Volta Ronaldo III: o golo 1000 de ser em Alvalade

No último artigo que escrevi sobre este tema do Ronaldo, ao contrário do que costumo fazer, limitei-me a desabafar e a lamentar-me sem sugerir nada para o futuro. Vou agora complementar esse artigo e reforçar outros que escrevi há 4 anos a defender o regresso de Cristiano Ronaldo ao Sporting. Hoje acrescento um novo argumento: Cristiano Ronaldo deve voltar ao Sporting para tentar marcar, de leão ao peito e em Alvalade, o golo 1000 da sua extraordinária carreira.
Quando escrevi pela primeira vez sobre o seu possível regresso, recordei aquele miúdo que vi ao vivo no antigo Estádio José Alvalade marcar o seu primeiro golo como sénior. Pegou na bola pouco depois do meio-campo, arrancou, ultrapassou adversários e terminou a jogada picando a bola sobre o guarda-redes. Era apenas o princípio de uma história que ninguém, nem o sportinguista mais otimista naquela bancada, poderia imaginar.
Vieram depois Manchester, Madrid, Turim, novamente Manchester e a Arábia Saudita. Vieram Champions, Campeonatos, Bolas de Ouro, Europeus, recordes atrás de recordes e centenas de golos. Agora falta-lhe aquele que será provavelmente o número mais simbólico de todos: o milésimo.
Ronaldo está a apenas 21 de uma fronteira que parecia inimaginável para um futebolista da nossa geração. Pois eu acrescentaria uma ambição à ambição de Ronaldo: chegar aos 1.000, sim. Mas chegar aos 1.000 no Sporting Clube de Portugal.
Porque os grandes campeões também se fazem da forma como fecham as suas histórias. Ronaldo já não precisa de mais dinheiro para justificar uma escolha profissional. O que ainda pode acrescentar à sua carreira é algo que dinheiro nenhum compra: um final perfeito.
Imaginem por um momento: Estádio José Alvalade cheio. Camisola 7 verde e branca. O jogador que saiu dali adolescente, depois de ter chegado sozinho da Madeira ainda criança, regressa mais de duas décadas depois como um dos maiores jogadores da história do futebol. E marca ali o golo 1000. Há coisas que se contam através de estatísticas. Outras contam-se através de histórias. Esta daria um filme.
E é precisamente por isso que penso que Sporting e Ronaldo deviam fazer um esforço para que acontecesse. Não estou a sugerir que o Sporting abdique da sua racionalidade financeira, do balneário ou do projeto desportivo. Pelo contrário. Ronaldo só deveria regressar se aceitasse que está a voltar para integrar uma equipa e não para ser maior do que ela. Poderia por exemplo apenas entrar nos jogos em Alvalade. Custa-me acreditar que não seja possível encontrar uma fórmula.
Há quatro anos já defendia que uma operação deste género não poderia ser analisada olhando apenas para a folha salarial. O impacto em bilheteira, patrocínios, merchandising, direitos comerciais, redes sociais e projeção internacional do Sporting seria incomparável. Hoje esse efeito seria ainda maior. Porque já não se venderia apenas o regresso de Cristiano Ronaldo. Vender-se-ia ao mundo a corrida para o golo 1000.
Cada jogo do Sporting passaria a ter uma contagem decrescente. Faltam 10. Faltam cinco. Falta um. Alvalade passaria a estar no centro do futebol mundial à espera de um momento que ficaria para sempre nas imagens da história deste desporto. O próprio Ronaldo ganharia alguma coisa que me parece cada vez mais importante nesta fase da sua carreira: um propósito que não é apenas estatístico. O número 1000 é extraordinário. Mas o lugar onde se chega a esse número pode transformá-lo numa coisa ainda maior.
Ronaldo disse recentemente que gostaria de marcar o golo 1000 pela Seleção Nacional, classificando isso como “mais uma história bonita”. Percebo perfeitamente a intenção, mas acredito que já não é possível depois de tudo o que aconteceu. Permita-me, Cristiano, como sportinguista, sugerir uma história alternativa. Marque-o em Alvalade pelo Sporting. No estádio do clube onde tudo começou. Imagine o simbolismo: o primeiro e o milésimo ligados pela mesma camisola. Seria impossível desenhar melhor o princípio e o fim de uma carreira.
E há ainda outra razão. O regresso de Ronaldo não seria apenas um presente que o Sporting lhe ofereceria. Seria também um presente dele ao Sporting. Milhares de crianças que hoje vestem camisolas de Ronaldo nunca o viram jogar de verde e branco. Conhecem a história pelas imagens, pelos pais ou pelos avós. Para eles, Cristiano Ronaldo é português, é o capitão da Seleção, é um símbolo mundial, mas a ligação ao Sporting pertence quase ao passado. O regresso tornaria essa ligação novamente presente.
Sei perfeitamente que haverá quem diga que estou outra vez a sonhar. Que Ronaldo tem 41 anos. Que ganha demasiado. Que o Sporting não precisa dele e já lá temos ótimos pontas-de-lança (embora aparentemente um com tendência para problemas físicos e outro que parece ser desestabilizável). Que poderia perturbar equilíbrios. Que há demasiadas condicionantes para que aconteça. Tudo isso pode ser verdade. Mas também era improvável aquele miúdo da Madeira tornar-se no que se tornou.
Algumas decisões no futebol fazem-se com Excel. Outras fazem-se com coragem. E há umas poucas, muito raras, que devem fazer-se porque sentimos que a História está ali à nossa frente à espera que alguém tenha coragem de a escrever. O Sporting e Cristiano Ronaldo têm uma oportunidade única. Não tragam Ronaldo de volta apenas para terminar a carreira. Tragam-no para terminar a história. O primeiro foi de leão ao peito. O milésimo também vai ser.
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