antigo Teatro Viriato, colocando-se como uma das maiores casas de espetáculo em Portugal. Tal capacidade era mais expressiva, se tivermos em conta que na cidade viviam apenas cerca de 8.500 pessoas. Portanto, era uma casa enorme. A arquitetura interior do Avenida Teatro também causava um grande impacto pelos seus corredores amplos, foyer, átrio, escadaria de acesso aos camarotes, e sobretudo pela luz, e diz o arquiteto: "A jorros, fornecido por 1.500 lâmpadas". Era um espetáculo de luz.

Exato. Deslumbrada.

O ambiente era muito cativante. Indubitavelmente, era um cineteatro que procurava corresponder a esse ambiente funcional, e a uma nova estética. A pintura do teto, que ao jornalista pareceu coisa do futurismo, nada mais era para o arquiteto do que uma pintura moderna.

Como agora se usa.

Exatamente, como agora se usa.

Se usa muito.

Exatamente. Nós estamos na altura do futurismo, do modernismo, dessas vanguardas estéticas. Foi nesta mesma casa de espetáculos que, no dia 11 de julho de 1930, se estreou o cinema sonoro. Foi naquela casa. O cinema, em Viseu, com o filme "O Cantor Louco", de 1928, realizado por Lloyd Bacon e protagonizado por Al Jolson, Betty Bronson e Josephine Dunn. Apesar das condições técnicas, outra vez as condições técnicas não foram as melhores, tal como na inauguração do cinema em Viseu, em 1897, o Comércio de Viseu, no dia seguinte a esta sessão histórica, não se impediu de dizer que tão poderosamente a cena muda que nos consegue arrebatar. Quer dizer, o som auxiliava a cena muda. Quer dizer, já se percebia que o futuro era o som, era o sonoro. Isso ditou o fim da carreira de muitos atores da era do cinema mudo. Depois dessa sessão de estreia, o público visenho só voltaria a assistir a cinemas sonoros no dia um, em fevereiro e em março do ano seguinte, com "A Vida do Soldado", do realizador português Aníbal Contreiras. Tal intervalo de tempo deveu-se ao fato desta casa de espetáculo não dispor da amplificação sonora, sendo necessário alugar o equipamento, que era muito caro.

Cada vez que havia um filme sonoro. Exato.

Com sonoro. O problema estava no material técnico de amplificação do som.

Antigamente era melhor, porque era um barracão quase a ruir.

Quase a ruir com o pessoal a entrar, a chocar a cabeça e a fumar.

Prestava-se a vida quando se ia ver um filme.

Exatamente. E esta casa de espetáculos, o Avenida Teatro, está na memória de muitos visenhenses que assistiram, até aos anos 70, a espetáculos, a cinema, naquele espaço, que depois, infelizmente, foi fechado. Foi construído outro cinema mais moderno noutro ponto da cidade. Portanto, aquele perdeu clientela e entrou em ruína, entrou em abandono e foi demolido para uma urbanização que se encontra lá naquele espaço. Mas este percurso do mudo ao sonoro, que nós procuramos aqui fazer num novo espetáculo na cidade, que é também parte da história da cidade.

Exatamente. E também do país, porque afinal foram quase pioneiros também na vinda do cinema para o país. Jorge, gostei muito de fazer este percurso contigo. Estaria impedido de não fazer uma "Cinema Chegou a Viseu" terceira parte. Aprendemos imenso sempre contigo e agora fizemos outro tipo de viagem, mais recente, mas não menos interessante. Agradeço muito, Jorge, e amanhã temos mais conversa. Até amanhã.

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